A dieta de Francisca – Angélica de Barros

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A louca? Respondeu rindo um dos meninos. Levaram para o asilo. Ficava na varanda comendo besouros. Acharam melhor internar. Aqui não tem casa de louco, então foi para lá. Me deu um profundo mal-estar quando ele falou isso. Sabia que não estava tudo bem com Francisca, mas não imaginei que fosse tanto.

Tudo continuava igual naquele buraco. As casas caindo aos pedaços, a praça devastada pelo mato, a igreja com a porta fechada, os meninos sujos perambulando pelas ruas.

O asilo não era longe, ficava no pé do morro no final da rua principal. O calor era insuportável e não havia nenhuma sombra pelo caminho. Os meninos me seguiram até lá brigando entre eles. Atravessei o portão com um receio enorme. A conversa na recepção não foi nada boa. Me senti no fim do mundo.

Francisca estava sentada sozinha no sofá com a cabeça abaixada. Na sua mão uma agulha de crochê e aos seus pés um emaranhado de fios entrelaçados. Era pele e osso. Os cabelos despenteados e compridos. As pernas tortas. Parecia tão frágil sentada daquela maneira. Quando me aproximei, levantou a cabeça e olhou para mim com seus grandes olhos negros.

– Vão arrancar meus dentes, falou Francisca.

– Se você não parar de comer insetos… um absurdo tudo isso.

– Ninguém entende, nem você pelo jeito. O sonho que eu tive, o segredo, os besouros. Os besouros protegem os corações dos mortos, se arrancarem meus dentes não vai sobrar mais nada.

– Francisca, foi só um sonho estranho, só isso. Essas coisas não existem, você está viva. Não está falando comigo agora?

– Você faz parte do sonho. Estou em decomposição, os besouros são os únicos que podem me ajudar.

Não consegui falar mais nada. Francisca voltou para seu mundo e me deixou ali sozinho diante dela como se nada mais importasse. Eu estava perdido com tudo aquilo e muito angustiado.

Os meninos sujos estavam me esperando, mas não chegaram muito perto, acho que perceberam pela minha cara que eu não estava bem. Antes de voltar à praça para esperar pelo próximo ônibus, parei num boteco e pedi uma cerveja. Estava engasgado com toda aquela história. O primeiro gole desceu arranhando a minha garganta como se levasse pedaços de asas duras e de patas pontudas para o meu estômago. No segundo copo me senti mais aliviado. A única coisa que eu queria era ir embora daquele lugar.

Para a minha sorte o ônibus chegou logo. Antes de partir, joguei algumas moedas para os meninos sujos pela janela. Fechei a cortina e tentei dormir, mas lógico que não consegui. Francisca ainda estava dentro de mim. Talvez tivesse razão. Ela estava morta, mas com dentes. Alguma coisa, por mais insólita e grotesca, ainda podia nutri-la, nem que fossem alucinações, nem que fossem besouros.

Os gritos dos meninos sujos desapareceram logo e aos poucos, pela estrada árida, Francisca também desapareceu. Alguma hora adormeci e quando abri os olhos, o chão estava coberto por besouros.

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Sobre o autor

Nasceu em São Paulo-SP, 1967. É formada em Publicidade pela FAAP-SP. Trabalhou com artes gráficas por vários anos. Participou das oficinas dos escritores Cadão Volpato (ago2016/jun2017) e Ronaldo Bressane (ago/dez2017).

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