Em três segundos – Julia Larré

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o acre das
mãos que passam –
no ferro do ônibus.
ela pedia
parada –
tinha enjoos
cotidianos – e
conhecia muito pouco
de si.
subia as escadas
do prédio de
chão negro –
que o coletivo na
mesa de
angelim
pedra
fosse amigável.

o ambiente –
empoeirado –
a luz forte
acima do
círculo formado –
as vozes que ecoavam
não traziam o
conforto do conhecido.
palavras em redemoinho
vórtices de luz
em um grupo que
tudo sabia
tudo falava
tudo fazia –
mas não se
olhavam.

era tarde.
papéis na mesa
de cerne castanho e
aquele mesmo
cheiro azedo do
ônibus.
ela pensa:
o grupo não a vê.
ela não existe.
nada sabe das
conversas
em um ar fibroso
de academia.

põe os óculos
escuros –
senta no chão preto
e come
no marmitex –
cheiro de ovo
cozido.

o corredor
próximo às
escadas
era
cheiro de angelim
de ovo cozido

e
do arroto do
grupo cego e
surdo.

**

nas pessoas que
aqui se
encontram –
cada qual com
suas agruras.

fulano segue sua
rotina
toma seu vinho e
olha ao lado o
vizinho –
os mesmos problemas
de
sempre –
escolher o que
ou não levar
no almoço do
trabalho.

levantou-se, olhou
mais de perto da
janela e
cumprimentou o
vizinho que
chorava
silenciosamente
mais um mês de
conta de luz a pagar.

**
por seus
interesses
reuniam-se à
tarde quente para
decidir questões
importantes
criar panfletos e
tomar café com leite
em pó.

à noite –
cada qual com
suas vidas –
esqueciam-se das
lutas
e assistiam à
tv e seus verbos
do capital.

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Sobre o autor

Julia Larré nasceu no Recife-PE, 1986. É formada em Letras e é professora da UFRPE. Tem poemas e contos na Eutomia e publicará o livro morfologia da dor pela Mariposa Cartonera em 2018. Mantém o blog Língua Feroz (http://julialarre.wordpress.com).

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