Entrevista – Nivaldo Tenório

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febreDias de febre na cabeça (2012)

THIAGO CORRÊA – Em 2002, você apareceu na literatura com o livro A grande torre, depois reapareceu ao vencer o concurso Osman Lins de Contos. Nesse período entre o livro de estreia, o prêmio e Dias de febre na cabeça, o que mudou na sua visão da literatura?

NIVALDO – Com exceção do prólogo, onde tento justificar a falta de unidade do livro, recorrendo à torre de babel, como metáfora de confusão, e talvez um conto ou dois, de resto não gosto do livro, e quando digo que andei roubando exemplares das bibliotecas, para queimar, juro que não estou fazendo tipo. A grande torre precisaria amadurecer mais. Sua publicação, portanto, foi precipitada, e me arrependo, mas devo dizer que aquele escritor não mudou muito desde 2002. Quando falo que já era o mesmo escritor, refiro-me a ideia que fazia e faço da literatura. Naquele tempo eu já era o leitor de Borges, lendo e me surpreendendo com as semelhanças que o argentino tem com o nosso Machado de Assis. Eu já era o escritor que condenava o diletantismo, eu já me cobrava uma atitude mais profissional e sabia que para fazer literatura de verdade o caminho não era outro senão aquele apontado por Ernesto Sabato, de que é preciso ter uma obsessão fanática pela criação ou nada de importante será feito.

TC – É possível fazer relações entre o seu livro de estreia e o Dias de Febre na cabeça? Quais?

NIVALDO – Não. N’A grande torre, os contos foram reunidos (por isso a metáfora da torre de babel, uma canhestra tentativa de justificar sua falta de unidade) num livro por causa de um projeto, que um amigo nosso, o jornalista Roberto Almeida, desenvolveu junto à Fundarpe. A intenção era publicar autores de Garanhuns. Foi assim que peguei carona e publiquei os contos. Dias de febre na cabeça é outra coisa, foi pensado como um livro. Os contos reunidos constituem uma unidade, trabalhada e retrabalhada ao longo de muitos anos.

TC – Dias de febre na cabeça é um livro bem pesado, com histórias que sufocam, que trazem um tom pessimista, repleto de traições, suicidas, acidentes de trânsito. De onde vem esse pessimismo?

NIVALDO – Não sei se a palavra correta é pessimismo ou realismo. Acho que tem a ver com o meu temperamento e como encaro as coisas. Existir é bom, mas não deixa de ser doloroso. Quando as coisas estão mais ou menos arranjadas é tempo que a velhice se instalou e com ela a doença. Vivemos a vicissitude da temporalidade e sobre isso nada podemos fazer. Mas isso não quer dizer que não gosto da vida, que não sou alegre e arriscaria dizer até que sou feliz. Veja os suicidas, muitos deles se mataram porque não estavam satisfeitos com a vida que levavam. Preferiram a morte a ter que viver como desgraçados. Ninguém pode dizer que não gostavam da vida, acho que foi por isso mesmo que se mataram. Veja o exemplo de Hemingway. E eu gosto da vida, por isso acredito na ciência e na ética e que é nosso dever construir um mundo melhor. Minhas preocupações nascem daí, da minha visão pragmática das coisas, não necessariamente pessimista. Não gosto das fantasias delirantes, feitas para nos tapear, mentiras bem arranjadas que se por um lado infundem medo, por outro nos confere consolo. Precisamos de consolo porque vamos morrer, e em nome disso incorremos em improbidade intelectual. Comigo isso não funciona, dispenso essas histórias, as delirantes fantasias que incluem paraíso, eternidade e deus-pai-todo-poderoso. Não sou niilista. Gosto da vida, aqui e agora, por isso mesmo sou realista, talvez um pouco pessimista. Temo que me alonguei, mas é preciso dizer outra coisa, como leitor construí ao longo dos anos a minha biblioteca pessoal, nela encontro os livros com os quais me identifiquei. Nesses livros fazer literatura e sondar o humano se confunde, e nenhum deles pintou para mim um mundo cor de rosa. Sem querer me comparar a eles, você poderia fazer essa mesma pergunta a Dostoiéviski, Kazantzakis, Machado de Assis, Fitzgerald, Céline, Thomas Mann, Faulkner, José Saramago e tantos outros.

TC – Ao ler Dias de febre na cabeça, a realidade se faz bem presente, em alguns contos você dá pistas de onde surgiram suas ideias, sugere que essas histórias de fato ocorreram. Como é esse processo de transformação de fatos reais em ficção?

NIVALDO – Lá em casa, na casa do meu pai, eu costumo dizer que quem deveria ser o escritor da família era o meu irmão Ivaldo. Eu fico impressionado com os detalhes da nossa infância que ele não esqueceu: nomes de pessoas e episódios banidos da minha memória, na dele se conservam intactos. Quanto a mim me lembro das coisas com dificuldade, tudo é sempre muito fragmentado, e quando aproveito uma coisa e outra para escrever uma história, ela acaba sendo outra coisa, diversa daquela que deu origem. Então é assim que acontece, como o arqueólogo que encontra um pedaço de vaso enterrado na areia e imagina o vaso inteiro, a realidade de fato me fornece alguns pedaços de personagens, cenários e histórias que transformo em contos.

TC – Uma coisa que me chamou atenção no livro é a maneira como você desenvolve suas histórias através de sugestões, sem explicitar que houve uma traição, nem que tal personagem cometeu suicídio. Por que essa opção de escrever quase por negação?

NIVALDO – Porque para mim é justamente isso que diferencia o mero registro da realidade da criação literária. Explicitar é querer convencer o outro de um fato. A Literatura não deseja convencer a ninguém de um fato. Não existem fatos. Mas existem as coisas além dos fatos, e isso só pode ser sugerido.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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