Entrevista – Bruno Liberal

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olhomortoamareloOlho morto amarelo (2014)

THIAGO CORRÊA – Olho morto amarelo é o seu segundo livro. Existe alguma relação com seu livro anterior, o Sobre o tempo?

BRUNO LIBERAL – Não há relações conscientes. Mas o “clima” do Sobre o tempo é muito parecido com o Olho morto amarelo. Como se fosse uma antecipação ou um germe.

TC – Um tema bem presente em Olho morto amarelo é a passagem do tempo, o que você trabalha a partir de personagens já velhos (O instante da nuvem negra, Caro Pedro e A espera), ou que estão em processo de envelhecimento, como é o caso das personagens dos contos Sara e os pôneis, Aquário e Jogging. O que te atrai nesse tema? Que tipo de reflexão sobre o tempo você propõe? A velhice te preocupa?

BL – Tenho verdadeira fascinação pelas contradições humanas. Procuro isso sempre nas pessoas que conheço e personagens que crio. O tempo torna esse aspecto humano de uma complexidade incrível. Muitos dos nossos problemas, numa reflexão exógena, poderiam ser evitados pelas escolhas que tomamos durante a vida. Nós vamos apertando a corda que nos enforca, mesmo querendo o oposto disso. E a manipulação do tempo, na obra literária, pode evidenciar isso de uma forma incrível para o leitor. Não é a velhice que me preocupa, mas as escolhas que fazemos durante a vida e os desdobramentos dessas escolhas. Isso é o cerne de muitos desses personagens preocupados com o tempo.

TC – Nos contos Sara e os pôneis e Olho morto amarelo, você descreve sonhos dos personagens. Qual o papel dos sonhos na sua narrativa?

BL – Os sonhos, naturalmente, trazem elementos da psique dos personagens. Isso pode ser uma informação valiosa para o leitor compor um quadro que lhe ajude a conhecer o personagem em questão. Gosto de brincar com isso. Fornecer esses elementos em diversos instantes. O leitor, cada um com sua capacidade de abstração, irá identificar esses aspectos e assumir parte dessa loucura dos sonhos.

TC – Outra característica do livro é um certa oscilação entre o onírico, os sonhos e a fantasia com um tom mais realista, como é o caso das descrições de Zunido amargo e Juro por Deus que é um final feliz. E essa oscilação se condensa no conto Casa Azul, onde a narrativa se mostra bastante descritiva e real, mas o conteúdo que ela narra se revela estranho, quase um delírio. Então queria tu falasse sobre essas duas forças na tua obra, como é que você trabalha elas?

BL – É uma brincadeira de bater e assoprar. Mostrar o extremo da realidade e a ilusão. Dar um zoom na cena. Confundir o leitor e ajudar o personagem a se esconder. Acho divertido. Dá outra dimensão à história, como um microscópio que te faz enxergar a mesma folha de forma diferente.

TC – No último conto do livro, o Juro por deus que é um final feliz, você fragmenta o texto para mudar a perspectiva narrativa, alternando os narradores. Você pode explicar o uso dessa técnica? Qual foi sua intenção nesse conto?

BL – A ideia inicial era escrever um romance. Projetei esse argumento para outro formato, mas não consegui desenvolver. O conto nasceu desse fracasso. O romance teria como núcleo a morte da criança deixada trancada no carro pelo pai, mas seria contada por diversos personagens, não necessariamente que participaram da ação em algum sentido, mas também, como exemplo, por uma dona de casa que assistiu no noticiário e formou sua própria história sobre o acontecimento. A ideia era mostrar o quanto a mesma história pode ter derivações e ser entendida por observadores diferentes e o quanto essa diversidade de pontos de vista pode qualificar o próprio acontecimento. Não sei se consegui com o conto, por isso tenho o sentimento que essa história ainda não se esgotou.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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