Entrevista – Marcelino Freire

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Eme saiu do vermelho (1991) e acRústico (1995)

THIAGO CORRÊA – Sua estreia literária se deu com o livro de contos Eme Saiu do Vermelho, publicado pela Fundarpe em 1991. Em seguida você publicou acRústico. Queria que você falasse desses livros, que quase nunca são lembrados. Neles já é possível observar sinais do que a gente conhece da literatura de Marcelino Freire, como o tema urbano e o estilo de rimas e oralidade? Qual a importância deles para você chegar a esse formato? Há chance de eles serem reeditados?

MARCELINO FREIRE – Só uma reparação, Thiago. O livro Eme Saiu do Vermelho nunca foi publicado. Ele ganhou Menção Honrosa no concurso da Fundarpe. Dava direito à publicação, mas nunca foi publicado pela Fundarpe. Ainda bem. Porque o título é péssimo. Parece alguém que pagou as contas e teve seu nome limpo do Serasa. acRústico, sim, foi publicado por conta própria, eu já morando em São Paulo. O título também é ruim, mas ele já traz essas brincadeiras meio gráficas que eu uso em meus títulos – algo que o amigo Luiz Bras, antigo Nelson de Oliveira, chama de Concretismo do Agreste. Aliás, em acRústico há contos do Eme que eu reaproveitei. Alguns contos do acRústico eu reaproveitei em livros como Contos Negreiros. Sim, meu estilo cantado, cordelizado, gritado, já estava nesses dois livros primeiros. Eu só fui, com o tempo, maturando o ritmo, a pegada… Esses dois livros foram importantes para eu tirar os contos da gaveta, apostar, aos poucos, na minha voz. Mas é só. Não quero que eles sejam reeditados. Eu mesmo já os fui reeditando em livros posteriores.

Angu de Sangue (2000)

mf-angudesangueTC – Assim como Ronaldo Correia de Brito, Raimundo Carrero e mesmo Xico Sá, você também nasceu no Sertão e se estabeleceu no Recife. Mas ao contrário deles, sua obra já começa no ambiente urbano e não se apresenta com um saudosismo. A que se deve isso? Há algo do rural na sua obra?

MF – Você pulou o eraOdito, Thiago. Você não gosta do livro? O eraOdito é o meu livro mais concretista do Agreste. Aliás, em todos os meus livros eu faço a brincadeira que fiz no eraOdito, essa coisa de deslocar as frases, reinventar os lugares-comuns, etc. Sem contar que o eraOdito foi quem deu nome ao meu primeiro blog. Adoro esse livro. Mas vamos ao Angu de Sangue. Vamos à pergunta acima. A minha vinda para São Paulo foi determinante para o que há de urbano e caótico no que eu escrevo. São Paulo poluiu os meus parágrafos. Foi uma experiência traumática, essa de eu sair de minha terra e enfrentar uma cidade diferente, fria, grandiosa. Aqui, em São Paulo, eu tive que reafirmar as minhas origens. Todo mundo me perguntava de onde eu era e eu dizia: “de Sertânia”. E isso foi uma afirmação importantíssima para mim. Reconhecer as minhas origens adormecidas. Essa origem foi, no entanto, acordada pela buzina de um carro. Acordei, eu já estava em São Paulo. Renasci em São Paulo. Talvez venha daí o meu jeito de escrever, de ver, de avistar, de longe-perto, a minha terra pernambucana…

TC – A temática urbana na literatura brasileira geralmente vem vinculada a uma linguagem realista (no sentido de mostrar de forma crua e mais próxima da realidade). Embora você trilhe por esse tema da violência urbana e da desigualdade social, seus contos se diferenciam pelo uso de uma oralidade, um gosto pela rima e pelo ritmo que, de certa forma, descola a linguagem do mundo, tornando seu texto mais literatura do que um relato. Queria que você falasse um pouco sobre esse efeito. Por que você preferiu se desvincular de um caminho já estabelecido por autores como Rubem Fonseca e Marçal Aquino?

MF – Eu não preferi me desvincular de Rubem Fonseca, nem do querido amigo Marçal Aquino. Só vim conhecer o trabalho do Marçal, e o Marçal, aqui, pessoalmente em São Paulo. Sobre o Fonseca, eu digo mais que eu sou mais Graciliano Ramos. O que há de telegráfico no que eu faço vem da economia do Graciliano. O que de violência, também, vem do Graciliano. A violência mais psicológica, digamos. Mais implícita e, em mim, explícita, enfim… Encontrei o meu caminho escrevendo, compactuando com a fala da minha mãe. Minha mãe me influenciou mais do que os grandes autores. A fala da minha mãe, a ladainha dela, as dores dela contaminaram, impregnaram a minha escrita. Uma escrita teatral, tragicômica, etc. Carreguei os gritos dela no ouvido. E ainda carrego. Durma e se acorde com um barulho desses.

TC – Logo no seu primeiro livro por uma editora nacional você já foi adaptado para o teatro pelo Coletivo Angu. Como você avalia a importância do espetáculo Angu de Sangue para o andamento da sua carreira?

MF – Eu amo teatro. Eu comecei escrevendo para teatro aí no Recife. Participei de um grupo chamado Haja Teatro. Fui aluno da lendária e saudosa atriz Ilza Cavalcanti. O ator Paulinho Mafe, que criou o grupo Haja Teatro, também foi muito importante para esse meu começo artístico, digamos. Aos 14 anos, eu já tinha peça minha montada no Recife. Era uma alegria infantil. Era um estímulo único. Daí, quando eu escrevo meus contos, até hoje, eu escrevo pensando em teatro. Nesse melodrama materno. Assim que lancei o Angu de Sangue, no ano 2000, o produtor e ator recifense André Brasileiro me procurou. Reconheceu em meu livro esse apelo para os palcos. Veio, com isso, a adaptação homônima que eles fizeram. E que adaptação! E que atores! E que grupo! Agradeço sempiternamente a todos eles. Eles levaram meus contos e gritos pelo Brasil. Se hoje minha literatura é lida, de alguma forma o Coletivo Angu de Teatro tem uma participação decisiva nisso. Eles trouxeram de volta meu antigo sonho para os palcos. Eles me deram corpo, voz, sangue. Eu me emociono quando falo sobre eles, sobre o grupo, sobre teatro. Quando falo, eu volto a ser o menino, cariado, cheio de sonhos e vontades, lá da Escola Professor Alfredo Freyre, no bairro de Água Fria.

BaléRalé (2003)

mf-baleraleTC – Um tema recorrente no livro BaléRalé são as relações familiares, que aparece em contos como Darluz, Vovô, Mãe que é mãe, Phoder e Balé. Como você vê o efeito da desigualdade, da injustiça sobre a família? A decadência da família, no caso, seria uma causa ou consequência?

MF – Eu acho que eu matei toda a família ao escrever. Eu escrevo para matar a família. Lembro-me que, quando eu li, por exemplo, o livro A Metamorfose, de Kafka, nunca vi a minha família do mesmo jeito. E eu digo a instituição familiar. O que está nas entrelinhas, debaixo das mesas de jantar. Quando escrevo, eu vou atrás desse desconcerto, sei lá. E não falta assunto para escrever, sobretudo sendo eu filho de uma família de imigrantes sertanejos. De uma família católica, religiosa. De uma família teimosa, lutadora. Preconceituosa, até. Eu, posso dizer, que servi, de alguma forma, para educar a minha família em alguns aspectos. Como, por exemplo, no respeito às diferenças. Embora minha mãe fosse uma pessoa bem aberta e generosa. Mas eu digo, tipo, na compreensão em direção ao outro. Aos meus amigos gays, que faziam teatro comigo. Aos amigos gays de meu irmão, Luís Freire, que era carnavalesco. A gente nem precisava falar sobre esses assuntos em casa, mas ficava notória a nossa militância, em qual lado a gente estava…

TC – No conto A volta de Carmem Miranda, o personagem critica a militância gay que existe hoje, numa visão nostálgica da época em que se fazia tudo escondido. Visto que o tema da homossexualidade aparece em contos como Homo Erectus, Minha flor e Mulheres trabalhando; qual o limite para se escrever sobre o tema sem cair numa militância?

MF – É assunto, sim, que sempre esteve presente e sempre estará no que eu escrevo. Este sou eu. É a partir de mim que eu escrevo. Procurando, é claro, não ser panfletário. Mas me comprometendo a entender o que está dentro de mim e à minha volta. O livro BaléRalé é o livro em que mais existem contos com esse temática da diversidade. Mas eu digo sempre que o Balé é, principalmente, um livro sobre preconceito, escolhas. É um livro sobre o afeto. Aliás, você citou o conto A volta de Carmem Miranda. É um dos meus contos preferidos. Porque, na verdade, é uma história de amor. Ali, a partir da fala-monólogo de um gay nostálgico. Conto bastante baseado em frase que eu li do escritor cubano Reinaldo Arenas. Ele, sentindo saudades do tempo em que ele vivia sua homossexualidade em Cuba. Havia muito mais poesia ser homossexual em Cuba, dizia ele, mesmo tendo de lutar contra o regime. Enfim. Eu procurei entrar no coração de Arenas para escrever aquele conto. Assim, o meu coração bateu junto com o dele, entende? O livro BaléRalé é um livro fraterno nesse sentido. Eu escrevo, no fundo, é isto, livros fraternos.

Contos Negreiros (2003)

mf-contosnegreirosTC – Com Contos Negreiros você venceu o Prêmio Jabuti, na categoria de contos. Você percebeu mudanças na sua carreira por conta do prêmio?

MF –
Eu viajei mais. Fui para a Feira do Livro de Lisboa, por exemplo. Eu sempre brinco. Acho que deram o Jabuti para o Contos Negreiros porque estava na hora de premiar Castro Alves. Vivem confundindo Contos Negreiros com Navio Negreiro. Brincadeirinhas à parte, eu te digo que eu não fiz e nem faço concessão alguma para escrever o que eu escrevo. Se o prêmio vem, não pedi para vir. O que eu não posso é me sentir um Jabuti. Tenho de escrever. Tenho sempre de lembrar que eu sou um autor contemporâneo em um país em que se lê muito pouco. A gente precisa batalhar eternamente. Daí o fato de eu correr mais do que um Jabuti, entende? Se há uma coisa que mudou depois do Jabuti, foi isso. Eu corri mais e mais. O Jabuti já ficou lá atrás.

TC – O conto Solar dos príncipes é construído em cima da técnica da inversão. Quando todo mundo direcionava os olhares para as favelas devido ao sucesso de Cidade de Deus, você propõe um olhar de volta, numa espécie de espelho a partir de uma visão periférica. Técnica que você volta a repetir em É só isso o meu baião e no conto Da Paz, em Rasif. Você pode explicar essa técnica e os seus efeitos?

MF – Eu sou o escritor dos deslocamentos. Acho que tem a ver com a minha trajetória de imigrante. Tudo não está no lugar que parece. Nem as palavras que eu uso têm um significado apenas. Elas estão sempre dançando, gingando, caindo fora. Nesse sentido, adoro pensar em contos que desvirtuam a visão das coisas, tiram os objetos (e os sujeitos) do lugar. Adoro esses avessos. Eu sou feito desses avessos. Quando faço isso, tento entender o outro lado, os outros lados. Mais uma vez aquela questão “fraterna” de que te falei, acho. Eu procuro não ter juízo de valor para nada. Até eu ganho com isso. Quando escrevo, eu me ensino a ser mais compreensivo, mais justo, aumento a minha lente de entendimento do mundo. Se há técnica é essa, a de abrir os olhos, o peito, a alma, sempre.

É só isso o meu baião (2008)

mf-baiaoTC – Em 2008, você lançou o conto É só isso o meu baião pelo selo digital Mojo Books. Como surgiu essa ideia? Como você avalia essa experiência?

MF – Pensando agora sobre esse livro digital que publiquei pela Mojo Books, reconheço que é ele a minha primeira novelinha, mesmo antes de o Nossos Ossos. É um conto longo para o meu padrão até então. Mas ele ainda é muito escravo do mesmo estilo rápido, imediato. Ele é mais gritado do que o “Ossos”. Adorei, à época, a experiência de aumentar o meu alcance sonoro, vocal… Pensei muito nos rappers ao escrevê-lo. Queria dar à Bossa Nova uma pegada rap, e também, sim, repentista.

TC – O livro foi lançado durante as comemorações pelos 50 anos da Bossa Nova, mas em vez de elogios, ele tece críticas ao mundo de sal, sol e sul do ritmo de João Gilberto, contrapondo-se às paisagens naturais do Rio de Janeiro, ao canto do amor e a exaltação da mulher. Era sua intenção colocar em discussão a ideia de identidade nacional?

MF – Não, nem me toquei, confesso, que estávamos, àquela data, comemorando o cinquentenário da Bossa Nova. Na verdade, escolhi o disco de João Gilberto porque amo aquele disco que ele gravou com o Stan Getz. E escolhi como mote a música É só isso o meu baião, até para fazer uma referência ao meu, nosso Luiz Gonzaga. E, é claro, daí ambientei a história no Rio de Janeiro, mas pensando, na verdade, em Pernambuco. No sentido, digamos, de improviso ali, na escrita. A mistura de que falei: rap, repente. E, sim, misturei também o pobre, o rico, o favelado, o marginal, o prédio, a favela, etc. Preciso, até, reler esse livrinho. Mereceria uma publicação em papel, quem sabe?

Rasif: mar que arrebenta (2008)

mf-rasifCRISTHIANO AGUIAR – O primeiro e o último texto de Rasif sempre me chamaram atenção, porque eles não chegam a ser contos no sentido tradicionais, e sim crônicas poéticas. O primeiro texto – Para Iemanjá – é cheio de desespero; o segundo – O futuro que me espera – mais otimista. Por que começar o livro com o pessimismo e finalizar com a saudade?

MF – Cristhiano, adorei a ponte que você fez entre os dois contos – o primeiro e o último do Rasif. Na verdade, o primeiro, o Para Iemanjá, eu o considero uma oração, uma permissão que eu pedi para entrar no mundo dela, o da Rainha do Mar. E, sim, o Rasif é um livro que eu fiz para dar um testemunho sobre a saudade que eu sinto de minha terra. Ao final do livro, com o texto O futuro que me espera, eu volto para ela. Um acerto de contas afetivo, sei lá. Um testamento à la Manuel Bandeira. Cheio de esperanças em minha terra primeira…

CA – Os dois contos que mais me chamam atenção são Junior, protagonizado por uma travesti, e I-no-cen-te, um monólogo de um personagem preso por pedofilia. Queria que você comentasse um pouco os dois contos: o que o levou a escrevê-los, como chegou aos temas de ambos e aos personagens que os protagonizam.

MF – O conto Junior veio de uma primeira frase que eu tinha no juízo. Era a seguinte: “Vamos lá em casa tomar um café, disse meu pai para o travesti”. Eu escrevi para saber mais desses personagens, quem era o narrador, que filho era este. E, sobretudo, escrevi para tomar um café com o travesti. Gosto muito desse conto. É um conto que fala de solidariedade, amizade, cumplicidade. O conto I-no-cen-te faz parte daqueles avessos de que gosto de escrever. Para entender o outro lado. Para provocar o olhar do leitor, enfim. Também nele eu só tinha a primeira e a segunda frases: “Pois não sabe a peste que é. Esta criança”. Fui atrás de construir a história, de saber quem era essa criança, esse narrador. Vem primeiro a poesia da frase, digamos, depois é que vem a pedofilia, tomando a frase para si, se apresentando…

Amar é crime (2011)

mf-amarHUGO VIANA – Amar é crime foi seu primeiro livro lançado pela Edith, selo que você ajudou a criar. Veio depois de publicar Contos negreiros e Rasif pela Record. Quais as diferenças entre lançar por uma grande ou pequena editora? O mercado independente, a ideia de construir algo artesanal, lhe atrai?

MF – Amigo Hugo, eu adoro perder no jogo. Edith é um coletivo do qual faço parte. A gente até ganhou, no ano passado, o Jabuti de Melhor Livro de Poesia. Ademir Assunção publicou pela Edith o livro vencedor, o A Voz do Ventríloquo. Não somos, assim, uma editora. Somos um selo de autofomentação. Vanderley Mendonça, grande editor, está conosco nessa empreitada. E não é fácil, assim, ir furando o cerco. A gente faz porque gosta de provocar uma cena, de não ficar de braços cruzados. A proposta da Edith inspirou a criação de outros coletivos e selos. Era natural que eu publicasse pela Edith. E ainda publicarei livros meus por lá. Gosto disto. Mas é bem diferente, sim, de publicar por uma editora como a Record, que tem mais estrutura, é profissional, distribui e faz circular melhor o livro. Mas olhe: tanto na Edith, quanto na Record, eu sempre digo: quem faz o livro é o autor. É preciso colocar a obra debaixo do braço e ir à batalha. O que não pode é ficar parado, esperando, acreditando em milagres.

HV – Os pequenos enredos de Amar é crime apresentam situações limite: morte, dor, partida; personagens que lidam com a perda e o desespero. Prefere a urgência do drama, de instantes decisivos como ambientação para sua ficção? 

MF – O Amar é crime é um livro sobre perdas, o drama do fim, sim. Eu havia, um ano antes, perdido a minha mãe, falecida em 2010. O livro todo traz essa dor. E também traz, sei lá, um certo recomeço. O fato de ele ter sido publicado pelo coletivo Edith já foi um sintoma disto, desse novo caminho a ser trilhado. Eu tive que provocar em mim um desafio, um sentido outro. No livro, os personagens estão meio assim: saindo de um relacionamento, entrando em outras fogueiras, digamos. Pondo à prova os seus desejos, brigando com o mundo para mantê-los, etc. Aliás, há um conto lá chamado União Civil que foi a semente decisiva para eu escrever o romance Nossos Ossos. Algo também nasceu dali, fecundou daquele drama de amor mais adiante.

HV – Como foi a construção desses personagens? Você parece interessado em pessoas à margem, criar vozes para pessoas geralmente sem força política. 

MF – Eu sempre digo que pessoas bem-sucedidas não me interessam. Eu não escrevo livros empresarias. Não concordo quando dizem, no entanto, que eu escrevo “para dar voz aos que não têm voz”. Eles têm, sim. Eu colo o ouvido na rua e ouço. E compactuo. E vou construindo a minha vingança junto com eles.

HV – Gostaria que falasse um pouco sobre o estilo de sua escrita neste livro; em especial a preferência por ritmo e rimas. Teve (ou tem) receio de que a reincidência dessas marcas em seus livros (e postagens na Internet) impliquem numa espécie de catalogação prévia por parte do leitor?

MF – Eu sempre digo que eu não escrevo com rimas. Prefiro dizer que escrevo com “ímãs”. Eu trabalho com regiões magnéticas. Eu escrevo procurando sempre companhia para as palavras. Uma conversando com a outra. Isso, claro, é o que me guia. Foi a voz que eu construí. A voz que eu descobri, assim, dentro de mim, ouvida. É difícil abandonar um jeito de ser, entende? Escrever é encontrar essa personalidade, o seu estar no mundo. Se o leitor identifica como meu esse texto, é sinal de que só eu posso escrevê-lo. E escrevo. Claro que quero estender essas possibilidades, mas sempre dentro e a partir deste meu DNA. Não tem como largá-lo. Já estou encalacrado dele. O leitor cansou de mim? Ainda bem que existem outros escritores e outras línguas sonoras para a gente ouvir.

Nossos ossos (2013)

mf-ossosHV – Você escreveu seu primeiro romance depois de seis livros de contos. Ano passado, outros contistas, como Veronica Stigger e Xico Sá (este, quando veio ao Recife, comentou que escreveu um romance para “provar que poderia escrever um romance”), também publicaram seus primeiros romances. A ideia recorrente que as editoras se interessam mais pela narrativa longa de alguma forma influenciou essa decisão? Ou características do mercado não interferem em seu processo criativo?

MF – Eu queria escrever esse romance. Não foi nenhuma editora nem mercado que quis por mim. Eu já abandonei vários projetos de romance no buraco negro de meu computador. Faz tempo que eu já queria me aventurar em um novo fôlego. Depois de cinco livros de contos, fui ficando acomodado, digamos. Quis sacudir o verbo para mais adiante. Acho que encontrei o jeito no Nossos ossos. Adorei ter vencido, de alguma forma, o desafio. Pode notar que o livro não é longo. Eu roubo muito no jogo. Mas a sensação que eu tive, ao final, foi o de ter atravessado o Rio Capibaribe a nado. O Rio Capibaribe e aquele lodo todo.

CA – Este livro é para mim aquele que possui uma voz mais autobiográfica, mas não tanto em relação à coincidência da sua trajetória com a do personagem Heleno, e sim a um tom muito pessoal, principalmente no desfecho. Você poderia comentar essa impressão?

MF – Concordo com você, Cristhiano. É um livro que vem mais com a minha voz. Distancia-se da voz da minha mãe, por exemplo. Eu, na verdade, tive que me cercar de mim, até autobiograficamente, para não perder o romance. Como disse, já perdi vários. Porque eu chegava neles sem um chão, assim, planejado. Para escrever o Nossos ossos eu tive de montar um esqueleto mínimo para não perder a história. E esse esqueleto, sim, passa por mim, por minha voz, repito, por minha chegada a São Paulo, pelo Recife de minha adolescência, pelo teatro que fiz em Água Fria, pelos abandonos que sofri nessa trajetória toda, enfim. Posso dizer que apelei, eu apelei a mim para construir um outro eu, um quase alter-ego, digamos, que é o meu irmão do peito Heleno de Gusmão.

CA – Existe a linha narrativa relacionada ao cadáver do michê, assim como há uma segunda, na qual conhecemos um pouco das memórias do narrador Heleno. As duas linhas narrativas se alternam. Como você chegou a esta estrutura final do seu romance?

MF – Eu, ao escrever o romance, percebi que estava escrevendo um livro “arqueológico”. O leitor, durante a leitura, vai montando o corpo da história. Por isso os curtos capítulos têm nomes de estruturas ósseas. Por isso, em cada parágrafo, só temos a vírgula como pontuação. Nos parágrafos não há interrogações, travessões, exclamações, etc. O leitor, a cada parágrafo idem, vai montando o corpo das falas. Como fazem os meninos no livro, o protagonista na infância: passam o dia catando e caçando e criando ossos. Esses “Ossos” são “Nossos”, eu queria dizer isto. Eu queria o leitor compactuando comigo, rezando pelo “Boy morto”, pelo “boi morto” também. Uma reza só, indo e vindo, migrando, viajando. Para lá, para além. Em cortejo único, todo mundo, amém.

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