Entrevista – Fernando de Mendonça

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Um detalhe em H (2013)

HUGO VIANA – Gostaria primeiro de saber sobre a composição dos personagens. Hugo, seu pai e Helena tornam-se complexos com pouca exposição, um número reduzido de frases e acontecimentos. Como chegou a eles?

FERNANDO DE MENDONÇA – Estou cada vez mais convencido de que a simplicidade é uma das coisas mais complexas a se alcançar na arte. Encontrar o essencial é um exercício de grande rigor. Para delinear os personagens que ocupam Um Detalhe em H, primeiramente, foi necessário encontrar com maior precisão a voz do menino Hugo. Como a narrativa é dele, só importavam episódios nos outros personagens que o transformassem, acima de tudo, no que ele se torna a partir da convivência com eles. A cena em que o pai do garoto chora, por exemplo, não teria o mesmo valor se fosse narrada pelo próprio pai, ou por outra perspectiva que não a de Hugo. É para o menino que aquela lágrima vem implodir novos significados de mundo, novas concepções para o homem que fermenta dentro dele, em primeiro lugar. Meu desafio na descoberta dos personagens foi enxergá-los tão somente pelos olhos de Hugo e, a partir dele, não permitir que fossem apenas caricaturas, por mais que se tornassem tipos fáceis de identificar e mesmo relacionar com uma ou outra pessoa com quem todos nós já convivemos.

HV – Os detalhes parecem importantes em sua prosa. Tanto como efeito dramático, na composição do enredo e personagens, quanto em sua própria escrita: as cenas possuem cores, gestos, movimentos. O que os detalhes revelam em sua literatura?

FM – Se me permite, gostaria de retomar algumas palavras que li anteontem, numa entrevista com o cineasta Aleksandr Sokurov: Se queremos falar de coisas sérias, devemos nos ater a detalhes aparentemente desimportantes. […] Só uma atenção aos detalhes pode fornecer a percepção para se compreender um todo.O diretor russo fala a respeito do artista como um ‘observador maníaco’, alguém que se esforça por perceber mais detalhes do que a percepção humana é naturalmente capaz de assimilar. Em minha opinião, toda obra de arte é um detalhe, um recorte específico do mundo sob o ponto de vista de seu autor. Narrativa é focalização, é perspectiva, ou seja, é saber o que priorizar de um universo maior. Não creio que seja privilégio do meu texto, mas sei que isto se destaca pela ênfase que ganha nele, desde o título, de ser o que mais importa dentro do livro, o encontro e a manutenção de um detalhe bem guardado pela memória. Para mim, o detalhe é a lembrança que fica de uma experiência, de uma ação, e não é somente pelo que acontece em uma ação que ela se define, certo? Talvez, uma ação até se defina pelo que nela acontece, mas creio que precisamos ampliar a consciência do que compõe um acontecimento. Uma cor, um cheiro, uma textura também são elementos que ‘acontecem’ e podem revelar tanto quando um movimento mais brusco ou um diálogo direto.

HV – Quase não há diálogos, e os poucos parecem intensos pelo que permanece sem ser dito. Considera o que permanece sem explicação, apenas sugerido por imagens e alegorias, um recurso narrativo importante para esta história?

FM – Com certeza. Porém, não considero que existam muitas coisas ‘sem explicação’ aqui. Vamos adequar os termos: pode ser mais interessante pensarmos em coisas que simplesmente não foram lembradas. Diálogos também são feitos de silêncios, assim como a memória depende de esquecimentos. O potencial de uma sugestão, de uma entrelinha, todos sabemos que é das coisas mais valiosas que uma narrativa pode apresentar. Agora, falando mais especificamente da retenção no uso dos diálogos, posso elencar pelo menos dois motivos que me nortearam aqui: um, no sentido de não perder a coerência interna ao texto, afinal, estamos falando de um personagem que narra recordações espalhadas numa grande dimensão de tempo. Esta realidade é suficiente para justificar lapsos e ‘buracos negros’, pois, por mais que uma lembrança se alicerce na força e meticulosidade de um detalhe, ela não pode ser tão iluminada dentro do seu contexto, é necessário uma espécie de ofuscamento do que circunda cada cena. A recorrência maior de diálogos completos seria muito contraditória nas memórias de Hugo. Por outro lado, também optei pela anulação de muitos diálogos, porque ainda estou me posicionando, como escritor, em relação a este recurso narrativo, dentro dos meus textos. Creio que o diálogo direto se desgastou de tal forma, no último século, que ele até me assusta um pouco. É um dos elementos cada vez mais utilizado por prosadores e cada vez menos explorado no que pode oferecer.

HV – O livro tem uma estrutura particular, em que tempos se sobrepõem, seguem o ritmo das lembranças e afetos do personagem; os parágrafos se completam, sugerem um jogo de montagem e edição cinematográfica. Como foi a construção dessa estrutura fragmentada?

FM – Recentemente li um comentário sobre Machado de Assis que associava seu mérito de grande romancista ao profundo conhecimento que ele acumulava do teatro e sua linguagem. Torço para que o cinema faça comigo apenas uma pequena fração do que o teatro fez com Machado… Meu extremo interesse pela linguagem audiovisual desemboca, obviamente, no cerne da minha criação literária. Se considerarmos que a memória é como uma pequena sala de cinema e o detalhe um relativo direto do close-up, sem dúvida, fica bem definido o saldo devedor de meu texto na relação com esta outra arte. Até mesmo para pensar a ‘construção da estrutura’ do livro, a ideia da montagem se aplica muito bem. Só que, no meu caso, eu costumo ‘editar antes de escrever’. Melhor dizendo, começo a escrever bem antes de tocar na caneta. Para Um Detalhe em H, eu estruturei previamente todo o encadeamento das cenas e capítulos, pois somente assim poderia não me perder neles. Sei de muitos escritores que gostam de se surpreender com o andamento do texto, de descobrir o desfecho junto com o personagem, mas comigo isso não funciona. Eu preciso saber tudo o que vai acontecer antes de colocar as primeiras palavras no papel, pois as minhas surpresas e descobertas, prefiro que se deem apenas neste domínio, na forma como as palavras se articularão para dar vida a uma cena já planejada. Sendo assim, posso concluir que o todo do livro me veio através dos fragmentos, das pequenas partes.

HV – Como este é seu primeiro livro, gostaria de saber um pouco sobre sua experiência prática com o mercado editorial; como sentiu a entrada (e a permanência) nesse ambiente?

FM – Creio que não posso reclamar. Assumi os riscos de uma publicação independente, tive um bom retorno com a primeira tiragem do livro, quase esgotada, e uma boa apreciação dos primeiros leitores e da crítica local. Ao decidir pela publicação, sabia que também precisaria divulgar, vender, correr atrás com minhas próprias pernas, já que também optei por uma editora com perfil mais alternativo. Foi muito bom. Fez-me ver outro lado do ‘ser escritor’, pensar em aspectos mais práticos e considerar cada vez mais o diálogo com o público. Lançar um livro é, finalmente, o momento em que saímos um pouco da solidão literária. Caso feito no momento adequado, pode ser muito saudável. É óbvio que não posso avaliar o mercado como um mar de rosas (ou talvez possa, se considerar a expressão no que ela traz de visualmente assustador e tenebroso – não parece a imagem de um pesadelo?), mas, para alguém que está aprendendo a nadar, praticamente em meu primeiro mergulho, acho que consegui desviar de muitos espinhos e guardar as melhores ‘cores e cheiros’ de toda a experiência.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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