Editorial

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Continuando com o compromisso de mapear a produção contemporânea realizada a partir do estado de Pernambuco, desta vez apresentamos um dossiê de natureza um pouco diferente dos anteriores. Se antes nos detivemos em detalhes a respeito da obra de Sidney Rocha, José Luiz Passos, Marcelino Freire e Samarone Lima, desta vez nos propusemos a pesquisar e debater alguns autores que acabam de estrear em livro. O critério, assim, foi o da estreia: quase todos os livros analisados são o primeiro ou segundo livros relevantes publicados pelos seus autores. Embora na maioria dos casos suas carreiras tenham se iniciado antes das publicações dos livros resenhados, não seria exagerado dizer que a trajetória dos anos anteriores, percorrida por cada autor, tem seu primeiro ponto de convergência e síntese em cada livro analisado pelo Vacatussa.

Nivaldo Tenório, Clarice Freire, Fernando de Mendonça, Bruno Liberal, Débora Ferraz, Helder Santos, Adelaide Ivánova e João Paulo Parisio são os escritores escolhidos para figurarem neste dossiê. Os livros resenhados foram publicados entre 2012-2014. Seus autores estão na faixa dos 20-40 anos. Três moram no interior de Pernambuco – Nivaldo Tenório (Garanhuns), Bruno Liberal (Petrolina) e João Paulo Parisio (Arcoverde) -, ao passo que Clarice Freire e Fernando de Mendonça moram no Recife. Débora Ferraz está radicada há anos em João Pessoa; Adelaide Ivánova, na Alemanha e Helder Santos em São Paulo.

As propostas estéticas são bastante variadas. Temos desde o fantástico irrompendo no cotidiano, nos casos de João Paulo Parisio e Bruno Liberal, até um realismo de linguagem concisa e temática angustiante, no caso dos contos de Nivaldo Tenório. A hibridez de gêneros textuais e visuais se faz presente no trabalho de Adelaide Ivánova, Clarice Freire e Helder Santos, que também ilustra seu romance Raiar. Nas duas primeiras, plataformas de publicação digital – Facebook, Blogs – podem ter desempenhado papel fundamental na constituição das suas escritas, que também flertam com o epigrama e a poesia. Por fim, tanto Fernando de Mendonça, quanto Débora Ferraz, criam vozes narrativas que nos remetem a Proust, Clarice Lispector, Virgina Woolf, rearticulando memória e cotidianidade em escritas não lineares, subjetivas e poéticas, percorrendo desta forma um caminho consolidado pela modernidade literária desde meados do século XX.

Os caminhos de publicação de cada autor são fascinantes, mostrando a diversidade de meios pelos quais um escritor pode hoje tornar público seu trabalho no sistema literário brasileiro. Débora Ferraz, por exemplo, surge com muita força ao ganhar o importante prêmio de novos autores do Sesc, que já lhe garantiu com todo merecimento uma publicação através de uma das mais importantes editoras do país, a Record, bem como atenção da crítica e do mercado editorial. Por esse mesmo caminho dos concursos que acabamos descobrindo o nome de Bruno Liberal, através da primeira edição do Prêmio Pernambuco de Literatura. Clarice Freire, por outro lado, acaba de se firmar como best-seller na lista de mais vendidos do site Publishnews; seu trabalho inicialmente se tornou conhecido no Facebook e, após se tornar um fenômeno de compartilhamentos, é agora publicado por outra importante editora comercial, a Intrínseca.

João Paulo Parisio publica pela CEPE, uma editora pública, e podemos imaginar que o caminho até a sua publicação se deu através de caminhos mais “tradicionais”: seja garimpado pelo conselho editorial da instituição, seja mediante o envio dos seus originais para o mesmo conselho. Adelaide Ivánova, assim como Clarice Freire, publicou previamente seus textos em blog e em jornais para posteriormente estrear exclusivamente em e-book através da recém-lançada editora independente Cesárea, cujo catálogo é exclusivamente digital. Independente é também a estreia de Nivaldo Tenório, publicada pelo selo u-carbureto, de Garanhuns, composto por um coletivo de autores do qual o próprio Nivaldo faz parte. Caso semelhante ao de Helder Santos, publicado pelo selo Edith, criado por um coletivo de escritores de São Paulo. Por fim, o romance de Fernando de Mendonça foram aposta de uma também pequena editora de Pernambuco, a recifense Paés.

O método de trabalho dos dossiês anteriores continua o mesmo: além das resenhas, cada autor foi entrevistado sobre seu trabalho; quando possível, as resenhas também indicam links com outras leituras sobre as obras resenhadas, proporcionando ao leitor do Vacatussa um olhar em muitos casos bastante diferente do nosso.

Uma boa leitura a todos!

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