Entrevista – João Paulo Parisio

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LEGIAO_ANONIMALegião Anônima (2014)

THIAGO CORRÊA – Como você já vinha publicando seus contos em sites como O Recife Assombrado e no Off Granta, queria começar esta entrevista sobre o processo de composição do livro Legião Anônima. Porque, apesar dessa produção que aparece dispersa no Google, o livro guarda um conjunto de textos que dialogam entre si. O projeto do livro já foi pensado como um conjunto de contos ou essa busca pela unidade surgiu depois que você reuniu os contos num mesmo volume?

João Paulo Parisio – Eram contos avulsos, Thiago. Na verdade eu decidi reuni-los ao perceber que tinham entre si algo que eu prefiro chamar de identidade, não exatamente unidade. Mas quando comecei a reler esses textos, que originalmente conformavam um livreto, bem menor do que o publicado – já não muito grande –, vi que alguns deles eram embriões a serem desenvolvidos, enquanto outros foram concebidos apenas depois desse primeiro enfeixamento. Mas não acho que um livro de contos precise ter sequer essa identidade entre suas partes, e ela, se existir, pode acontecer de maneiras muito diversas.

TC – Nesse sentido de conjunto, uma das coisas que colaboram para isso são as interseções que você faz entre os contos, com referências a personagens e situações de outras histórias (como ocorre em Ponte Giratória, XIX, XXI e Sobre a Guerra da Arraia-miúda). Essa ideia veio depois, quando você finalmente juntou essas histórias? Qual era sua intenção de interligar os contos?

JPP – A ideia surgiu depois que eu fiz aquela reunião inicial. Embora essas conexões impliquem que os contos se passam num mesmo plano narrativo, não me interessava recair no velho expediente de apresentar estórias paralelas e depois fazê-las convergir. Isso seria um tiro choco. Os personagens do livro coexistem, mas seus destinos não confluem, à maneira dos fios de uma teia, que nunca coincidem por espaço maior que um ponto, embora sejam interdependentes e no conjunto formem uma estrutura. Talvez isso se pretenda um modelo para a vida nas grandes cidades, para a civilização global em si. São a mesma estória apenas no sentido em que constituem o mesmo tecido, estórias dentro da superestória – o primeiro nome do livro era Microdramas –. Se aquelas almas não existissem no mesmo mundo, não poderiam integrar uma legião, ainda que anônima.

TC – Em histórias como A Boa Ação, Blecaute, O Tigre e Sobre a Guerra da Arraia-miúda você se utiliza de elementos do fantástico. Qual o papel que esses elementos assumem na hora de abordar algum aspecto do real?

JPP – Com sua verve habitual, Eça de Queiroz opôs a “anatomia do caráter” intentada pelo realismo à “apoteose do sentimento” encarnada pelo romantismo. Mas eu acho que essa apoteose do sentimento, muitas vezes ligada à liberdade criativa da qual o fantástico emerge como o Pégaso do sangue da Medusa, funciona como um estilete afiado o suficiente para romper a crosta da habitualidade e realizar inclusive aquela mesma dissecação do humano, que a meu ver não pode ser consumada com mero espírito empírico e documental. Os contos fantásticos da juventude do próprio Eça, que junto com outros escritos da época ele chamou de “prosas bárbaras”, estão entre os textos que me incandesceram na adolescência, e como um grande amigo lhe ressalvou numa carta, lamento que tenha abandonado essas paragens – e sucumbido a uma espécie de conversão. Kafka admirava Flaubert, mas nem por isso adotou seus princípios criativos, e foi um autor clarividente e visionário, através do absurdo. De todo jeito, não acredito que a potência reveladora do fantástico deva ser entendida como uma finalidade. É um atributo, que perde sua vitalidade e se petrifica acaso revestido daquele estatuto. A perspectiva utilitária do discurso literário é ela mesma um olhar de medusa. Arte é sortilégio.

TC – Você localiza boa parte dos contos, apontando o lugar em que as histórias acontecem. Por quê? A intenção está mais para uma busca pela verossimilhança e uma tentativa de aproximar os leitores que já conhecem aqueles lugares, ou é uma forma de ressaltar o contraste entre o real e a ficção?

JPP – Foi assim que as estórias me ocorreram, foi nesses lugares que as imaginei. Creio que essas referências coadjuvem naquela percepção de que as narrativas se situam num só universo proposto. É claro que para um leitor de fora as ruas, pontes e bairros mencionados não têm nenhum significado prévio, mas talvez gerem ainda assim a sensação de que os fatos dos diferentes contos se dão num mesmo tempo-espaço, sobretudo se associados àquelas conexões pontuais dos enredos.

TC – No conto A sobrevivente, há a frase “Trazia uma cicatriz no olhar ao ser encontrada”, o que serve de chave para entender a estrutura de boa parte dos contos de Legião Anônima, construídos a partir da premissa de uma mudança que provoca a virada narrativa. Qual a importância dos chamados pontos de transição para os seus contos?

JPP – Em A Arte do Romance, Kundera se refere à “herança depreciada de Cervantes”, que se não me engano corresponderia ao uso livre de artifícios de intriga, recurso que passou a ser visto com reserva a partir da celebração do que ele chama de “pacto da verossimilhança”. Acredito que gêneros como a ficção científica e o fantástico arcaico acabaram se tornando o reduto das reviravoltas, dos encontros improváveis, dos desenlaces por definição. Até por ser um leitor dessas linhagens relegadas, e tributário delas, continuo a acreditar nas virtudes de tais mecanismos. Sei por experiência própria que dependendo de sua concatenação ao teor da fábula podem propiciar uma das experiências mais assombrosas da leitura, não um prazer fútil, uma surpresa momentânea, algo mais comum no gênero policial, e sim uma sensação de alargamento das fronteiras, uma compreensão intraduzível, uma aquisição emocional duradoura para o leitor, e antes dele para o próprio escritor, que é o leitor inaugural. A cicatriz no olhar seria então o produto de uma ruptura benfazeja na ordem da percepção, que a reconfigura e expande. Não espero que algum dos contos desse meu livro chegue a tanto, mas eles refletem essa disposição.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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