Entrevista – Micheliny Verunschk

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mv-geografiaGEOGRAFIA ÍNTIMA DO DESERTO (2003)

CRISTHIANO AGUIAR – Geografia íntima do deserto foi o seu primeiro livro de poesia e recordo ter sido um dos meus primeiros contatos com a poesia contemporânea brasileira. Na época do lançamento, me chamou atenção a repercurssão crítica do teu livro, pois nem sempre bons livros de poesia como o seu conseguem tanto espaço. Você pode compartilhar conosco um pouco de como foi a recepção do livro e de como você se sentiu na época?

MICHELINY VERUNSCHK – A repercussão do livro foi inesperada para mim. Foi uma acolhida favorável entre diferentes críticos como Luiz Carlos Monteiro e Manuel da Costa Pinto. Entretanto, o que deu esse lastro para o livro foi o belo texto de apresentação feito por Alexandre Barbosa. Eu me senti ao mesmo tempo lisonjeada e assustada, parecia uma responsabilidade enorme. Depois passou, vi que não precisava me levar tão a sério.

CA – Essa pergunta se relaciona à anterior: passados 11 anos da publicação de Geografia íntima do deserto, qual a tua visão daqueles poemas hoje em dia?

MV – Gosto muito de Geografia Íntima do Deserto. Não tenho com ele o que muitos poetas têm em relação ao primeiro livro. Penso que foi um projeto bem acabado. No entanto, no caso de uma nova edição, coisa que venho amadurecendo, alguns poemas seriam revistos. Aliás, já foram.

CA – Não acompanho mais a produção poética contemporânea como na época na qual conheci sua poesia, contudo me recordo de uma grande discussão sobre “poesia de invenção”, bem como da possibilidade ou não de ler a poesia atual sob a influência do barroco. Como você situaria a sua poesia nesses debates? Ainda seriam válidos para entender a poesia brasileira em 2014?

MV  Tenho uma grande dificuldade de colocar minha poesia em qualquer debate. Como psicólogo que não trata parente próximo. Isso se dá, sobretudo, porque em geral aprendo muito com o que os críticos dizem da minha produção. Porém, acho que o barroco (especificamente) nos explica. Não só cabe na poesia brasileira atual, mas na sociedade. Somos barrocos mestiços e compomos vida e poesia sob esses signos. Mesmo quando o negamos, ele ainda está ali como um dado de formação.

CA – Gostaria que falasse um pouco de como foi escrito Geografia íntima do deserto Como aconteceu, por exemplo, a seleção dos poemas para entrarem no livro?

MV – O Geografia íntima do deserto é um apanhado de poemas que fui escrevendo ao longo da minha juventude. Quando parei para pensar no livro achei que precisava que ele fosse um mecanismo, que ele tivesse uma lógica própria, uma paisagem. Dizer que “deixei que o livro falasse” pode soar como romântico. Mas foi exatamente isso: deixei que o livro dissesse a qual mundo ele pertencia, qual era a sua voz, a sua liga.

CA – Ao ler Geografia íntima do deserto, me vem à mente uma série possível de leituras: a poesia mística, Borges, Paul Celan, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes… Que obras você sente ecoando no seu livro de estreia?

MV – João Cabral, Borges, algo do romantismo, do spleen, a poesia mística, sim, tudo isso. Murilo Mendes, um pouco. Paul Celan só leria mais tarde. Orides Fontela, com certeza.

mv-observadorO OBSERVADOR E O NADA (2003)

HUGO VIANA – Gostaria primeiro que comentasse o título; em que momento do processo de escrita chegou a O observador e o nada? Que tipo de impressões pretendia provocar nesse primeiro contato? O que esse título sugere sobre o texto?

MV – Sobre o título, creio que define bem o tipo de relação que é estabelecido dentro do universo poético e narrativo: um observador, alguém que é (ou se sente) observado, o vácuo que permeia essa tensão. O nada talvez sugira uma personificação. É um texto tenso sobre situações de tensão.

HV – Você levou essa poesia ao palco, como uma performance. Como se deu esse processo? Desde o começo o texto tinha essa meta? Ou descobriu durante a escrita que eram poemas que se completavam no palco? 

MV – Quando comecei a escrever esse poema não sabia exatamente do que se tratava. Ele foi composto em cerca de um mês de trabalho frenético durante o qual dormi muito pouco e me alimentei pior ainda. Foi um processo exaustivo, mas eu não conseguia sair do processo de feitura. Me pareceu a princípio um monólogo, algo teatral, mas depois de pronto percebi sua poesia. De todo modo, ele sempre me pareceu um “entregêneros”, um texto com um pé na poesia, um pé na prosa, no teatro. Quando recebi o convite de Marcelino Freire para levar um texto meu para o palco foi nele que pensei de imediato.

HV – Gostaria, também, que comentasse esse aspecto: a poesia recitada, a performance no palco. Em que sentido essa ação oferece novas possibilidades ao texto? Te agrada essa etapa da criação?

MV – Paul Zumthor diz que há muito tempo a paixão pela palavra viva se extinguiu. Demos à palavra escrita o estatuto de verdade e esquecemos que a poesia nasceu para o corpo: nasceu para ser falada, cantada, dançada. Chegamos ao ponto em que muitos poetas, presos ao estatuto do papel e da palavra escrita no papel, leem seus poemas como se cada um deles não fosse único, não exigissem, cada um, uma respiração diferente, uma voz própria. É um desconhecimento do corpo, basicamente. E do papel do corpo para a feitura do texto. Um poema (ou qualquer texto) só está pronto para mim se passar pelo crivo do corpo. Tudo dito em voz alta.

HV – Você coloca no texto, assim como Kafka e Clarice, a presença inquietante de um inseto; que tipo de alegorias implica o uso de um inseto assim, já na abertura de seu poema?

MV – O inseto parece a ideia mais radical de alteridade, não acha? O inseto, esse ser tão pequeno e tão assustador, com essa articulação de patas e antenas, carapaça, mete medo. Talvez porque ele seja o intermediário final entre nós e a dissolução. O inseto é o outro, é a morte e sou eu mesmo, transfigurado.

HV – Você toca em temas diversos e intensos: religiosidade, em sentido amplo; morte, finitude; assuntos que de certa forma aparecem também em seu primeiro romance. Em que sentido são ideias que atraem sua atenção?

MV – Religiosidade em sentido amplo ou o sagrado, e esses são temas que convergem: sagrado, morte, finitude. Vamos morrer e vamos perder tudo e todos a quem amamos, não necessariamente nessa ordem. É nossa tragédia cotidiana saber disso. E talvez por minha educação religiosa ocidental, talvez por experimentar de perto as práticas da devoção popular, esses temas me atraem como escritora, como alguém que pensa nesse “a que será que se destina”.

mv-cartografiaA CARTOGRAFIA DA NOITE (2010)

FÁBIO ANDRADE – É possível dizer que na própria maneira de construir a metáfora do Cartografia da Noite está a distinção entre a sua feição lunar em oposição ao solar Geografia íntima do deserto?

MV – Quando terminei de organizar o Geografia íntima do deserto percebi de imediato que havia um outro livro saindo de dentro dele. Nesse sentido, são livros complementares ou especulares. De fato, os livros existem como duplos, o que o próprio título faz questão de revelar. Nesse sentido, o chiaroscuro é barrocamente intecional.

FA – Como no primeiro livro, é possível identificar uma linguagem rigorosa, sem concessões. Metáfora inusitadas, pouco convencionais, são uma prova disso. Como você vê o leitor de sua poesia?

MV – Acredito que o meu leitor é capturado pela imagem e pela música. Ambos os recursos são cantos de sereia. O leitor, curioso (e já capturado) mergulha. Eu vejo o leitor da minha poesia como alguém capaz de mergulhar. Como alguém municiado (ou que se municia) para viajar com o poema.

FA – Já se falou de hermetismo em relação à sua poesia. Você acha que sua poesia pode ser considerada, em algum sentido, hermética?

MV – Não no sentido corrente que se dá à palavra hermético, como algo inacessível e profundo. Mas no sentido esotérico que associa a palavra ao mistério, condutora de um sentido sagrado desde o cotidiano mais simples às reflexões existenciais, creio que sim, pode ser entendida como uma poesia hermética, e barroca, mestiça, musical. Tudo junto e misturado.

mv-nossa-teresaNOSSA TERESA – VIDA E MORTE DE UMA SANTA SUICIDA (2014)

FA – Você acaba de lançar um romance, o seu primeiro. Em que medida o trabalho com a prosa difere, para você, do da poesia?

MV – Creio que a única diferença realmente perceptível para mim é a qualidade da pesquisa que se faz para um ou para outro. Na poesia todos os sentidos estão a postos. E a pesquisa é estar vivo e perceber o mundo. Na prosa, a pesquisa é sentar diante do livro, do micro e pesquisar didaticamente sobre o tema. No livro Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida pesquisei estatísticas, teses, livros históricos, relatos de aparições da Virgem Maria no mundo. Uma loucura. Em poesia esse aparato é desnecessário. Em um e outro o rigor é (ou deve ser) o mesmo.

EDUARDO CESAR MAIA – Diversos escritores – entre os quais Flaubert, Goethe e, aqui, Graciliano – já abordaram o tema do suicídio. Você acredita que o tabu que envolve esse tema e o impacto emocional que ele gera podem explicar o interesse dos ficcionistas e o êxito literário de obras que enfrentam a questão?

MV – Camus escreveu que o suicídio é a única questão filosófica verdadeira. Acho que isso explica o fascínio e até o tabu em torno do tema.

ECM – No caso do teu livro, ao tema é adicionada uma circunstância nova e provocativa: trata-se de uma personagem suicida, mas além disso santa… Como surgiu para você essa personagem? A provocação ao dogma religioso estava entre as suas intenções?

MV – Anos atrás uma amiga me contou a passagem do suicídio da tia, e da escolha inusitada da avó em vestir a moça de santa para o velório. Essa imagem me pareceu forte e provocativa. Percebi que ali havia uma história que uma narrativa curta, como o conto, não seria capaz de abarcar. O questionamento ao dogma já estava no gesto da mãe, eu fui fiel e amplifiquei isso na personagem do narrador, um velho que a todo momento questiona mais que Deus, os pregoeiros de Deus, como ele mesmo diz.

ECM – Há uma unidade temática na obra, mas há uma fragmentação da narrativa em capítulos que funcionam como painéis nos quais vamos acompanhando, junto ao velho narrador, histórias quase independentes, até chegarmos finalmente a entender que Teresa sempre esteve, de alguma forma, presente. Gostaria que você falasse um pouco sobre essa sua proposta de construção narrativa. 

MV – Eu quis que a narrativa fosse tão fragmentária quanto é a vida. Claro, isso é uma pretensão sem limites. Então pensei que o caminho que me levaria o mais perto possível da minha pretensão seria criar alguma autonomia entre os capítulos de modo que fossem narrativas dentro de uma narrativa maior, o que remete à imagem da matrioska russa, uma boneca que contém outra boneca que contém outra ainda menor e assim por diante. Ou para a imagem de uma dobra que se sobrepõe a outra, uma narrativa em dobras. E você está certo quem costura tudo é a personagem de Teresa, difusa, mas onipresente.

ECM – As cartas de suicidas, que compõem o capítulo 9, são verídicas?

MV – Algumas delas são totalmente ficcionais. Outras são inspiradas em cartas reais.

ECM – Em entrevista ao Jornal do Commercio você menciona o impacto que o suicídio de pessoas próximas causaram em você. Tentar compreender o gesto dessas pessoas foi o que te levou a escrever Nossa Teresa?

MV – Eu já havia começado a escrever Nossa Teresa quando um grande amigo se matou. Outras pessoas mais ou menos próximas se mataram antes disso. Não sei dizer se eu quis compreender o gesto. Ou se quero. Queria meu amigo vivo. Queria que eu não tivesse sido chamada por ele a testemunhar a cena na sua carta de despedida (toda carta de despedida de suicida convoca o olhar do outro, sua cumplicidade para a cena). Mas gostaria de amplificar a voz do meu amigo. A voz dessas pessoas. E talvez dizer que o que é humano não deve nos escandalizar, humanos que somos, todos nós.

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