Entrevista – Ronaldo Correia de Brito

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TRÊS HISTÓRIAS NA NOITE (1989) e AS NOITES E OS DIAS (1997)

THIAGO CORRÊA – Ronaldo, seus primeiros livros de contos foram Três histórias na noite e As noites e os dias. Como pouca gente teve acesso a eles, eu inclusive, queria que você falasse um pouco sobre esses livros. Eles se relacionam de alguma forma com sua obra posterior?

RONALDO CORREIA DE BRITO – O primeiro saiu pela FUNDARPE, por conta de um prêmio concedido a quatro autores estreantes, e foi editado por Mario Helio. As noites e os dias foi lançado pela Bagaço, que resolveu entrar no risco. Ninguém gosta de publicar contista porque não vende. Como o Baile do Menino Deus se tornara um best-seller na Bagaço, o lucro de um compensava o prejuízo do outro. Eu escrevo como se existisse uma única trama que se passa nas mesmas paisagens: os Inhamuns, o Cariri/Crato e o Recife. Mesmo quando um conto se ambienta em Berkeley, é fácil perceber referências a essas geografias. Alberto Mussa leu Faca e Livro dos Homens achando que o conjunto de narrativas formava um romance. Os contos dos dois primeiros livrinhos reaparecem na minha literatura posterior, corrigidos ou reescritos.

BAILE DO MENINO DEUS (1996), BANDEIRA DE SÃO JOÃO (1998), ARLEQUIM (1999) e O PAVÃO MISTERIOSO (2005)

TC – Nos seus livros de prosa infantil, você divide a autoria com Assis Lima. Como é escrever em parceria? É possível estabelecer limites dessa parceria (no sentido de que você cuidava da história em si e Assis ficava responsável pela parte musical ou a criação conjunta é plena)?

RCB – Borges nunca soube o que era de Bioy Casares e o que era dele nos livros escritos em parceria. Assis e eu dividíamos tarefas, creio que os enredos sempre ficaram por minha conta, mas geralmente trabalhávamos juntos, mesmo as letras das músicas. Alguém cortava e o outro costurava. Quando Zoca Madureira compunha a música, fazia ajustes e nós dávamos os acabamentos. Com todo esse cuidado para alcançar uma unidade, é possível perceber aqui e acolá a mão de Assis ou a minha mão.

TC – Todos esses livros foram escritos para serem apresentados como espetáculo. A versão que chegou em livro é a mesma que foi escrita para o teatro? Como foi o processo de adaptação do texto teatral para o livro?

RCB – Originalmente, tudo foi escrito como teatro. A Bagaço nos propôs que adaptássemos à prosa, por ser uma leitura mais fácil para as crianças. Não existe tradição de publicar teatro no Brasil. Os três livros – Baile do Menino Deus, Bandeira de São João e Arlequim de Carnaval –editados pela Alfaguara na versão teatral são uma raridade. Das quatro versões em prosa, a que mais fugiu ao teatro original foi O Pavão Misterioso, publicado pela CosacNaify.

TC – Os três primeiros títulos integram o projeto Trilogia das Festas Brasileiras. O que era esse projeto? Como surgiu? Quais os objetivos?

RCB – Zoca Madureira, Assis Lima e eu havíamos sido parceiros no filme Lua Cambará, um longa metragem em super 8, creio que o primeiro e único rodado no Brasil nessa bitola. Sempre nos queixávamos que nossos filhos não teriam a sorte de conhecer os brinquedos brasileiros do ciclo das festas: Natal, São João e Carnaval. Assis morava em São Paulo e vinha passar o Natal no Crato. Ele enviou um esboço poético para eu representar com minhas irmãs, na Noite de Festas. A partir desse primeiro esboço, escrito sem nenhuma pretensão, criamos o Baile do Menino Deus. À medida que escrevíamos as letras e Zoca compunha as músicas, inventávamos tramas para justificá-las no corpo do texto. Assim surgiu o Baile, de quase nada, uma brincadeira de amigos. O disco saiu pela Eldorado em 1983 e, nesse mesmo ano, estreamos a peça, no Teatro Waldemar de Oliveira. O Baile nunca mais parou. O Mateus fala: O baile aqui não termina, o baile aqui principia. Parece praga. Pegamos gosto e tocamos o projeto da Trilogia das Festas Brasileiras, com disco, texto teatral, texto em prosa e encenação. Sonhávamos apreender algo do espírito dessas festas. Faz muito tempo isso. Os textos e as músicas ganharam o Brasil, são incontáveis as encenações todos os anos.

facaFACA (2003)

TC – O ambiente de Faca é o sertão, não o sertão moderno que a gente encontra em Galileia, mas o sertão mítico, marcado pelo abandono, pela autoridade, povoado pelos ciganos, honra, violência e mistérios típicos da cultura oral. Aonde você enxerga Faca dentro da tradição literária brasileira? Seria dialogando com Graciliano Ramos, como Davi Arrigucci aponta no posfácio, com o sertão de Guimarães Rosa ou com o universo do Movimento Armorial?

RCB – Quando estava inteiramente fora de moda contar histórias, pois tanto os escritores quanto a academia se interessavam apenas pelos experimentos com a linguagem, eu saí com um livro de narrativas cujo objetivo era contar histórias. Nele eu também experimento com as formas de narrar, crio dificuldades para o leitor, sou exageradamente econômico. Acho que dialogo com Borges e Juan Rulfo mais do que com Guimarães Rosa. O sertão de Guimarães Rosa é bem diferente do meu, é mais lírico e metafísico, quase poesia. O sertão de Faca já prenuncia o sertão de Galileia. Alberto da Cunha Melo escreveu um ensaio sobre os meus contos, em que insiste na diferença do sertão de Ariano Suassuna. Ele aponta o meu “incerto” sertão, um lugar deslocado, com personagens complexamente neuróticas e urbanas. E diz que o sertão de Ariano possui endereço certo, situando-se em geografias de Taperoá ou Princesa. Quanto ao ensaio de Davi Arrigucci, também enxergo certa secura em Faca, que está no tom de Graciliano Ramos.

TC – O livro termina com Lua Cambará, um conto que traz algo do universo fantástico. Queria que você falasse um pouco sobre essa presença do elemento fantástico, algo que vai se esvaindo ao longo da sua obra.

RCB – Não acho que o elemento fantástico esteja desaparecendo da minha literatura. Em Galileia, narro o encontro de Adonias com o tio Domísio Justino, desaparecido há trezentos anos e vivendo dentro de um quarto escuro, na casa de Tio Salomão. Donana, morta por Domísio, habita a parede de um açude, de onde espreita os homens assassinos de mulheres. Estive lá fora é recheado de fantasmas. E no mais novo livro de contos há também muitos fantasmas. O fantástico, na minha literatura, está menos para o realismo mágico de Gabriel Garcia Marquez e seguidores, e mais para Bergman. Meus mortos vivem, ou teimam em viver.

livro-dos-homensLIVRO DOS HOMENS (2005)

CRISTHIANO AGUIAR – Você poderia falar um pouco como surgiu o livro? Os contos, por exemplo, são textos antigos retomados, ou foram todos escritos após e/ou em conjunto com os contos publicados em Faca?

RCB – Eu tinha dois livros prontos quando publiquei meu primeiro volume de contos – As noites e os dias. O segundo volume se chamava Lua Cambará. Deixei esse título de lado porque era o mesmo do filme que eu rodara na bitola super 8, com Horácio Carelli e Assis Lima, e que depois foi filmado em 35mm por Rosemberg Cariry. Quando Davi Arrigucci leu As noites e os dias, me sugeriu editar pela CosacNaify. Augusto Massi e Rodrigo Lacerda, os editores, perguntaram se eu possuía algum livro inédito. Mandei Lua Cambará. Faca é uma seleta dos dois livros. Alguns contos do espólio foram para Livro dos Homens e uns bem poucos para Retratos imorais. Porém, a maior parte das narrativas desses dois livros foi escrita originalmente para eles.

CA – Qohélet é um dos meus contos preferidos do livro. Como você chegou à estrutura fragmentada desta narrativa? E de que modo as suas vivências pessoais como médico influenciaram o conto?

RCB – Fico anos com uma boa história sem conseguir escrevê-la, até que encontro o tom da narrativa, uma sugestão que desencadeia a escrita. Trabalho num hospital que já foi um dispensário de tuberculose, com 1200 leitos. Era a Montanha Mágica do Recife. As pessoas entravam ali para se curar, ou para morrer. Ficavam anos naquele lugar triste, sem esperança de voltarem ao mundo de fora. Conheci um homem que perdeu um pulmão e sonhava ser um brincante de carnaval. A história dele era incrível, eu ficava rememorando, porém nunca conseguia passá-la ao papel. Até que li a tradução livre de Haroldo de Campos para o Eclesiastes, o Qohélet. O texto possuía o ritmo da fala do meu paciente, a atmosfera, o mistério. Sentei e escrevi, sem dificuldade. Aconteceu a mesma coisa com Homem folheia álbum de retratos imorais, do livro Retratos imorais. Eu tinha a história, mas perdera o fio narrativo, um pequeno álbum de retratos que o meu paciente me mostrou e parecia uma revista em quadrinhos, as fotos numa sequência narrativa incrível. Travei, não conseguia escrever uma linha. Um dia eu vi as imagens feitas por Barbara Wagner sobre Brasília Teimosa. O “santo” baixou na hora. Foi sentar e escrever.

CA – Em O que veio de longe, um cadáver desconhecido é rebatizado por uma comunidade de pastores e vaqueiros com o nome de Sebastião dos Ferros. De assassino, ele se torna, ao ser novamente narrado, em santo. Seria possível dizer que neste conto haveria a defesa da ideia de que toda memória coletiva é de certa maneira ficcional?

RCB – Essa é a teoria de Robert Alter para os livros da Bíblia, de que há sempre um autor que fixa a narrativa, de que não se trata apenas de criação coletiva – “… as invenções e projeções imemoriais da tradição popular não bastam para constituir uma prosa de ficção, que depende da imaginação particularizante de um escritor individual. ”Desde criança leio a Bíblia como um livro de contos, sempre tratei-a dessa maneira, me perdoem os ortodoxos. As teorias de Alter me confortam, senti-me menos apócrifo. Fui beneficiado pela memória das comunidades onde vivi a infância e a adolescência, transformando-a em minha ficção.

galileiaGALILEIA (2008)

CA – Seu romance faz uma série de referências a personagens e acontecimentos dos seus dois livros de contos. O personagem de O que veio de longe, por exemplo, Domísio, é uma referência importante em Galileia. Por que interligar as suas narrativas? Este é um plano desde que começou a escrever contos, ou surgiu apenas ao elaborar o romance?

RCB – Sempre desejei que minhas narrativas se interligassem, as histórias se cruzassem, criando um universo ficcional: meu sertão ou meu não lugar. Balzac fez isso na Comédia Humana e o resultado alcançado impressiona. Os personagens aparecem em vários tempos, em romances diferentes. Isso dá unidade à Comédia.

CA – Que livros você estava lendo durante a escrita do romance?

RCB – Com certeza, a Bíblia e Cioran. A escrita durou cerca de oito anos, seria difícil lembrar os títulos que eu lia na época. São mais fortes e reconhecíveis as imagens de Bergman, Kurosawa e Antonioni. Sei exatamente onde esses cineastas aparecem e o que eles sugerem. Outro dia jantei com uma professora de literatura brasileira em Boston, uma filha de japoneses. Ela havia lido Galileia e se impressionara com Retratos imorais. Senti que a professora desejava fazer um comentário sobre Galileia, mas temia entrar na intimidade do meu processo de criação. Ela gostava do último capítulo. Falei o quanto devia a Kurosawa e ao filme Ran, o final com um homem sozinho, abandonado por Deus, incomunicável porque perdera o telefone celular, à beira do caos representado por uma paliçada de motos. Ela quase gritou de alegria porque durante a leitura do romance sentira afinidades com a épica japonesa, sobretudo com o cinema de Kurosawa.

CA – Desde que li Galileia pela primeira vez um romance me vem à cabeça: Pedro Páramo. Você identifica a influência de Juan Rulfo na sua prosa?

RCB – Li Juan Rulfo bem tarde, mas ele me marcou profundamente. Acho que a influência de Rulfo se faz através de Borges.

retratos imoraisRETRATOS IMORAIS (2010)

TC – Em Retratos imorais você faz o caminho inverso dos personagens de Galileia. Sua obra sai do sertão e chega ao Recife. Por que essa mudança de ambiente?

RCB – O conto Pai abençoa filho conta a trajetória de um adolescente que deixa a casa paterna, vindo do Crato para o Recife. Mas o Crato não é sertão, já se tratava de um mundo urbano na década de 1950. Romeiros com sacos plásticos e Menino sonhando o mundo também fazem a transição entre o pequeno mundo urbano e o Recife. Essa trajetória é bem natural e era esperada por mim. Vivi até os cinco anos no sertão dos Inhamuns, depois, até os dezessete anos no Crato, e até o presente momento no Recife. Chegar às cidades, ao mundo, representa poder falar de outras maneiras, ocupar-me com questões contemporâneas, o que não era possível no universo fechado sertanejo.

TC – Quando comparo Faca e Livro dos Homens com Retratos imorais, fico com a impressão que os dois primeiros têm uma narração mais clássica, enquanto no último me parece que você se arrisca e experimenta mais, busca novos caminhos. Você acha que essa mudança tem a ver com a migração do ambiente rural para o cenário urbano? Essa mudança de cenário de alguma maneira se traduz na forma da sua narrativa?

RCB – Se considero experiência narrativa, eu já investira bastante em Faca e Livro dos homens. Retratos imorais é um livro laboratório, com acertos e erros. O conto Sapo, por exemplo, onde narro o assassinato de Pasolini, me parece uma ousadia, a meu ver, bem realizada. Hoje eu deixaria de fora pelo menos três contos, os mais antigos. Nem sei se deixaria, mesmo. Sou teimoso e inquieto, cada livro é um risco. Não gosto de me repetir.

TC – O conto que mais gosto desse volume é Catana, que trata de um plantão médico em pleno Carnaval e é narrado através da alternância de vozes dos vários personagens envolvidos numa cirurgia, sintetizando alguns medos e problemas da nossa sociedade. Como você chegou a essa forma? E por que justamente o carnaval para abordar temas sérios como a saúde pública, o tráfico de drogas e a violência?

RCB – Você trata de uma questão que sempre desagradou profundamente o meu antigo editor Rodrigo Lacerda: a maneira como elaboro as falas dos meus personagens. Chamo esse estilo, inventado por mim, de diálogos suspensos. Rodrigo não gostava, implicava muito, pedia para eu ser mais natural como nas novelas de TV. Claro que nunca cedi um centímetro, embora considere Rodrigo um excelente editor. As falas podem soar falsas, mas elas criam certo distanciamento brechtiano, incomodam, definem espaços para os personagens, parecem módulos de arquitetura. Recentemente visitei um amigo da família, na fazenda Lajedo, onde nasci. Depois de cinco minutos de conversa com um homem chamado Luiz Ferreira, descobri que eu escrevia igualzinho ao modo como os sertanejos dos Inhamuns falam. Cada palavra é tão sólida, soa como se viesse de tão longe, que parece uma pedra arremessada em nossa cabeça. Em Catana, o inusitado é um pano de fundo, realça os solilóquios dos personagens, cria dramaticidade e estranheza. Rodrigo Lacerda odeia isso. Você gosta, eu gosto, a maioria das pessoas gosta, felizmente. Em Galileia, enquanto Raimundo Caetano morre, a esposa Maria Raquel vê televisão. O monólogo dramático de Raimundo é entremeado por conselhos de beleza e culinária. Sou atento ao desenrolar das conversas, escuto bem, presto atenção, anoto, pergunto, me espanto. O hospital, onde trabalho há 40 anos, continua sendo a melhor escola. Todo dia eu escuto uma história nova e aprendo uma lição diferente. Não falei do Carnaval. Sou assim mesmo, sempre enrolo meus entrevistadores.

cronicas-para-ler-na-escolaCRÔNICAS PARA LER NA ESCOLA (2011)

TC – Crônicas para ler na escola reúne textos seus publicados na Revista Continente e na sua coluna no Terra Magazine. Que critérios foram usados para selecionar as crônicas que entraram no livro?

RCB – Cristhiano Aguiar fez a primeira seleção, eu opinei sobre ela, e juntos nós montamos o livro. Acho que procuramos algumas crônicas bem simples, coloquiais, e outras mais parecidas com ensaios. Cristhiano deveria responder essa pergunta.

CA – O trabalho de seleção foi feito em conjunto com Ronaldo. Inicialmente, ele me passou todas as crônicas publicadas por ele na Continente e no Terra Magazine. Fiz uma pré-seleção e meu critério foi o de procurar textos que eu supunha ser uma leitura prazerosa para o leitor. Alguns textos, por exemplo, não entraram, porque, por um motivo ou outro, atendiam mais a um debate do momento no qual foram escritos. Em termos de temas, como a coleção é voltada para alunos da escola, privilegiei as crônicas cujos temas de alguma forma fossem polêmicos e pudessem, por exemplo, ser debatidos em sala de aula, ou tivessem conexão com os interesses gerais de um leitor mais jovem. Crônicas que de alguma maneira se relacionassem com a obra de Ronaldo também foram pré-selecionadas, já que Ronaldo costuma escrever sobre seu processo criativo, ou mesmo dar dicas, nas suas crônicas, sobre o que está escrevendo ou vai escrever. Alguns episódios de suas narrativas, aliás, muitas vezes surgem numa primeira versão em crônicas. Finalizada a primeira etapa de seleção, nos reunimos algumas vezes em sua casa e praticamente o livro foi todo lido em voz alta e discutido em meio a várias xícaras de café e tapiocas. Algumas correções, por exemplo, Ronaldo fazia nas crônicas à medida em que as líamos em voz alta. Quando o martelo foi batido em termos de quais textos fariam parte da coletânea, Ronaldo passou a trabalhá-las com sua editora.

TC – Pelas crônicas, é possível perceber alguns fios temáticos que reaparecem em outros trabalhos seus, como contos e romances. A crônica, no caso, seria uma forma de experimentar e testar alguns temas? Como você diferencia, em termos de matéria-prima temática, o que vai virar crônica ou o que vai virar um romance?

RCB – Sua pergunta é sagaz e revela um leitor atento. Às vezes eu reproduzo crônicas inteiras dentro dos meus romances e contos. Fiz isso em Galileia. Acho que se não tivesse sido empurrado a escrever crônicas por Mario Helio, não teria me tornado um romancista, o que era uma sugestão permanente do meu editor. Acontece exatamente como você percebe, escrevo pequenos ensaios, onde trabalho ideias, temas políticos ou filosóficos, e me preparo dessa maneira para a ficção. A primeira forma do conto Homem folheia álbum de retratos imorais é uma crônica: A saga de Claudiney Silva, um quase morto. Fui botado para fora da revista Continente, depois desse texto, e nunca soube o motivo. Depois me convidaram a escrever novamente na revista. Há crônicas que consomem um tempo enorme e outras em que eu não gasto mais de vinte minutos. Quanto a diferenciar o que vai ser romance ou crônica, não sei dizer. É aleatório como escolher atores. Vi as fotos de um palhaço numa apresentação na Itália e achei que seria ótimo colocá-lo na encenação do Baile do Menino Deus, do Marco Zero. Deu certo. O espetáculo cresceu muito com ele. Sou intuitivo e aberto às paradas. A crônica de novembro na Continente é sobre um rapaz que eu encontrei uma noite dessas, na 17 de Agosto. De início, pensei que fosse me assaltar, mas era um jovem escritor em perigo, pedindo socorro. Tomamos um sorvete, eu paguei a conta e ganhei uma boa história, que certamente se transformará num conto. Enviei a crônica pro cara ler. Ele me escreveu um e-mail dizendo que o personagem não tinha nada a ver com ele. Certamente não tem. Isso não possui a menor importância. Interessa se a crônica é boa e se o conto ficará bom. Nunca pretendi ser historiador.

TC – Chega a ser uma preocupação a imagem que você vem construindo de si mesmo, considerando o caráter pessoal das crônicas, onde o autor acaba se posicionando diretamente como intelectual e cidadão? O Ronaldo construído pelas crônicas é o mesmo Ronaldo que as escreve?

RCB – Você e Cristhiano me conhecem o bastante para saber que eu não invento um personagem para mim. Procuro ser o mais sincero possível e me exponho bastante. Também fui demitido do PROMATA, onde eu criava campanhas de arte-educação e ganhava um bom dinheiro, porque escrevi uma crônica chamada Cristo nasceu em Macujê, em que narrava o sofrimento da população desse distrito de Aliança. O texto era forte, impiedoso, as pessoas de Macujê interpretaram errado, não compreenderam que eu fazia a defesa deles contra os usineiros, leram tudo ao contrário, não devassaram o subtexto. Sobrou pra mim. Tornei-me o Cristo para a Secretaria do Estado e para os macujeenses, que até me ameaçaram de morte.

estivelaforaESTIVE LÁ FORA (2012)

TC – No encadeamento de sua obra, a gente vai observando uma aproximação gradual à sua experiência como médico, através de Galileia, Retratos imorais, Crônicas para ler na escola e finalmente Estive lá fora, pelo personagem Cirilo. Em que o médico Ronaldo Correia de Brito contribuiu para a literatura do escritor Ronaldo Correia de Brito? E em que o autor Ronaldo Correia de Brito contribui para o exercício da medicina do doutor Ronaldo?

RCB – Existe um conto muito antigo, eu temei em publicá-lo no livro Retratos imorais, chamado Homem borgiano espreitando o lobo. Você deve imaginar porque o “borgiano”. Trata-se de uma narrativa escandalosamente influenciada por Borges. O conto termina com essa pergunta: A noite me reserva a emboscada que já nem temo? É a história de um lobisomem, esse ser plural, dividido. Sofri o conflito de ser médico ou escritor durante a maior parte da vida, passei dez anos em psicanálise, tudo para descobrir que os dois eram um só. E aí, quando o médico parou de temer a emboscada do escritor e vice-versa, os dois se tornaram melhores ou, pelo menos, passaram a viver com mais serenidade. Eu não seria o escritor que sou, bom ou ruim, sem a medicina. Nem seria o médico que sou há quarenta anos, bom ou ruim, sem a literatura.

TC – O tema dos problemas urbanos entrou na pauta do dia, com o Movimento Ocupe Estelita, as discussões sobre mobilidade urbana, desigualdade, identidade, memória. Embora a história se passe nos anos 1970, essa discussão aparece em Estive lá fora, através das observações de Cirilo que revelam a tensão social e o processo de descaracterização da cidade. Esse tema já fazia parte dos anos 70 ou é reflexo do contexto histórico em que a obra foi escrita?

RCB – Eu já sofria com esses questionamentos e os meus amigos de esquerda também sofriam, desde 1969, quando vim morar no Recife e senti que havia chegado à minha cidade. O Recife era deslumbrante há 45 anos. Um colega médico me falava que era bem mais lindo em 1950, quando ele viera de Pombal, na Paraíba. Não se trata de Meia-Noite em Paris, de Woody Allen, em que o belo e o bom estão sempre algumas décadas atrás. Nossos questionamentos eram os mesmos de agora: a ganância dos que só pensam em dinheiro e não olham as pessoas e a cidade, não se preocupam se estão criando um Frankenstein com as deformações urbanas que introduzem. O Recife poderia ser uma das cidades mais belas do mundo, se não tivesse sido tão transformado, e tudo com o consentimento do poder público. Pouco se comentou, mas você sabe que eu ganhei 21 páginas no Magazine Air France, uma revista de bordo editada pela Gallimard, de grande tiragem e circulação. Eu deveria escrever sobre uma cidade com a qual mantivesse um romance. Escolhi o Recife, ganhamos a capa e a edição mais cobiçada, a de julho. É bem pouco o que nós artistas podemos fazer. Muito pouco. Mas estamos sempre fazendo, teimosamente. Um exemplo disso é o Baile do menino Deus.

TC – Em Estive Lá Fora, você aborda o período da ditadura militar no Recife e registra alguns fatos da época da repressão, como o mistério em torno da rural Wyllis e o uso, por parte da polícia, de uma artista plástica como infiltrada. Como foi o processo de pesquisa para compor essa época? Até que ponto cabe à literatura o papel de construção da memória?

RCB – Li bastante, conversei com os familiares dos meus personagens reais, vi imagens, o que é fundamental no meu processo criativo. Nunca senti tanto gosto em escrever um livro como Estive lá fora. Foram dois anos de febre. Aprendo mais sobre a história nos livros de ficção do que nos compêndios escritos com o fim de narrar a história. Guerra e Paz é o maior exemplo de um romance onde a história se escreve em todos os interstícios da narrativa romanesca. Acho que cabe bem mais aos poetas e ficcionistas do que aos historiadores construírem a memória de um povo. Borges dizia que a guerra de Troia foi mais importante para Homero do que para o povo grego, porque o bardo foi quem escreveu dois grande poemas épicos.

* entrevista realizada em outubro de 2014

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