Entrevista – Clarice Freire

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podelua-capaPó de Lua (2014)

THIAGO CORRÊA – O livro é dividido em quatro partes que recebem os nomes das fases da lua. Como se deu esse processo de estruturação? Cada parte, de fato, tem uma característica própria? Que critérios foram usados para fazer essa divisão?

CF – A ideia de dividir o livro nas quatro fases da lua veio a partir de uma conversa que tive com um grande amigo, o Francys. Falávamos sobre a passagem do tempo, da vida e naturalmente pensamos nas quatro fases da lua. Conversando depois com a editora, vimos que cada lua poderia ter uma personalidade que definiria o perfil dos poemas que entrariam em cada capítulo (ou fase). A partir dai criei uma espécie de “poema manifesto” para cada uma delas que explica quem são, o que sentem e, consequentemente, o “espírito” dos poemas que estarão naquele capítulo. Estes poemas manifestos estão logo no início de cada fase.  A lua minguante, por exemplo, é saudosa, nostálgica. A lua nova fala dos sentimentos ocultos como medo, angústia. A lua cheia, que é o ápice do livro, é a ausência total de gravidade. A leveza em si. É o capítulo mais colorido, inclusive. E assim vai.

TC – O projeto gráfico do livro sabiamente preservou o aspecto visual das mensagens que você vinha compartilhando no blog e no Facebook. É possível estabelecer uma hierarquia em sua obra entre texto e imagem no seu trabalho ou eles são indissociáveis? Na hora da criação, o que vem primeiro: a imagem ou texto?

CF – Hoje eu já considero muito difícil desassociá-los. Meu trabalho é de fato uma poesia visual. Em muitas delas, não uso nenhum tipo de ilustração, mas, em muitas outras, os desenhos aparecem para compor a poesia, não para ilustrá-los. A imagem é a poesia tanto quanto as letras. Sem elas em determinados momentos e locais, a poesia não teria o impacto que tem com elas e o contrário também acontece. Na hora da criação eu não tenho uma ordem, é uma desordem total! Rsrs. Algumas vezes vem primeiro uma sílaba, depois a palavra, ou primeiro o desenho…não tem como prever. Mas uma coisa sempre leva a outra.

TC – Acho que a técnica usada que mais aparece no livro é a alternância dos radicais em torno dos mesmos sufixos. Como surgiu essa técnica?

CF – Muito espontaneamente. Gosto de brincar com a forma, visual e literariamente falando. Talvez a minha profissão tenha me levado a isso: sou redatora publicitária e sempre fez parte do meu trabalho, principalmente no tempo em que passei no mercado, pensar no anúncio, campanha ou ideia, já de olho no visual e na quebra. É preciso quebrar pensamentos. É necessário que nossas palavras certinhas e ideias redondinhas se quebrem para formamos algo novo, diferente, inquietante. Acho que acabei naturalmente levando isso para as minhas poesias porque achava – e ainda acho – divertido.

TC – Em alguns momentos, Pó de lua me lembrou os livros Mania de Explicação e Pequeno dicionário de palavras ao vento, de Adriana Falcão, pela maneira que você propõe novas definições/conceitos a palavras como “despedida”, “expectativa” e “silêncio”. O trabalho de Adriana é uma referência pra você?

CF – Sem dúvida. Sou fã de Adriana Falcão e tenho o Pequeno dicionário de palavras ao vento bem perto de mim. Mas de fato sou um apanhado de referências quando se fala em “resignificâncias”, por assim dizer. Rsrs. O filme Casa de Areia, com Fernanda Montenegro e Fernanda Torres é uma forte referência para isso. Elas duas passam todo o filme vendo ao seu redor um mar de areia, nas dunas e imaginavam o que haveria na lua. No final, a filha conta para a mãe que o homem pisou na lua e que lá só tem areia. Veja só: todo o ordinário que já estava ao redor delas por toda a vida. Gosto disso. De ver o extraordinário na mais ordinária das coisas, pois é ali que ele mora. Dar um novo significado a palavras passa por isso. Tirá-las do nosso lugar comum e leva-las a um novo ponto de vista, pra mim, faz parte deste universo de ver coisas escondidas que eu gosto tanto.

TC – Pó de lua foi catalogado como um livro de “técnicas de autoajuda”. Desde o início o projeto já tinha esse foco ou ele seguia uma pretensão literária, já que você vem de uma família de escritores? Quem você imagina que seja seu público? Como você acha que o livro pode ajudar alguém?

CF – Quando escrevo, crio rimas e formas que atendem às minhas inquietações. Acredito piamente que a arte (como um todo: poesia, cinema, artes plásticas, teatro, música, o que seja) tem, entre tantos, um papel fundamental: ajudar a humanidade a passar pela vida. Ela serve ao homem porque consegue dizer as coisas caladas da alma que não falam, porque expressam a alegria, a indignação, o protesto, o amor, o desamor, tudo. Se alguma obra artística nos toca por dentro é porque ela passou por alguma referência que carregamos de algum momento das nossas vidas. Se a arte tem também este papel, é assim que acredito que meu livro pode ajudar alguém. Tomara que sim. Quem eu imagino que seja meu público? Tenho descoberto com as viagens de lançamento que são idosos, adultos, homem, mulheres, jovens e crianças. É muito bonito de ver.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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