Elvis – André Balaio

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Oséias colocou a bebida no chão e Elvis se aproximou para cheirar o gargalo. Ao encostar o focinho, fez a garrafa girar e rolar pela rampa. O vidro bateu no meio-fio e se espatifou, o restinho de aguardente escorreu pelo canto da rua até o bueiro. Oséias gritou e Elvis correu até a esquina, ficou lá, deitado encolhido, a cabeça apoiada nas patas.

– Volte aqui, seu porra.

Veio com a cabeça baixa, levou um tapa na cara e ficou quieto, viu a merda que tinha feito. No tempo em que Oséias morava naquela rua teve uma festa no casarão só com bacana chegando de carrão, motorista, repórter. Não pôde assistir, foi expulso da calçada, precisou de abrigo na avenida duas quadras adiante. Agora entrava no palacete, sentia o que os convidados sentiram, admirava as luzes da fonte e os enfeites do jardim, mesmo que a fonte estivesse sem água, imunda, cheia de lodo, e o mato cobrisse o que antes era o jardim.

A porta da frente se abriu para um salão enorme que parecia ainda maior por estar vazio. O lustre sujo deve ter refletido a luz em muitas barras de vestido que dançaram no piso de mármore agora preto de fuligem e poeira. Na escada ainda imponente, uma mulher bonita desce para lhe conceder a dança. Ele assobia o Danúbio azul, ergue Elvis e o segura no dorso para uma valsa limitada pelo curto alcance das patas traseiras. O garçom se aproxima com uma dose de uísque, outro traz comida e ele se farta de canapés, rissoles e camarões. Um senhor grisalho de smoking aparece, deve ser o dono, e pergunta quem ele é. Oséias não pode dizer o nome, é um Silva que só entra numa festa assim para trabalhar, por isso responde sou o embaixador, não, sou o primeiro-ministro. De onde? Lembrou de um velho filme com o rei Arthur que viu no cinema quando ainda morava numa casa e tinha mulher e filhos, havia uma ilha, Avalon, então ele é o primeiro-ministro de Avalon, resposta que deixa o grã-fino boquiaberto e o faz chamar a esposa, querida, lhe apresento o ministro… como é mesmo o seu nome? Oséias Lancelot. E pega uma garrafa com o garçom que bebe no gargalo até o fim.

A luz do sol atravessa a ausência das telhas e acerta a cara, arde a vista, queima a pele, assim não dá pra dormir. Levanta e vai para um lugar protegido. Vem, Elvis, grita para o amigo, e forra o chão com pano velho para não se cortar com os cacos de vidro que caem das janelas.

Acordou de novo, puta que pariu, agora é um motor ligado. O sol não era mais uma bola amarela, era preta, o barulho lembrou aqueles monstros de filme japonês que invadem a cidade, vão pisando nas casas e derrubando prédios, sim, gostava de cinema quando era mais moço e tinha dinheiro. Por que a bola de ferro bate na coluna?

Começou a cair o mundo justamente onde estava deitado, ficou coberto de pedaços de alvenaria no meio do pó de gesso. Tentou se levantar para correr, mas as pernas estavam presas, gritou e saiu um fiapo de voz, falou para o companheiro: sai daí, rapaz. Sai.

Elvis girou sem sair do lugar e ganiu ao ver a pedra pegar Oséias, o sangue escorrendo, uma papa vermelha na testa. Ficou tonto, os olhos pesados, vontade de dormir, paredes no chão, telhas despencando, a escada explodindo em pedaços de madeira. A casa virou um imenso entulho, caiu um bloco inteiro sobre Elvis e ele latiu, latiu, era preciso avisar, era preciso.

No intervalo para o almoço, os operários ouviram o ladrar insistente e correram para os destroços. Tem um cachorro aí embaixo. Pega a escavadeira, melhor não, pega o carrinho e a pá, cuidado para o bicho não morrer, usa a mão, segura aqui.

Removeram o material amontoado, retiraram os detritos seguindo os ganidos, esperavam salvar o bicho e acharam um homem destroçado. Ainda respirava. Ao lado, um cachorro morto, esmagado.

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Sobre o autor

Nasceu no Recife-PE, 1968. É escritor e roteirista. Venceu o Off Flip 2016 com o conto O lado de lá, foi finalista do SESC 2017 (contos), do Prêmio Cepe e terceiro lugar no concurso da UBE – RJ 2017 com Quebranto, livro que sairá em 2018.

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