Entrevista com Tom Rachman sobre o romance Os imperfeccionistas

0

Em seu primeiro romance, o jornalista e escritor inglês Tom Rachman, propõe uma ficção sobre o cotidiano de jornalistas, usando uma década de experiência em redações como matéria para criação. O livro, Os imperfeccionistas (Record), eleito um dos melhores de 2010 pelo The New York Times, é composto por 11 histórias que falam sobre o mesmo grupo de personagens – trabalhadores de um jornal de língua inglesa com sede em Roma, fundado nos anos 1950 e que sofre com as rápidas transformações nos meios de comunicação. Embora trate de questões do jornalismo atual, Rachman parece mesmo interessado em explorar os sentimentos de seus personagens, rascunhos de perfis conhecidos no jornalismo – o revisor de textos obstinado, o repórter arrogante com carreira internacional, o estagiário idealista sem experiência ou qualidade. Esses clichês são modelados e então conhecemos o que move esses personagens, a fibra ética e a resistência emocional de cada um. Rachman faz com que cada texto tenha autonomia e ao mesmo tempo seja um relato em construção – uma narrativa que será inteiramente compreendida apenas quando relacionada com as anteriores. Nesta entrevista, Rachman fala sobre a transição de jornalista para escritor e como criou o enredo.

Os bastidores de um jornal

HUGO VIANA | O livro é dividido em 11 histórias que envolvem os mesmos personagens. Essa estrutura parece interessante para fornecer uma “visão geral” do enredo a partir de diferentes pontos de vista. Como chegou a essa forma?

TOM RACHMAN | Na época eu estava morando em Paris, sonhando em escrever um romance. Enquanto eu caminhava pela cidade, imaginava histórias e personagens. Às vezes eles vinham totalmente formados. Outras vezes precisavam de muita atenção. Entretanto, não queria escrever uma série de histórias não-relacionadas; eu queria escrever um romance. Então tentei combinar as duas formas num único livro. A maneira que escolhi para fazer isso foi criando um cenário comum para os personagens, o jornal.

HV | Durante a leitura senti que o romance poderia funcionar também como uma coletânea de contos, histórias que parecem possuir autonomia. Você pensou nos aspectos que fundamentam o conto durante a escrita?

TOM RACHMAN | Eu esperava fazer cada capítulo satisfatório e completo nele mesmo, enquanto deixava fios a serem recuperados nas histórias sequentes. Como leitor, adoro tanto histórias curtas quanto romances, mas reconheço que cada um tem efeito diferente. Normalmente, o conto é consumido numa única leitura e funciona como uma espiada em outra vida. O romance, devido a sua extensão, requer que você viva com os personagens na imaginação durante dias e semanas. Essas diferenças significam que o conto é útil para esboços e conclusões rápidas, enquanto o romance é para retratos de grupos e ambiguidades. Mas e um livro que combina esses dois aspectos? Eu queria descobrir isso.

HV | Esses personagens parecem produto de anos de observação. Enredos sobre relações humanas e fortes situações emocionais são interesses seus como contador de histórias?

TOM RACHMAN | Sim, embora eu sinta que relações humanas e fortes situações emocionais são provavelmente os interesses de todos os romancistas. Se escritores de ficção não fossem fascinados por outras pessoas, então seu trabalho seria duro e tedioso, ou vazio e manipulativo, ou incrivelmente egocêntrico. Mas para mim, a última coisa que quero é escrever sobre eu mesmo – eu me conheço bem o suficiente. Outras pessoas são muito mais intrigantes.

HV | Mesmo que questões do jornalismo contemporâneo sejam importantes para o livro, o tema principal aos poucos progride para a intimidade das pessoas que fazem o jornal. Você parte de clichês, mas gradualmente desenvolve cada personagem. Como pensou essa relação?

TOM RACHMAN | Na verdade, eu queria escrever sobre relações humanas e apenas depois o mundo do jornalismo entrou na história. A imprensa internacional é um meio que eu conhecia bem e é cheio de personagens extraordinários e estilos de vida que enriqueceram o que eu já tinha em mente. Também, o jornalismo no tempo presente passou por tantas mudanças incríveis que eu pensei que forneceria um ambiente dinâmico para as lutas pessoais dos personagens.

HV | Você trabalhou como jornalista e viveu as rápidas mudanças no mercado. No livro, você não apenas olha para o presente, mas também para o passado, o que parece trazer nostalgia e a sensação de algo que se perdeu durante o tempo. Em que sentido sua experiência ajudou?

TOM RACHMAN | Eu me formei em jornalismo em 1998 e trabalhei como editor e repórter na Associated Press e no International Herald Tribune, deixando o negócio quando eu vendi meu romance no fim de 2008. Essa década conteve mudanças espantosas nos meios de comunicação. Mas mesmo nos melhores tempos, as redações são cheias de tensão, estresse e pessoas notáveis. Meu tempo entre eles me ajudou a descrever com precisão aquela atmosfera, suas atitudes e humor.

HV | Existe algo de desilusão em seu ponto de vista sobre o jornalismo contemporâneo? É um pensamento recorrente ao perceber as histórias como um grupo único.

TOM RACHMAN | Todos conhecem as alegrias e as conveniências da tecnologia. Mas o que desaparece quando as velhas maneiras morrem? Em relação ao jornalismo, espero que possamos nos agarrar às melhores características do sistema prévio. A imprensa tradicional era imperfeita, é claro, e às vezes se comportava vergonhosamente. Mas no seu melhor tinha ideais de objetividade e transparência, e um desejo de expor corrupção e crueldade. Quando os fundamentos da velha imprensa desmoronaram, se tornou caro cumprir esses ideais, deixando os meios de comunicação mais vulneráveis a manipulação e mais dispostos a publicar lixo a fim de lisonjear, ao invés de publicar material que informa, ilumina e mexe as pessoas. No final, aqueles na imprensa que sobreviverem a esse período serão os melhores e os piores – aqueles que publicam mais bobagens e aqueles que bravamente continuam com trabalhos sérios que respeitam seus leitores.

HV | Já que esta é sua primeira experiência com um romance, gostaria que falasse um pouco sobre o processo de escrita. No seu texto parece não apenas existir uma herança do jornalismo, mas também técnicas de ficção. Como você relaciona esses dois tipos de escrita?

TOM RACHMAN | Eu ganhei muito por ter escrito e editado centenas de artigos ao longo dos anos – foi algo como um treinamento na escrita profissional que seria muito difícil de obter de outra maneira. Muito do que aprendi sobre estruturar uma história, usar detalhes e chegar ao leitor sem um mínimo de floreio auto-indulgente continua a ser vital para mim. Dito isso, ficção é muito diferente de jornalismo. Não-ficção prospera no mundo externo, ficção no mundo interno.

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

Comente!