Enquanto deus não está olhando – Débora Ferraz

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AVALIAÇÃO

80%
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Muito bom
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PRÓLOGO

Autora: Débora Ferraz nasceu em Serra Talhada-PE, em 1987. Escreveu o livro de contos Os anjos aos 13 anos e o publicou aos 16. Seu conto O filhote de terremoto foi adaptado para o cinema, virando o curta Catástrofe.

Livro: Publicado em 2014 pela Record, o livro foi o vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2014, na categoria romance. A edição traz orelha assinada pela professora Eneida Maria de Souza e texto de Luiz Ruffato na contracapa.

Tema e Enredo: O livro narra a história de Érica, uma jovem pintora que vive o desafio de conviver com o desaparecimento do pai e as consequências que isso traz para sua vida pessoal, familiar e profissional.

Forma: A narrativa é fragmentada, alternando trechos de memória, ações do tempo presente, registros de diário e sonhos da personagem.

CRÍTICA

Tradução em imagens

Embora o tempo sempre flua no mesmo compasso ritmado do ponteiro dos segundos, alguns fatos atingem a vida com tanto impacto que o tempo se engasga, como que para marcar os momentos de mudança da nossa trajetória. No caso de Enquanto deus não está olhando, que deu a pernambucana Débora Ferraz o Prêmio Sesc de Literatura 2014 na categoria romance, o trauma catalisador dessa ruptura é o desaparecimento do pai de Érica. É pela narração dela que o enredo se desenrola, o que nos faz ter acesso a seus sentimentos, medos, pesadelos e pensamentos. O que não é necessariamente o que de fato ocorre, mas o ponto de vista de uma jovem abalada com o desaparecimento do pai.

Assim, vamos desvendando junto com a personagem o mistério que envolve o sumiço de Aluízio, numa investigação que recorre a trechos de diário, lembranças e conversas com parentes. Aqui descobrimos o problema dele com bebida, a relação conflituosa de Érica com o pai e a desaprovação dele em relação ao trabalho da filha como pintora. Embora não apareça em nenhum momento além das lembranças da personagem, Aluízio é presença constante no livro, num semelhante ao filme Rebecca de Hitchcock, onde a personagem do título só aparece enquanto quadro e parâmetro de comparação à nova esposa do viúvo Maxim.

Ao mesmo tempo em que Érica mergulha em ruminações, ela precisa se adaptar à nova realidade, tendo que lidar com questões práticas como a conta de água, o trabalho numa agência de publicidade, o choro da mãe e outras responsabilidades que até então eram assumidas pelo pai. Nessa adaptação, ela conta com a ajuda de Vinícius, amigo de infância que reaparece na vida de Érica após o sumiço de Aluízio e que assume um papel importante na recuperação da personagem (e, por consequência, na história).

O interessante é que Débora Ferraz consegue traduzir na forma estética o drama de Érica. O romance é construído através de fragmentos, que se alternam na busca por respostas, na revolta, incompreensão e preocupação da personagem em esquecer o pai. É como se a incapacidade de Érica em aceitar e entender o destino do pai a fizesse mergulhar em ruminações e ficasse girando sempre em torno do mesmo eixo. No entanto, esse método de Érica não se revela tão eficiente, deixando lacunas abertas que se evidencia entre a primeira e a segunda parte do livro, a partir da consulta da personagem à psicóloga, quando a busca pelo pai muda de rumo. Algo que Débora Ferraz sabe explorar bem, fazendo com o que o mistério se prolongue e com que o leitor também faça suas próprias suposições.

Essa tendência de retorno ao passado, ao que descobrimos na página 177, não é algo momentâneo na vida de Érica, mas reflete a sua própria personalidade: “– Comecei a desenhar para poder lembrar como eram as coisas e as pessoas – digo a ela. Era um exercício assim: eu ia pra aula pela manhã, e pela tarde desenhava o tempo inteiro como tinha sido essa manhã de aula. Naquele tempo eu achava que havia um mistério se escondendo nas horas, mas que não tínhamos tempo suficiente para olhar e descobrir que mistério era esse”.

Além das sucessivas repetições e da alternância temporal, Débora Ferraz aproveita essa característica da personagem de outra maneira na linguagem. A autora explora o forte vínculo de Érica com as imagens para moldar o texto, seja pela absorção do vocabulário próprio para compor o universo da personagem (em especial nas cenas de pintura); pela visão metafórica dela que é ressaltada na convivência com Vinícius e sua visão pragmática de economista; ou por meio de descrições meticulosas de cores, disposição de espaços, gestos e expressões.

É graças a esse olhar privilegiado de Érica aos detalhes que Débora Ferraz consegue construir belas imagens poéticas, proporcionando ao leitor um novo filtro sobre pequenos detalhes do mundo. Como exemplo, a percepção de diferentes velocidades através das janelas do ônibus ou as rachaduras da casa, que, para Érica, acabam servindo como uma metáfora da sua família, abrindo-se, revelando-se em segredos a partir da ausência do pai. Passagens assim, que praticamente exigem uma pausa na leitura para sublinhá-las, fazem de Enquanto deus não está olhando um livro maduro, que dosa seus méritos aos poucos, no desenvolvimento do enredo, no processo de montagem, no trabalho de linguagem, na construção de ideias e nos personagens bem definidos, dotados de personalidades próprias.

Lido em setembro de 2014

Escrito em 20.09.2014


Relação com a escritora: Apenas entrei em contato com a autora para viabilizar a entrevista para o Vacatussa e para o Café Colombo.

FICHA TÉCNICA

Enquanto deus não está olhando
Débora Ferraz
Editora: Record
1ª edição, 2014
366 páginas

TRECHO

“Na janela do motorista, as coisas passavam quase em câmera lenta; da minha, eram rápidas, mas da janela logo atrás de mim, nem era possível enxergar as árvores, que viravam um borrão ligeiro. A cidade em recortes. Em cada recorte, velocidades diferentes. O que ficava pra trás, a velocidade borrava.” (p. 22)

OUTRAS OPINIÕES

Bráulio Tavares, no Jornal da Paraíba, 16 de setembro de 2014.

(http://www.jornaldaparaiba.com.br/coluna/brauliotavares/post/26266_quando-deus-nao-olha)

“É um livro de ação constante, de idas e voltas, procuras, derrotas, desencontros, aquela agitação que todos conhecemos: no fim do dia se tem a sensação de que vinte coisas foram resolvidas e não se avançou um passo.”

Diogo Guedes, no Jornal do Commercio, 31 de agosto de 2014.

(http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cultura/literatura/noticia/2014/08/31/romance-de-debora-ferraz-recria-a-dor-do-desaparecimento-143050.php)

Enquanto Deus não está olhando descreve, sem ser monótono, os instantes fundamentais da vida de Érica. Como artística plástica, a personagem está sempre fascinada pelo mistério escondido na aparência das pessoas e das coisas. O livro poderia se tornar facilmente uma pretensiosa sequência de lamentos, mas a prosa simples do romance parece manter o leitor sempre aguardando a conclusão da epopeia da aceitação da perda – se é que ela chega ao fim em algum momento. Ali, a narrativa sempre passa pelas impressões de Érica, em sua contemplação melancólica do universo que restou a ela.”

Taise Odelli, no Posfácio, 27 de agosto de 2014.

(http://www.posfacio.com.br/2014/08/27/enquanto-deus-nao-esta-olhando-debora-ferraz/)

Enquanto Deus não está olhando se desenvolve muito nessas entrelinhas, nos silêncios das personagens, nos diálogos bem construídos, nos sonhos da protagonista e na estrutura que não respeita a cronologia dos acontecimentos. Débora Ferraz emprega bem nas frases a melancolia e desespero de Érica, a impaciência de Vinícius, a saudade e a carência de suas mães. E amarra as duas tramas, passado e presente, de uma forma bonita, que termina na própria arte que Érica faz e que lhe atormentou durante todo o livro, o cheiro da terebintina nos dedos se tornando familiar de novo. Para um romance de estreia, está mais do que aprovado, e, num consenso raro entre júri e leitora final (no caso, eu), teve um prêmio mais do que merecido.”

LEIA TAMBÉM

Entrevista

Entrevista de Débora Ferraz ao Vacatussa (setembro de 2014)

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

2 Comentários

  1. Pingback: Dossiê: Novos autores de Pernambuco - vacatussa

  2. Lendo esse seu comentário o livro parece ser interessante, apesar de que pouco antes de lê-lo, assisti a um vídeo falando do mesmo livro, onde o resenhista dizia ser um livro de escrita repetitiva e leitura arrastada. Ele cita também que o livro tem trezentas e tantas página (como disse) e que poderia ter muito menos, ele disse também que a crítica tem mais tido o papel de divulgar o trabalho do que propriamente divulgar, ele finalizou dizendo que ficou com preguiça de chegar ao final.
    O que eu queria acrescentar é que além do prêmio SESC, a obra recebeu ganhou o prêmio SP de literatura na categoria autor até 40 anos.
    A única ressalva que faço é se nesses eventos literários a editora não influenciaria, pois vejo a Record e a Cia das Letras sempre entre os ganhadores, uma vez que temos bons livros entre as editora consideradas pequenas.

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