Entrevista – Helder Santos

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raiarJOANA ROZOWYKWIAT – Você me parece um cara urbano. Por que a opção de situar seu livro no sertão e de onde vêm suas referências? É um Sertão imaginado ou reconstruído? 

HELDER SANTOS – Sou sertanejo por parte de mãe, ela de uma cidade chamada Tacaratu, próxima ao rio São Francisco, no sertão de Pernambuco. Apesar da criação no Recife, era no sertão que eu sempre ia passar as férias e os feriados, durante a infância e adolescência, na fazenda do meu avô materno. Meu avô foi uma figura muito marcante na vida, o maior contador de histórias que já conheci. O livro (Raiar) é em sua homenagem. Ele nasceu em 1902, viveu até os 109 anos, era o último descendente de uma tribo de índios e tinha uma poesia incrível na sua fala.

Quando li Grande Sertões: Veredas, com vinte e poucos anos, época em que realmente me tornei um aficcionado pela literatura, descobri que a fala de meu avô era igual ao que Guimarães Rosa escrevia. Comprei uma câmera pra tentar registrar e manter vivas essas histórias, mas cheguei tarde. Ele sofreu um trauma que o deixou senil. Passei anos tentando lembrar e escrever as histórias dele, tentando reconstruir sua fala com exatidão, sem conseguir. Até que um amigo me aconselhou a misturar o que meu avô tinha me passado com minhas próprias experiências, observações e viagens. Segui seu conselho e, aos poucos, fui rascunhando algumas coisas. E, quando meu avô morreu, eu finalmente criei a coragem de escrever o livro.

JR – Em Raiar, estão presentes os desmandos, a política associada ao crime, os matadores, a religiosidade, a ingenuidade. O sertão moderno continua carregado de elementos do sertão mítico?

HS – O escritor americano William Faulkner escreveu em um dos seu livros: “O passado nunca morre. Ele nem é passado”. Eu acabei me inspirando nisso e escrevi um trecho no livro sobre isso, onde o passado não quer ir embora, ele vira uma espécie de visita permanente e espaçosa. O tempo no sertão é outro, corre diferente do urbano. O contar do tempo é geográfico-metafísico, ligado às coisas da terra, do sol, das plantas, do vento, a quem nasce, quem morre. Não é de relógio, das máquinas, de ponteiros, de números. Lá o tempo não passa, e os mortos não se vão, assombram, atazanam os vivos. A morte ocupa um espaço vivo na vida dos vivos. Isso se reflete no observar, filosofar, naconstrução da linguagem do sertanejo. Criando o mito e mantendo-o.

Pra mim, esse é um comportamento universal do mundo rural, ocorre no Sul dos Estados Unidos de Faulkner, ocorre também nos interiores da América Latina, no México de Juan Rulfo, na Colômbia de Gabriel García Márquez, no Chile de José Donoso, até na Rússia de Gogol, Tchecov e Dostoiévski. Cada país tem um povo rural secular, cheio sotaque, tradição e mito.

Mas o sertão também muda, lentamente. Ele não é isolado o suficiente pra se manter virgem, como muitos gostariam. Os agentes externos chegam e causam seus efeitos. O moderno transita pelo sertão e tem sua aderência, pouca mas tem. Assim ele faz uma modernidade própria, se adapta. O mundo vem pro sertão mas o sertão também vai pro mundo.

Aí vêm os personagens do sertão, que são arquétipos, clichês, do mundo rural universal. Sempre estiveram lá e, em contato com a modernidade, mudam o figurino e alguns maneirismos, mas a essência é a mesma.

No livro quis ressaltar o poder do político sertanejo que é grande proprietário rural, pertencente a oligarquias seculares. Evidenciar sua influência, que é nacional e internacional. Muita vezes, os ditos “coronéis”, são retratados como ignorantes agentes de um poder local mas eles são nossos Collors, ACMs, Sarneys, etc. São estudados, articulados, inteligentes, poderosos e seus desmandos chegam longe.

JR – Você é designer, trabalha com a imagem. Quando e como surgiu a necessidade de penetrar também no mundo da palavra?

HS – O desenho foi minha primeira paixão, e o design acabou sendo uma profissão que me possibilitou trabalhar, ganhar dinheiro desenhando. Claro que o design é muito mais que isso, porque foi também um veículo que me possibilitou estudar a história da arte e buscar outras áreas ligadas à imagem em que eu possuía interesse, como o audiovisual, a animação e a computação gráfica. Depois de um tempo, quis romper um pouco com o aspecto ‘demanda/serviço/cliente’ do design e com o computador. Busquei as artes plásticas, no caso, a xilogravura e a gravura em metal, pra fazer coisas que fossem de uma criação 100% minha. Me reencontrar com o trabalho manual e as matérias – madeira e ferro – , aprender técnicas medievais e reaprender a desenhar sem poder apertar o “undo“.

Eu sempre li bastante desde criança mas a literatura era algo em segundo plano. Durante a adolescência fui muito ligado aos quadrinhos. Aos meus vinte e poucos, comecei a ler “seriamente”, como se diz. Buscar autores com livros complexos, os clássicos, e estudar os movimentos literários, etc. Aí aconteceu esse caso de eu ler o “Grande Sertão: Veredas” e comparar com a fala do meu avô, e me surpreendi. Eu tinha o preconceito idiota [de achar]que a literatura estava nesses livros de escritores mortos e, não, na vida, saindo da boca de gente viva. Eu era passivo diante da grandeza do que esses homens mortos tinham feito e acreditava que não tinha nada para acrescentar.

Depois me mudei para São Paulo e fiz amizade com vários escritores – Xico Sá, Marcelino Freire, Joca Reiners Terron, Marçal Aquino. E comecei a ler os livros deles e gostei. Aí fui buscar outros autores brasileiros e acabei descobrindo o trabalho de Valêncio Xavier, que misturava imagem e escrita, que me inspirou muito, além do Lorenço Mutarelli, de quem já conhecia o trabalho em quadrinho e depois fui conhecer seus livros. Pensei que, se eu fosse escrever um livro, teria que trabalhar com imagens também. Mas, durante um tempo, ainda tinha uma vergonha e uma incerteza se queria me expor como um escritor. Foi com a morte de meu avô que realmente tomei a coragem para escrever de verdade. E aí parti para esse projeto de um livro de escrita, mas que tivessem imagem unidas à história.

JR – E como foi ilustrar o próprio livro? De que forma as imagens e seu trabalho de artistas plástico influenciaram o texto?

HS – Eu concebi o livro como um labirinto, onde surgem portas que você vai abrindo e, ao abri-las, no começo você acha que está se perdendo mas, em um certo ponto, você começa a se encontrar. Essas portas são os personagens. A cada capítulo você vai conhecendo-os e vai construindo a geografia da história. As imagens/gravuras aparecem entre cada capítulo, com um “insight” prum mundo paralelo à narrativa, mas que ao mesmo tempo a completa. Eu quis dar efeito parecido com o que David Lynch faz no cinema, criando imagens como saídas de sonhos/pesadelos, que causam desconforto/dúvida.

O trabalho de ilustrar o livro foi legal, mas ao mesmo tempo estressante. Porque foi duro selecionar o que entrava e o que não entrava. Muitas ilustrações que fiz pro livro acabei retirando, o que me deu pena. Mas era preciso editar, deixar só aquilo que fizesse o livro ficar mais arejado e fluido.

Fora isso, aconteceu uma coisa engraçada, muitas ilustrações que pensei especificamente pro livro não entraram e outras gravuras que eu tinha feito anos antes de escrever tiveram mais a ver com o livro e entraram.

JR – Em Raiar, a história vai se revelando aos poucos, de forma não linear. Por que essa escolha?

HS – Na verdade, não foi uma escolha, mas um acidente feliz. Quando primeiro o concebi, o livro era pra ser de contos. No processo da escrita, as histórias foram se conectando e virou um romance.

JR – No livro, você cita Guimarães Rosa e Jorge Luís Borges. São influências? Se sim, o que de cada um você traz para sua escrita?

HS – Sim, os dois são grandes mestres da literatura. Guimarães Rosa me influenciou nessa criação da fala sertaneja, nessa prosa-poética, no filosofar do matuto, onde ele aguça um olhar pro mundo que mistura geografia e metafísica. No meu livro, tem o famoso arrodeio que o sertanejo faz pra chegar no assunto. Primeiro, se apresentam todas as coisinhas, detalhes da história, dá-se uma boa volta e, quando menos esperamos, PÁ!,  caímos no assunto principal e entendemos o todo. E isso com muito humor, ou muita raiva, porque o sangue do sertanejo é quente.

O sertanejo é um ser pensante-analisante do universo que o cerca, ele processa recria e reconecta os signos, montando seu ensaio inusitado sobre o visto-analisado. Essa fala às vezes tem algo de ideográfico, onde ele junta palavras-imagens pra criar um terceiro sentido e, outras vezes, algo de germânico onde ele aglutina várias palavras pra formar uma outra, que não existe, mas que expressa o conceito do que ele quer comunicar. O sertanejo constrói essa linguagem a partir da mistura das raças brasileiras, da poesia do português, do cantado africano e do místico-silvícola indígena.

O feito linguístico de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas é incrível, comparável a James Joyce em Ulysses, os anglofônicos que me perdoem. A construção é de uma complexidade e de um lirismo absurdos, tornando a tradução uma tarefa quase impossível, por isso tão desconhecido no exterior e sem o devido mérito internacional. É um dos maiores livros escritos no século XX, com certeza.

E Borges me influencia por sua obsessão pelo infinito, o labirinto, os caminhos bifurcados, a matemática, a memória, o sonho, os mistérios do universo e o fantástico. Todos temas maravilhosos, além da sua escrita ser extraordinária, na prosa e na poesia.

JR – Desde quando você escreve? Já tinha publicado textos em algum lugar, antes do seu livro de estreia?

HS – Comecei a rascunhar uns personagens e escrever alguma coisinha em 2004. Depois escrevi bastante a partir de 2006, mas não gosto de nada dessa época. Só fui levar a sério e começar a escrever o livro em 2009 e, em 2010, entrei na oficina literária de Marcelino Freire. Foi lá que o livro tomou forma, publiquei um conto numa revista literária do curso que depois transformei em um dos capítulos do livro.

 JR – Você fez quanto tempo de oficina literária? Que importância as aulas tiveram para o seu texto?

HS – Fiz um ano e meio de curso.  Além de amigo, Marcelino é um mestre e o editor do livro. Ele me lançou o desafio: se eu terminasse, ele publicaria. No meio do caminho, quis desistir algumas vezes, mas ele me exigiu disciplina, que segui pra ir adiante. Me ensinou que escrever não é só escrever. É reescrever, ler, editar, e reescrever, ler, editar, até chegar numa coisa (ou num lugar) que você reconhece como “- É isso!” Aceitar o que escreveu, não voltar mais e publicar. Aí deixar que o mundo tome conta do texto.

JR – Depois de Raiar, qual o próximo passo? Você está desenvolvendo outro projeto literário?

HS – Estou há um ano enfurnado na pesquisa do meu próximo romance, sobre o qual, com tantos assuntos misturados, prefiro não contar nada ainda.

 

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Sobre o autor

É jornalista e, há mais de uma década, desenvolve paralelamente projetos de literatura. Cursou a oficina literária do escritor Raimundo Carrero, tem textos publicados em suplementos literários, sites e na coletânea Recife conta o Natal, editada pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife, em 2007. Ajudou a fundar, em 2004, o coletivo literário Vacatussa que, desde então, tem se dedicado a estimular, analisar e divulgar a produção dos escritores. Participou, na condição de convidada, de eventos como o Festival a Letra e a Voz e a Fliporto. Como jornalista, escreveu o livro-reportagem Subversivos: 50 anos após o golpe (Cepe, 2014).

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