Do inferno – Deco Vicente

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Carnaval. Olinda. Domingo. Festa de amigos. Todo mundo se divertindo. Eu, pra variar, trabalhando. Ou quase. Quem consegue se concentrar cem por cento com termômetros beijando os trinta e três graus? É preciso mais água que profissionalismo. Sombra quase não tinha. Estava numa versão pernambucana da Costa do Esqueleto. Se faltava as carcaças de navios, tinha de sobra a de relacionamentos. Casais fantasma às dúzias. Queriam estar ali. O problema estava na configuração.

Minha meta era cristalina: dezesseis horas. Eis o limite combinado com a dona da festa. O ponto em que trocaria a fantasia de fornecedor pela de convidado. Fiz tudo aquilo que o script pedia: ser simpático, atencioso, sorridente, solícito, compreensivo e, óbvio, manter as mãos firmes. Quase de uma forma cirúrgica. Um autêntico operador de sorrisos.

Cartão cheio, câmera desligada. Às quatro fui relaxar. Parei num canto ainda vazio e agachei pra guardar o equipamento na mochila enquanto pensava em todas aquelas preocupações que o carnaval proporciona: quantas cervejas comprar. De cabeça baixa, só consegui ouvir uma bela voz fazendo um convite tentador.

– Posso passar glitter na tua barba?

Subi a vista e vi uma moça bancando a demônia de chifres clássica. Não cheirava a enxofre, mas ornava olhos verdes que fulminariam até o mais devoto dos daltônicos. Fiz o que qualquer pessoa sensata faria. Parei, respirei e mandei:

– (…)

Sim. Três segundos pra comprovar que os meses investidos em oratória serviram pra nada. Como os únicos músculos paralisados eram os da língua, consegui usar a cabeça pra acenar positivamente. Minha barba então, além de fios castanhos, ruivos e brancos, também passou a ostentar o vermelho-glitter.

Firmado o pacto, a diaba devolveu minha voz. Mas a alma e o coração, ah, esses se foram pra sempre.

Deco Vicente nasceu no Recife, em 1979, e visita a cidade regularmente. Já escreveu em alguns blogs, mas prefere omitir os detalhes. Hoje também tenta contar histórias através de câmeras fotográficas.

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