Entrevista – Débora Ferraz

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ENQUANTO_DEUS_NAO_ESTA_OLHANDOEnquanto deus não está olhando (2014)

THIAGO CORRÊA – A personagem Érica é uma pintora e você acaba explorando essa atividade dela na linguagem, fazendo com que sua escrita tenha um apelo visual muito forte, com a descrição de cenários, de detalhes, expressões. Como você chegou a esse resultado?

DÉBORA FERRAZ – A linguagem, o modo de enxergar o mundo adotado pela Érica, nasceu junto com aquilo que poderíamos chamar de enredo. Não acredito que poderiam existir dissociados. A história que existe, o desconforto e a busca por algo tão impreciso que é uma ausência, não existiria, sem que a narrativa trouxesse para a superfície esse olhar, essa ligeira distorção, que a personagem traz em seus processos. E, naturalmente, para chegar a este resultado precisei, eu mesma, apurar bastante meu próprio olho. Fiz muitas anotações, observações… Seria muito fácil engordurar o romance com descrições longas supérfluas e desnecessárias, ou viajar num fluxo do pensamento. Mas isso mudaria a história. Mudaria a atmosfera. A impressão não seria mais a de ver imagens, quadros, planos, que é o que a Érica faz. Foi preciso reescrever bastante até que esta linguagem funcionasse e obtivesse, ao mesmo tempo, o ritmo que eu queria imprimir e o detalhamento adequado.

TC – Por ser uma artista, a Érica tem uma visão mais metafórica, enquanto que o amigo dela, o Vinicius, tem uma postura bem pragmática, bem racional. Como você estabeleceu essa diferença no texto?

DB – Há um clichê bastante comum sobre a escrita que diz que os personagens começam a ditar os rumos da cena, começam a ganhar vida. É claro que não é exatamente assim. Este é apenas um modo mais simples de dizer que todo personagem nasce a partir de um limite e o autor precisa respeitar e trabalhar com esse limite. É como a voz humana. Há o tenor, o barítono… E quando você harmoniza essas vozes, consegue fazer uma boa apresentação de coral. Érica nasce das suas próprias limitações: de ter dificuldade com as coisas práticas, de não conseguir, muito facilmente, mudar de direção. Vinícius também nasce de uma limitação: de seu pragmatismo tão extremo que o impede, por exemplo, de ver a diferença entre uma metáfora e uma metonímia. É tudo a mesma coisa pra ele. Tudo sentido figurado. Então esses limites dos personagens guiam o modo de (já que usei a metáfora das vozes) compor o texto: o modo de falar, de agir. No final, dizemos que o personagem criou vida. E fala deles e seus atos tornam-se coerentes.

TC – Na página 177 a Érica explica porque ela resolveu desenhar e pintar como uma tentativa de paralisar o tempo e investigar os segredos do momento. Essa passagem é uma chave para se entender a estrutura do romance?

DB – Acho que sim, pode ser entendido como uma chave. Funciona muito bem visto dessa forma, embora não tenha sido posto de maneira intencional. Ela teria essa idiossincrasia mesmo sem falar sobre ela. Uma coincidência feliz que acontece justamente porque estrutura, enredo, personagens, nasceram todos juntos e indissociáveis. Tenho descoberto felizes coincidências do tipo, ultimamente: o título, por exemplo, me falaram agora sobre isso. Sobre já estar ali o verbo “olhar”, o ato de ver. Não foi pensado, mas fico satisfeita de ver isso fazer sentido.

TC – A narrativa é estruturada a partir de fragmentos, ora surgem em lembranças, ora aparecem como trechos do diário, ora narram o tempo presente, ora relatam sonhos. Essa forma é o resultado de um planejamento prévio ou veio num momento posterior, de montagem mesmo?

DB – Desde o começo foi planejado assim. Acho que nunca nem cheguei a ler, ou a ver como funcionaria essa história numa ordem linear. A quebra na linearidade é o que torna possível o avanço no tema, na confusão mental. A história do livro, a busca, avança o tempo inteiro embora o tempo cronológico fique indo, vindo, parando, etc.

TC – A história tem como força motriz o sumiço do pai da Érica e, apesar dele não aparecer em nenhum momento (apenas através da memória), ele está presente no livro inteiro. Isso me lembrou o filme Rebeca, por exemplo, de Hitchcock. Que cuidados você tomou para construir um personagem apenas pela casca, pelo que está externo?

DB – Diferente do Vinícius, que existe a partir das próprias limitações, e age por conta própria. O personagem do pai de Érica precisava ser visto, sempre, a partir do ponto de vista da Érica. Então ele nasce das limitações dela, também. Do que se fala dele, da superfície, do que ela lembra que ele falou, do que ouve falar dele… E isso revela mesmo retratos muito imprecisos, contraditórios e, por isso mesmo, reais, honestos. Nisso, creio que absorvi bastante a influência dos documentários e docudramas que estudo, academicamente (meu objeto de estudo é o docudrama biográfico Por toda minha vida). Neles há sempre muitos entrevistados falando sobre alguém que não está lá. Cada um diz uma coisa, aponta um ângulo, e o diretor empreende uma tentativa de formar com isso um retrato, um mosaico impressionista de alguém que aparece, no “retrato”, tão difuso, é como se ainda estivesse em movimento. Parece vivo.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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