Empestos – Helder Herik

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Coçou a barba com a ponta da faca e olhou os longes. Farejou desgraçaria. No recuado a nuvem soprava o chão, levantava poeira e zumbia, mas, como ainda vinha distante, Salatiel achou de ficar. Teria coragem de enfrentar a praga. Uma faca na mão, o punho fechado na outra. Fosse briga com outro homem venceria cortando-o ao meio, igual fazia com os barrões no tempo do açougue. Quem fosse cavalo do cão que viesse lhe tirar a estrada. Tinha o sangue abrasado e estourava por migalhices.

As mãos de Berta faziam uma concha, abrigando a vela que tremelicava. Ajoelhada, rezava com os cotovelos na mesinha dos santos. Gritou que o marido entrasse e, como não teve resposta, nem ele vinha, perguntou se o diabo lhe tinha carregado? Olhou os santos e sentiu vergonha. Na certa levaria em conta aquele deslize e a reza perderia força. Culpou o marido. Inventou que o traste pegara surdez, tanto lhe tinham berrado os suínos nas horas tristozas.

A nuvem caminhava de muito longe, roendo pés de milho, algarobas e vagens. Salatiel correu com os barrões. Trancou-os em casa. Berta interrompeu as preces. Como é, igual fim de mundo? Perguntou. Disso a pior! Respondeu Salatiel, a ponta da faca fincada na barba que embranquiçava. Quantos anos teria ele e a esposa? Mais de cinquenta, se fosse em contas de cabeça.

Os dedos de Berta rodavam o botão. Calejados e grossos. Engelhados. Pareciam troncos. A voz da rádio chegava rouca, sumia. Berta rodava o botão e a voz tornava, rouca, chiada. O aparelho estaria com algum defeito. Troço velho, igual ela e o marido. Fora comprado em feira de trocas. Podia ser roubado ou o dono se desfizera, evitando entulhos. Salatiel pôs um capucho de palha de aço na antena e a voz do rádio endireitou. A nuvem de gafanhotos passava pelo Estado de Pernambuco. O Agreste. Uma praga que vinha comendo plantações.

Os barrões deram de grunhir. Mesquinharias. Salatiel achou aquilo um mau sinal, chamaria a atenção dos insetos. Desejou esfaqueá-los. Fez sinal com a ponta da faca, mas os bichos eram brutos, não conheciam de bom senso. Berta pensou em levar os barrões para fora, deixar que os insetos os comessem, roessem os ossos. Mesquinharias. Talvez poupassem o roçado. Daria os barrões em sacrifício. Arrependeu-se da heresia. Envergonhou diante dos santos. Equilibraria tudo, rezaria também pelos barrões. Incluindo os bichinhos ganharia algum crédito.

Salatiel pensou na trabalheira de tudo. Acordar cedo, abrir covas, semear caroços, tapar, esperar a chuva, capinar o mato grosseiro em volta. Esperar o tempo de colher. Suor e dores nas costas. Acostumara trabalhar de cedo. Achava bonito passar o dedo na sobrancelha, ver os pingos de suor despojarem. Deus ajuda quem cedo madruga. Isto era a lei. Estufava o peito, pois sim, era a lei. Agora Deus permitiu aquilo, uma praga que varreria tudo: o milho, as algarobeiras e as vagens. No melhor dos anos, aquilo não lhe daria fortuna. Não senhor. Mas sempre sobreviveu daquilo. Dispensava os atravessadores, gatunos, ladravões. Vendia direto nas feiras e abastecia mercearias.

Deus, se bem quisesse, sopraria a nuvem para longe, para o inferno, que a bem receberia. Os gafanhotos que fossem comer o diabo, não ele, pobre roceiro. Não era devoto, que sua cabeça não entrava abstrações, mas era honesto. Colocava quilos a mais para os fregueses, vendia fiado e tinha vergonha de cobrar. Se visse alguém que lhe devesse, baixava a cabeça, vergonhado. Era errado cobrar o seu cobre? Vergonhava e o devedor lhe compraria mercadorias e deixaria fiado, mais e mais. E Deus não poderia ver isso? Um homem que se deixava enganar não lhe teria as bênçãos? Pois que não. Era a lei. Berta, sua esposa, vivia de rezas, joelhos estambocados, tantas preces. Isso não contava, era preciso que ele também se ajoelhasse?

Um gafanhoto caiu em cima da mesa de santos. Vinha mais a frente da nuvem. Anjo decaído, anunciando a pestilência. Berta levantou a mão, Bendito é o fruto do vosso ventre, e desceu a mão espalmada, esmagando o inseto, Jesus! As vagens, os barrões. Era a lei.

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Sobre o autor

Helder Herik nasceu em Garanhuns-PE (1979). É autor de Amorte, As plantas crescem latindo, Sobre a lápide: o musgo, A invenção dos avós e Rinoceronte dromedário (Cepe, 2015), que foi um dos vencedores do 2º Prêmio Pernambuco de Literatura.

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