Entrevista – Fred Navarro

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O colecionador de palavras

Fred Navarro é um pernambucano, cresceu numa casa no bairro de Campo Grande. Já formado em jornalismo, arrumou as malas e resolveu migrar para São Paulo onde foi trabalhar na revista IstoÉ. Lá, no convívio com os colegas de redação, ele se descobriu diferente. As palavras que ouviu da sua babá e aprendeu a usar para se comunicar nas suas brincadeiras de menino, passaram a ser motivo de risadas no trabalho. A partir de então, ele adquiriu um novo hábito, passou a colecionar palavras que remetiam a sua região. Agora, quando está curtindo uma praia, conversando, lendo ou ouvindo música, ele na verdade está caçando palavras. Um trabalho que ficou sério, já dura 21 anos e frutifica com a terceira edição do Dicionário do Nordeste, que acumula mais de 10 mil verbetes.

Como surgiu seu interesse por colecionar palavras? O fato de você morar em São Paulo de alguma forma te despertou o interesse em registrar termos do Nordeste?

É um livro de exílio, eu tive que sair do Recife pra essas palavras a ganhar essa importância na minha vida, antes eu as usava normalmente, mas quando vim para cá virou um objeto de estudo. Mudei para São Paulo em 1983, vim para cá para trabalhar na Folha de São Paulo e no meio do caminho fui para na revista IstoÉ. E lá, sempre que eu usava expressões típicas do Nordeste, como a “coluna tá troncha” e “ora pinóia”, era aquela gargalhada na redação da revista. Então percebi que havia alguma coisa a ser explorada. O riso não era de sarcasmo, de crítica, mas de desconhecimento, surpresa. Então percebi que havia um desconhecimento muito grande e comecei a colecionar essas palavras, cada vez que acontecia, ia anotando, rabiscava num pedaço de papel e guardava.

Como se deu essa busca por palavras?

A medida que saiu a primeira edição, eu já estava escrevendo a segunda há muito tempo. A primeira edição com 2.500 palavras é de 1998, a segunda com 5 mil é de 2004, então veja que se passaram quase dez anos para a terceira edição, que tem 10 mil verbetes. Ele foi crescendo a medida que foi sendo escrito, 20% a 30% das palavras da nova edição fui conhecer a medida que escrevia o livro, ia procurar uma coisa e achava outra. Procurava uma citação para ancorar um verbete e achava outras duas palavras que não conhecia, então ia atrás e confirmava a origem nordestina delas. Foi um trabalho em construção. Parti da minha biblioteca pessoal, da minha discografia pessoal. Também viajei muito pelo Nordeste, tenho parentes na Bahia, no Ceará, Paraíba e sou um rato de praia. Então cada vez que ia, voltava com centenas de palavras novas para checar, pesquisar. O grande trabalho ao final foi separa o joio do trigo, muita coisa que parece ser do Nordeste, mas não é. É do Amazonas, de Minas, de Goiás. As fontes foram se multiplicando e o que deu mais trabalho foi confirmar o que não podia entrar.

Esse é um trabalho que você sabe que não tem fim. Por mais que você se dedique, novos termos surgem e é impossível atingir a totalidade. Isso te dá alguma frustração?

Quando vou ao Recife, no avião já vou colecionando expressões novas, já vou com a caderneta no bolso porque sei que vão surgir palavras novas. Como Manuel Bandeira falava, o povo é o inventa línguas. Hoje a noite, em algum barzinho do Pina, alguém tá inventando palavra nova. A riqueza vocabular da nossa linguagem é uma no Litoral, é uma na Zona da Mata, é uma no Agreste e é uma no Sertão. E às vezes elas não se confundem. A classe média de Fortaleza não fala igual à classe média de Juazeiro do Norte. O sotaque, as expressões, os termos são muito diferentes. Assim como a do Recife é diferente da de Petrolina, o sertanejo não fala igual ao pescador. São características próprias de microrregiões. Claro, elas interagem, fazem um conjunto, mas a riqueza vocabular é tremenda.

Como foi o processo de checagem para saber se o termo é do Nordeste?

É um trabalho duro de jornalismo investigativo, que é checar as fontes, ir aos dicionários tradicionais e clássicos para pesquisar a origem dessas palavras, encontrar referências na nossa cultura popular. Consultei os três dicionários tradicionais, o Aurélio, o Houaiss e o dicionário da Academia Brasileira de Letras. Quando eles identificam, a sigla do estado está lá registrada. Quando não conseguem identificar o estado, eles colocam a região. E quando não consegue identificar a região, ele coloca como brasileirismo. Então muitas dessas palavras eu chegava achando que era do Nordeste e a fonte era Goiás. Além disso, nossa cultura popular registra essas palavras com abundância, você pega 10 cordéis de Caruaru, Campina Grande ou do Crato, e vai encontrar dezenas de termos em comum, e outros não, são específicos do Ceará, específicos da Paraíba. E eu ia fazendo a triagem. Meu trabalho foi tentar ver o que era realmente de onde. Isso deu trabalho. Meus critérios foram jornalísticos, de checar a veracidade da informação, de procurar uma citação digna de confiança.

Como você diz no prefácio, é normal que novos termos sejam criados e muitos deles acabam se perdendo. Qual o critério para que ele se torne um verbete?

Useis dois critérios. Primeiro o registro em alguma forma de manifestação cultural, pode ser Lia do Maranhão, pode ser Xico Sá ou Chico Science. Ser registrado por alguém é uma evidência de que esse termo continua vivo, não caiu em desuso, não é um ósculo da vida. O critério para mim é aquilo que está vivo. O que é representativo para a comunicação, o povo adota, assume como seu. Inclusive de origem estrangeira, nós temos centenas de palavras na língua portuguesa. Se essas palavras foram incorporadas é porque elas tiveram uma utilidade, uma função na comunicação das pessoas. O critério é a utilidade, às vezes entra a beleza, a singularidade, o humor, mas tem que ser útil, funcional.

O Dicionário do Nordeste é resultado de um trabalho anterior, que tinha como título Assim falava Lampião. Nesse primeira versão, ele não foi bem recebido no Rio Grande do Sul por conta da antipatia dos gaúchos com Lampião. Como foi essa história?

É aquela velha história do desconhecimento. Para eles, a imagem de Lampião é lugar comum, clichê, bandido, bandoleiro, matar criança. Nunca leram Frederico Pernambucano de Melo, nunca leram a grande e boa literatura sobre Lampião já feita no Nordeste, nunca viram Baile Perfumado. A região Sul, assim como o Nordeste, são as duas regiões mais nacionalistas. O Rio Grande do Sul já tentou se separar do Brasil, assim como nós. Lampião era músico, inventou umritmo musical, inventou o xaxado com as marcações dos fuzis e alpercatas para comemorar as vitórias sobre os policiais, compôs mais de 18 músicas, inclusive Mulher rendeira. Lampião tinha todo um lado fascinante junto ao bandido vingador que merece atenção. Essa coisa reflete um pouco esse distanciamento cultural, eles não se interessam pelos livros de Jorge amado, as músicas de Fagner. Para eles, tudo isso é o lado pobre, o lado sem educação, sem instrução e estrutura do brasileiro. É preconceito, é falta de informação e ignorância deles. Mas quando tiram férias e conhecem o Nordeste, eles voltam todo ano.

Um exemplo que sempre é citado no campo da linguística é o dos esquimós, que possuem mais 100 termos para designar o branco. Esse exemplo nos dá uma ideia de que a língua se desenvolve de acordo com as necessidades e características de cada sociedade. A partir do seu trabalho, é possível entender o Nordeste?

É possível conhecer o Nordeste através dele. Eu vejo o dicionário como um manual de tradução do Nordeste para outras regiões do Brasil e países do mundo. Porque a força da cultura popular nordestina está na diversidade, na capacidade que tem de expressar a voz do homem da rua e do rico de Boa Viagem ao mesmo tempo. No cordel, na linguagem sofisticada de Elomar, na invenção de um Tom Zé, Francisco Dantas. Essa diversidade cria uma riqueza vocabular que expressa o meio ambiente em que vive o homem nordestino. A chave para entender o dicionário é a relação do homem com a natureza, é da sua relação com a natureza que o vaqueiro, o pescador e o canavieiro tiram a maior parte dessas expressões. Muitas delas foram herdadas de Portugal e adaptadas ao meio nordestino. Isso aconteceu em todas as regiões do Brasil, não só no Nordeste. O número de palavras que o vaqueiro tem para designar o boi e que o pescador tem pra falar do barco são equivalentes às do esquimó com a neve. O mesmo peixe no Brasil tem 18 nomes diferentes. Essa riqueza remete a questão da globalização. A globalização passa réguas nas culturas, mas ela localiza e destaca as culturas com base nessa força popular. Não são culturas que inventaram as coisas artificialmente, são culturas enraizadas, com história, as histórias da nossa linguagem remete ao tempo medieval português, aos romanos, na própria origem do latim. É uma língua que soube acoplar essa história ao meio ambiente e ao povo que usa.

Acho que a cada página do dicionário tem algum verbete relacionado a sexo, masturbação, órgãos genitais, prostituição. Isso é um reflexo da importância que o sexo tem no Nordeste?

Ele não entra como item especial, tem tantos termos quanto comidas e árvores. Mas a importância dos termos chulos, com a picardia e a sacanagem tem a ver com o bom humor do nosso povo. Você só encontra isso no Brasil na gíria carioca. A linguagem falada no Amazonas, no Pantanal, no Sudeste e no Sul é muito careta, muito conservadora sob esse ponto de vista. Só o Nordeste e o Rio de Janeiro tem essa expressão tão rica, com o tom da brincadeira, da sacanagem, da provocação. Mário Souto Maior já publicou o Dicionário do Palavrão com 500 e tantos verbetes.

Thiago Corrêa
Escrito em novembro de 2013
Publicado originalmente na Revista Continente

Referência para citação:

RAMOS, T. C. . Fred Navarro: “O grande trabalho foi separar o joio do trigo”. In: Revista Continente, Recife, 2013, p. 42 – 43.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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