Entrevista – Anco Márcio Tenório Vieira

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Thiago Corrêa – A emparedada foi lançado primeiro em livro, em 1886, e só depois virou folhetim, em 1909-1912. Houve modificações entre uma versão e outra, já que ela se encaixa tão bem no formato folhetim?

Anco Márcio Tenório Vieira – Não. A versão de 1886 é a mesa de 1909, até porque Vilella estava impossibilitado físico e mentalmente de fazer qualquer alteração na obra, pois sofrera um AVC. Motivo, creio, da reedição do romance no jornal: sem poder escrever para jornais, só lhe resta reeditar o que já escrevera. Como quase todas as suas obras tinham sido publicadas em jornais e depois transportadas para o livro, ou publicada em livro e depois republicada em jornais, a única obra que não passara por tal empreitada fora a Emparedada, que tinha a sua versão apenas em livro e que tinha páginas suficientes para manter financeiramente o seu autor pelos próximos três anos. Quanto ao encaixar tão bem, explica-se pelo fato de que todos os romances de Vilella foram escritos dentro da forma e da estrutura do romance-folhetim. Ele escrevia para ser lido e ele encontrou nos mestres franceses do romance-folhetim (Eugène Sue e Ponson du Terrail) a fórmula para que os leitores lessem os seus livros.

TC – Como foi a repercussão da obra na época? A Emparedada chegou a ultrapassar os limites de Pernambuco? Se sim, como foi a recepção lá fora? Se não, por quê ela ficou restrita à Pernambuco?

AMTV – Como não temos método e meios para avariar como, à época, o público leitor da obra a acatou, o único meio que possuímos é o da continuidade da sua publicação no jornal. Quando uma obra não agradava, acontecia dela ser retirada pelo editor e substituída por outra. A Emparedada da Rua Nova não só não teve a sua publicação suspensa, como ficou em “cartaz” duramente quase três anos. O que, mesmo para a época, era um tempo muito longo. Mais do que isso, ela entrou no imaginário da população, como se os fatos ali narrados tivessem ocorridos de fato. Quanto ao seu acolhimento fora das fronteiras do Estado, creio que ela foi lida nas regiões em que o Jornal Pequeno chegava. Mas não temos nenhum registro de sua repercussão fora do Estado. Aliás, Vilella é um autor quase que ignorado pelos seus contemporâneos das hoje regiões Sudeste e Sul. O crítico José Veríssimo não o cita e Sílvio Romero o cita sempre de modo vago, como representando desta ou daquela linha do romance oitocentista.

 TC – Carneiro Vilela chegou a morar no Rio de Janeiro e foi contemporâneo de Machado de Assis. Em algum momento houve alguma relação entre eles? Você sabe se eles chegaram a conhecer as obras um do outro? Se sim, o que acharam?

AMTV – Vilela foi morar no Rio para exercer o cargo de juiz substituto em Niterói e, até onde sei, não houve nenhum contato entre eles. Aliás, eles faziam parte de mundos e concepções distintos de literatura. Um, Machado, era herdeiro da tradição satírica de Luciano de Samósata; o outro, Vilela, iniciara sua vida ficcional no romantismo e depois aderira ao Realismo-Naturalismo que teve, na Escola do Recife, uma das suas portas de entrada.

 TC – E de Euclides da Cunha? E Raul Pompéia?

AMTV – Também não. Quando lemos as crônicas de Vilela, vemos que ele não era homem de muitos amigos, muito menos de sair procurando A ou B para conhecer ou fazer amizade. No fundo, ele era intelectualmente um homem muito solitário.

 TC – Além d’A Emparedada, Carneiro Vilela escreveu outros folhetins e se aventurou por outros gêneros literários, como a poesia e o teatro. Esse material foi preservado? Por que ele não obteve a mesma sorte que A Emparedada? Existe alguma semelhança entre A Emparedada e o restante da sua obra?

AMTV – Muito do que ele escreveu se acha perdido. Principalmente o que foi escrito para ser publicado em livro. Minha tese é que Vilella era um homem que construiu, ao longo da vida, tantas inimizades (ele dizia que não andava em lugares sombreados porque tinha medo de não ver a sombra daqueles que poderiam estar em seu encalço para mata-lo.) que a sua morte foi antes um alívio do que algo sentido. Se A Emparedada foi reeditada em 1936, com prefácio de Mário Melo, foi antes por ser uma obra que estava no imaginário do pernambucano e, comercialmente, era lucro certo para o seu editor, do que por iniciativa da APL ou de um grupo de amigos. Ao tentarem passar uma esponja na memória de Carneiro Vilella, os seus contemporâneos terminaram por passar também uma esponja no conjunto da sua obra. Quanto à semelhança entre A Emparedada e as demais obras ficcionais de Vilella, há semelhanças e diferenças. A primeira semelhança é um certo clima de mistério que percorre as obras e a estrutura e a forma do romance-folhetim. Também a veemência nas críticas de costume, o que não raras vezes compromete a qualidade retórica dos textos. A diferença, é que talvez por ter sido uma obra pensada para ser publicada em livro, A Emparedada é um romance mais bem acabado do que os demais publicados por ele.

TC – No prefácio de Cartas sem arte, você fala do viés moralista das crônicas de Carneiro Vilela. Esse viés moralista das crônicas também é possível observar n’A Emparedada?

AMTV – Sim. Carneiro Vilella se inscreve em uma tradição de grandes moralistas que escreveram na nossa língua e, particularmente, no Brasil. O primeiro deles é Gregório de Mattos e o último grande foi Nelson Rodrigues. É verdade que cada um deles tinha princípios morais distintos: o que era uma imoralidade para Gregório de Mattos não era para Vilella, e o que era para este não era para Rodrigues, e assim por diante. No entanto, o que há em comum entre eles é um certo modelo ideal de sociedade ao tempo que tinham uma profunda compreensão da medida do homem. De certo modo, esses princípios entravam em choque e criavam um contraditório. Explico: quando tentam mergulhar na alma humana, esses moralistas descobrem que nada mais distante do humano do que modelos morais de comportamentos. Por outro lado, eles sabem que sem certas regras morais mínimas, a sociedade entraria em um profundo caos. É esse conflito — o de corrigir os costumes por meio da defesa de determinados valores e, por sua vez, de saber que a história do homem é a de transgredir valores que possam limitar os seus desejos — que alimenta a obra desses intelectuais e que termina por oferecer a melhor “crônica” dos costumes do seu tempo. N’A Emparedada encontramos passagens as mais panfletárias e que são dignas de um tribuno ou de um “padre leigo” que queira botar ordem no mundo.

 TC – Você diz que Carneiro Vilela é um homem do seu tempo e por isso sua obra é marcada pelo realismo e o naturalismo. Como isso aparece n’A Emparedada?

 AMTV – A crença no determinismo, no evolucionismo social, na História como dotada de um sentido, no anticlericalismo panfletário, na defesa da República como mortalmente superior à monarquia, e, por fim, em uma certa crença de que entre a palavra e a coisa a ser narrada existe uma certa naturalização, isto é, a palavra não está no lugar da coisa em si, mas é como se ela fosse a própria coisa em si.

Entrevista realizada em setembro de 2013

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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