Entrevista – Samarone Lima

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samarone-ze (1998)

THIAGO CORRÊA – Com , você iniciou um projeto de reportagens sobre a ditadura. Como você chegou a esse tema e a história de José Carlos Novais da Mata Machado?

SAMARONE LIMA – Em 1993, eu estava terminando o curso de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco e trabalhava como estagiário no Diário de Pernambuco. Fazia matérias grandes sobre Direitos Humanos e me deparei com dezenas de histórias inacreditáveis sobre o período da Ditadura (coisas que só agora a Comissão da Verdade está conseguindo elucidar). Resolvi fazer meu trabalho de conclusão em cima do atentado do Aeroporto dos Guararapes, que aconteceu em 1966, mas era (e segue sendo) um tabu entres as organizações de esquerda do período. Ninguém queria falar. Mais que isso – me censuravam por estar “mexendo com aquilo”. Então surgiu o caso do José Carlos Novaes da Mata Machado, o “Zé”, militante da Ação Popular (AP), filho de uma tradicional família mineira (o pai era um jurista renomado, ex-deputado federal). Ele foi militante da AP, viveu toda a efervescência das manifestações de sua geração, foi preso em Ibiúna, cumpriu pena no Presídio Tiradentes, até que chegou à clandestinidade. Acabou assassinado no Doi-Codi do Recife em 1973 e até 1993 nada tinha sido esclarecido. Fui atrás da história, entrevistei dezenas de pessoas, inclusive o cunhado dele, que aceitou se infiltrar na AP para entregá-lo. Em 1994 fui morar em São Paulo e a pesquisa se ampliou, até que consegui encontrar Rubens Lemos, o ex-preso que viu o Zé nos estertores. O livro foi publicado em 1998, por uma editora mineira, quando eu tinha 29 anos.

TC – Uma grande diferença entre e Clamor está na precisão dos detalhes. Enquanto no primeiro os fatos ocorrem com mais rapidez, apenas pelo relato dos acontecimentos, em Clamor há uma preocupação de pontuar as ações com fatos, datas e documentos. Essa diferença se deve ao rigor da apuração ou foi uma escolha de estilo?

SL – Foi muito mais o tempo mesmo. Eu era muito novo. Fui escrevendo da forma mais intuitiva possível. Nunca tinha feito oficina literária, não tinha amigos escritores. Imagine que no primeiro capítulo narro a morte do Zé, numa cela do Doi-Codi. Ou seja, o leitor já sabe, desde o começo, o desfecho da história. Mas é um livro que me surpreendeu muito, porque vários leitores disseram que ficavam torcendo para que ele conseguisse escapar no final. Na verdade, não tive escolha. Lutei com o que tinha. Eu só queria contar a história de forma que o leitor não largasse o livro. Ao final do trabalho (que foi exaustivo), todo o material que coletei (entrevistas, documentos), serviu para que a família entrasse na Comissão da Anistia e o Estado Brasileiro reconheceu ter assassinado o Zé. Foi um desdobramento importante do ponto de vista da memória. Além disso, tive bem cedo profundas lições de história do Brasil, com pessoas inesquecíveis. Como o livro está esgotado, estou trabalhando para uma nova edição em 2015.

samarone-clamorCLAMOR: A VITÓRIA DE UMA CONSPIRAÇÃO BRASILEIRA (2003)

TC – Clamor é reflexo da sua pesquisa de mestrado na USP. Que diferenças há entre a versão acadêmica e o livro que foi publicado? Que adaptações foram feitas para a publicação?

SL – Praticamente nenhuma, a não ser acréscimo de capítulos e alguns cortes, graças às maravilhosas sugestões da Isa Pessôa (editora da Objetiva que leu meus originais e coordenou a edição com rara precisão). Escrevi a dissertação sem me preocupar tanto com a banca, as amarras teóricas e acadêmicas, que às vezes são muito chatas. Queria que aquela pesquisa gigantesca, em arquivos no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile, que as dezenas de entrevistas espantosas, as vivências que tive nas ruas de Santiago, Buenos Aires, Montevidéu, chegasse aos leitores. Mas isso foi possível graças ao apoio irrestrito de uma grande mulher, que foi praticamente a minha orientadora, a professora Cremilda Medina. Ela dizia, em nossas conversas – “Samarone, você não pode ter um tema como os desaparecidos na América Latina, o sequestro de bebês, a violência política, solidariedade, e tratar isso com academicismo. Deixe sua marca, sua assinatura. Seu texto deve ser quente”. Aquilo era um bálsamo para quem estava numa Universidade como a USP. Esta noção do “texto quente” levo até hoje.

TC – Na cena inicial do livro, quando você relata a assassinato dos pais de Vicky e Anatole, você se vale de uma perspectiva que vai além das testemunhas, que se encontravam escondidas na banheira e naquela situação não seriam capazes de descrever tantos detalhes. Até que ponto é possível usar a invenção numa obra jornalística?

SL – Para escrever a primeira cena (novamente, o desfecho trágico no início), fiz dezenas de entrevistas, li documentos em arquivos, conversei com familiares, parentes, vi outros livros. O que aconteceu com a narrativa do Clamor foi que, novamente, o tempo agiu. Eu já tinha mais recursos literários para me ater aos detalhes, diálogos, situações. Lembro que num dos capítulos, descrevi o militante argentino Oscar Gatica, da organização Montoneros. O Oscar me deu uma entrevista de três dias, no Espírito Santo, onde vive. Escrevi o livro e nos encontramos uns três anos depois, no lançamento, em Vitória. O Oscar estava na mesa e leu na hora, para o público, sua descrição, que tinha uma parcela de invenção (ou reconstrução). Fiquei apreensivo. E se não fosse como ele se via? Ele terminou a leitura e disse – “Eu era exatamente assim”.

TC – Esses dois livros-reportagem faziam parte de uma trilogia sobre a ditadura, a ser completada por um volume sobre o caso da bomba no aeroporto dos Guararapes. Como seria esse livro? Esse último volume ainda vai sair? Por que ele não chegou a ser publicado?

SL – Só para o leitor entender. Em 25 de julho de 1966, o candidato à presidência (na verdade, a farsa da “eleição presidencial” em plena ditadura), o general Artur da Costa e Silva chegaria ao Recife para fazer campanha. Uma bomba explodiu no saguão Aeroporto dos Guararapes, minutos antes do horário previsto para seu desembarque. Foi uma tragédia, com mortos, feridos, porque o saguão estava lotado. Foi uma comoção. Naquele momento, não se falava em “luta armada”, “foco guerrilheiro”, essas coisas. Mas a Ditadura, já neste momento, começa a mudar o discurso e a endurecer. Os verdadeiros autores nunca foram encontrados.

Comecei a pesquisar sobre os fatos da “Bomba dos Guararapes” em 1993. Ou seja, há 21 anos. Ninguém queria falar, aos poucos fui encontrando pessoas que tinham informações, até que encontrei dois engenheiros (Edinaldo Miranda de Oliveira e Ricardo Zarattini Filho), presos em dezembro de 1968 e acusados de serem os autores. Eles militavam contra o regime, mas sequer imaginavam aquela tramoia. Pior – não acreditavam naquele tipo de ação. Eles foram torturados, houve um reconhecimento forjado e no dia seguinte, apresentados como os “terroristas do Guararapes”. Levaram isso a vida inteira nas costas. Edinaldo, com quem conversei muitas vezes, morreu em 1997.

Este livro é uma luta minha com o tempo, com a paciência e com meus limites. Só o publicarei quando achar que consegui fazer a narrativa que dê conta. Já escrevi três versões a não aprovei nenhuma.

Agora crio forças para escrever a última versão, que vai ser na única forma que agora consigo – um romance. Acabo de ler o maravilhoso O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura, me inspirou muito. Ele conta, de forma romanceada, toda a tramoia para o assassinato de Trotski. Mas pretendo contar essencialmente a história de Edinaldo e Zarattini. Não há mente ficcional, por mais genial, capaz de criar duas vidas como as que eles tiveram. De certa forma, vai ser o fechamento da minha “Trilogia das Ditaduras”.

samarone-estuarioESTUÁRIO: CRÔNICAS DO RECIFE (2006)

TC – Você começou com livros-reportagem, depois passou para crônicas, foi para um relato de viagem e agora se encontra na poesia. Observando a trajetória das suas obras, a mudança de gêneros textuais evidencia uma transição gradual do jornalismo para a literatura. Qual o papel da crônica nesse processo de aproximação sua com a literatura?

SL – A crônica foi como um convite para tomar uma gelada num boteco e acabei voltando ao boteco quase diariamente. Uma amiga me convidou para escrever num site, fui batucando meus textos, as desimportâncias da vida, os fatos bestas que me encantam, e descobri que tinha esta “vocação crônica”, até porque sou meio besta mesmo. Acho que fez me soltar mais a mão, explorar mais a criatividade, ver melhor a vida cotidiana. Quando a gente muda o olhar, basta sentar num banco de praça e contemplar, que aparecem coisas fabulosas. Outra coisa que eu não imaginava era como uma simples crônica é capaz de tocar tanta gente. Quando passei a escrever em larga escala, para o JC On Line (durante um ano), fiquei impressionado com a quantidade de gente que lia e deixava comentários maravilhosos. Alguns, inclusive, melhores que a própria crônica. Pena que os jornais diários deixem esta maravilha de lado.

TC – As crônicas reunidas em Estuário foram escritas em 2004 e 2005. De lá para cá, você continua a produzir crônicas. Além da mudança de cenário, que diferenças há entre aquele Samarone de 2004 e este Samarone de dez anos depois?

SL – Em dez anos, muita coisa muda. Estou agora com 44 e passei por várias experiências intensas, como a viagem para Cuba, o casamento, a oportunidade de trabalhar durante cinco anos com o magnífico Ariano Suassuna, e muitas, mas muitas viagens. Então isso altera muito o conteúdo interno. Estou cada vez mais lento, mais quieto, fazendo o meu trabalho. Cada vez mais, vejo que a pressa não é a minha caminhada, que as muitas conexões não fazem a minha cabeça mesmo. Quero é ter tempo para ler, dar minhas longas caminhadas, escrever, tentar, quem sabe, viver da literatura. Com a chegada do Facebook, vi também que fui perdendo leitores. A turma hoje só quer ver o que está postado no “Face”. Como não tenho paciência para o Facebook, fiquei para trás. Sigo postando crônicas semanais no meu estuário (www.estuario.com.br) e sempre tenho alguns leitores, mesmo nos meus momentos de maior preguiça, como agora.

TC – O que é mais importante para escrever uma crônica: o trabalho com texto ou o exercício da observação? O artesanato com a palavra ou a capacidade de detectar bons textos a partir de pequenos fatos?

SL – Acho que é uma soma disso tudo, mas a capacidade de observar o cotidiano é fundamental. Hoje em dia, todo mundo está olhando mais para a palma da mão, onde tem um celular-espelho. Para ser um bom cronista, é preciso sentar numa praça, escutar histórias, é preciso ir a lugares menos badalados, é preciso gostar de gente, de histórias. Muita gente só pensa em estar conectada. Como ver uma bela cena olhando para o whatsapp o tempo inteiro? Como escutar uma bela história no banco de trás do ônibus com um fone dentro do ouvido com a música predileta? O cronista é um sujeito que anda, olha, cheira, escuta e descobre a outra vida que há nas mínimas coisas.

TC – Quem lê Estuário fica com uma vontade danada de morar no Poço da Panela e tomar umas cervejas em Seu Vital. Qual a importância do lugar, do espaço para a sua obra?

SL – É fundamental. Ali é minha pátria no Recife. Morei cinco anos no Poço e falava muito de Seu Vital e aquela turma toda. Tinha gente que ia até a venda dele para ver se ele existia mesmo, ou se era invenção minha. Depois de lançado o livro, uma das filhas dele contou quantas vezes eu o citava. Deu 133 vezes. Ele disse que iria cobrar direitos autorais. Como estou morando na rua da Aurora, cito muito o bar Princesa Isabel e o entorno. Outro dia, cheguei lá e tinha uma crônica minha, numa moldura, logo abaixo de um poema do Alberto da Cunha Melo (que também bebia lá). Isso sim, é que é glória literária!

samarone-crepusculoVIAGEM AO CREPÚSCULO (2009)

TC – Embora tenha um pé no jornalismo, você optou escrever Viagem ao Crepúsculo a partir de sua experiência pessoal, sem o uso de dados ou depoimentos oficiais. Por quê?

SL – Foi um livro que surgiu por acaso, já que nem na mais remota vertigem de grandeza, imaginava escrever um livro sobre Cuba em apenas uma viagem. Quando comecei a conversar e fazer amizade com os cubanos, inicialmente em Havana, é que fui assaltado pelo espanto. Eles me contavam tudo, mas absolutamente tudo sobre o regime, sobre a vida cotidiana, a falta de alimentos, o já estabelecido mercado negro, a repressão. Resolvi algo espantoso – não fazer perguntas, fazer uma espécie de anti-jornalismo. Escutar e anotar tudo o que fosse possível, sem alarde, sem dar uma de “jornalista esperto”. E não perguntar nada sobre a Revolução Cubana. Os cubanos falavam coisas incríveis e depois faziam novas perguntas, já respondendo. Queria mostrar a vida cotidiana, longe dos dados oficiais (que, por sinal, são sempre perfeitos). Depois viajei para o interior do país, e os relatos eram os mesmos. Uma pobreza extrema, falta de itens os mais básicos, privações de liberdade, enfim. O que encontrei me doeu na alma – um povo esgotado material e espiritualmente, à espera de alguma mudança que não chega nunca.

TC – A resenha de Viagem ao crepúsculo é uma das mais comentadas do Vacatussa e muitos desses comentários são críticas de caráter ideológico que têm como alvo o seu posicionamento em relação ao regime cubano. Você sentiu algum tipo de patrulha em cima desse seu livro?

R – Abertamente, ou por escrito, não. Nos debates, sim. Há uma legião de seguidores do regime que são bastante zangados, que apontam o dedo, que são incapazes de refletir sobre um regime que está no poder há 55 anos, a ferro e fogo. O Geneton Moraes publicou um texto no blog dele sobre meu livro, em dez minutos já tinha uns 50 comentários descendo a lenha em mim. Que eu era um vendido, que estava a serviço do imperialismo etc. Mas nada como o tempo. Desde que publiquei o livro, em 2009, a realidade cubana tem sido cada vez mais exposta. Veja o caso da blogueira Yoany Sánchez, que veio ao Brasil e foi tratada quase como uma delinquente, por uma esquerda raivosa e opressiva. Não quiseram deixar que ela falasse! Aqui no Recife, até os cabelos dela puxaram, quando desembarcou no Guararapes. Há um mês, foi publicado um livro do ex-guarda-costas número 1 de Fidel Castro, intitulado A vida secreta de Fidel. Está lá, tudo escancarado. O luxo, a ostentação, o sistema de vigilância absoluta, com gravação da vida cotidiana de todas as pessoas com alguma importância política no país. Um dos serviços secretos mais perfeitos do mundo. Claro que vão dizer que o sujeito era um agente da CIA. O Viagem ao Crepúsculo foi meu testemunho do que vi e vivi. Eu sofri vendo aquilo tudo, porque tinha esperança de que houvesse uma certa dignidade do que sobrara da revolução. Em Cuba, o que se vive é uma ditadura brutal, um regime corrupto e escravocrata. Digo isso com a consciência do que vi e vivi. Mas para uma grande parcela da esquerda brasileira, isso beira ao politicamente incorreto. É uma pena.

samarone-tempodevidroTEMPO DE VIDRO e A PRAÇA AZUL (2012)

HUGO VIANA – Estes são seus primeiros livros de poesia, depois de lançar outros tantos de crônica. Por que agora? Você já escrevia desde os 12 anos, o que te levou a publicar apenas em 2012?

SL – Hugo, vou dizer a verdade. Não publiquei antes por falta absoluta de confiança na minha poesia. E, ao mesmo tempo, por amar demais a poesia. Eu tenho uma verdadeira tristeza quando alguém me entrega um livro de poemas ruins. E os poetas, não sei por qual motivo, têm uma rara obsessão pela publicação. Mas o ineditismo era algo que me maltratava um pouco. Sempre me chamavam para mesas literárias para falar sobre crônicas, livro-reportagem, outros trabalhos meus, e o Samarone poeta era um ignorado. Claro que era: quem poderia adivinhar que eu escrevia há tanto tempo?

Fui salvo por um leitor, hoje grande amigo, Arsênio Meira Jr, um santo homem amante visceral da poesia, que começou a ler todas as minhas postagens poéticas no meu blog (www.quemerospoemas.blogspot.com). Trocamos vários e-mails e depois nos encontramos. Ele foi incisivo – “Por que o ineditismo”? Fiquei sem resposta e perguntei se ele poderia fazer uma seleção. Ele fez. Leu tudo que publiquei de 2005 a 2012. Imagine o trabalho. Foi graças ao Arsênio que saí do anonimato poético. Viva Arsênio, que até hoje é meu grande leitor poético.

samarone-apracaazulHV – Na época do lançamento de A praça azul e Tempo de vidro, você se dizia tímido sobre sua produção poética. Ao mesmo tempo, em sua prosa existe um estilo autoral, geralmente em primeira pessoa, com informações íntimas. O que diferencia o ato de se revelar através da poesia e da prosa?

SL – Não sei exatamente qual é o ponto, mas posso ler a maior parte das minhas coisas em prosa com uma certa tranquilidade. Com a poesia, eu engasgo. A poesia é o que me emociona mais profundamente. Esse engasgo de emoção é uma coisa que me desconcerta, e que me faz crer na força da poesia.

HV – Você comentou, numa entrevista anterior, que seu processo de escrita é “quase uma vigília com a palavra”. Essa preocupação com a escolha dos termos e a construção de cada frase é perceptível. Fala um pouco sobre o processo de escrita de poesias, e em que sentido difere da crônica.

SL – A crônica é uma alegria. Eu sento, ligo o computador e escrevo. A poesia é um processo bem mais lento. Escrevo em um caderno, vou refazendo, cortando, mexendo, depois deixo quarando, depois volto. Dificilmente um poema sai de primeira. Quando sai, eu fico contente, mas ele fica de sobreaviso (ou de quarentena), para não ficar convencido. Às vezes, uma frase fica ruminando comigo, e sei que vai ser poesia. Tenho um carimbozinho que muda as datas, vou carimbando as datas das modificações. Quando finalmente digito e imprimo, o poema começa a ter vida. Mas antes, ele passa por vários nascimentos.

HV – Sua poesia é concisa: muita coisa permanece sem ser dita, o que está na página é como um breve rastro de emoções interiores. Como enxerga essa tensão entre o que é colocado em palavras e o que permanece nas entrelinhas?

SL – Eis um mistério que nunca saberei. Mas tenho algo de contido, na índole, no coração. Isso deve passar para a poesia. Acho muito bom que você leia assim. É um reconhecimento.

HV – Gostaria que falasse um pouco sobre a presença da memória como tema e fonte de inspiração para suas poesias (não apenas nesses dois primeiros, mas também em O aquário desenterrado); lembrar parece um ato talvez ritualístico, conjurando com poucas palavras imagens da infância, reminiscências familiares.

SL – É um processo que vem crescendo com naturalidade. Os temas da memória foram surgindo, e não me furtei Tempo de Vidro é um longo poema-ritual, onde faço um acerto com meus antepassados. Aquilo foi muito forte. Comecei a datilografar o poema, estava morando no Cabo, com uma tia-avó doente, e o poema jorrava. Só terminou após a sua morte. Ali, creio, destravei algo por dentro.

HV – São livros muito próximos em termos de estilo e temática; a publicação em dois livros, de títulos diferentes, foi por algum motivo específico? O que distingue as poesias desses livros? final do seu romance?

SL – A publicação de dois livros numa fornada só foi uma coincidência e uma solução editorial. Arsênio fez uma seleção muito rigorosa nos poemas avulsos (A Praça Azul), e Tempo de Vidro ficou pronto como um projeto independente, fechado. Mexi tanto nele, que não queria mais alterar nada. E não eram uma coisa só, eram duas coisa parecidas em estilo e temática. Junto com o Rodrigo Sushi, da Ed. Paés, resolvemos fazer em dois volumes, numa caixinha.

samarone-aquarioO AQUÁRIO DESENTERRADO (2013)

CRISTHIANO AGUIAR – O aquário desenterrado é um dos melhores poemas do seu livro e dá título a ele. Mas acho um título curioso por si só. Como chegou a ele e por que usá-lo para nomear sua obra?

SL – O título inicial seria O rosto do meu pai & outros poemas, mas os originais ficaram circulando comigo, com o Arsênio e a Karla Melo (editora da Confraria do Vento). Na reta final, achei que o nome não deveria ser aquele. Era pai demais. Aquilo ficou pulando em nossas conversas, até que um dia, na última Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, a Karla chegou ofegante, com os papéis saltando de suas mãos e disse: “Samarone, encontrei o título”. Perguntei qual era e ela disse: O aquário desenterrado. Bingo! Não havia mais nada a ser dito. Liguei para Arsênio, que concordou na hora. A Karla é mesmo uma editora talentosíssima e muito atenta a tudo.

CA – Qual a importância do tema “família” no seu livro?

SL – Cristhiano, o tema segue com a mesma importância, até porque minha família, depois dos livros, agora me conta mais coisas que eu não sabia. Falo do meu avô paterno, da minha tia Theresa, há um longo poema sobre o enterro da minha prima, em Fortaleza, do meu tio Ademar que morreu de malária na Amazônia, e uma novidade – pequenos poemas biográficos que escrevi para pessoas que fazem parte da minha vida. Elas só saberão quando começarem a ler.

CA – Todo o livro é permeado por imagens da decadência física trazida pelo tempo e pela doença: a perda de uma perna, os dentes que caem, o cadáver de um ente querido. Por que lidar com estes temas? Eles de alguma forma estão implicados em uma história pessoal?

SL – Acho que é mais pelo impacto de certas perdas mesmo. Lembro do dia em que minha mãe me ligou e falou que a perna do meu querido tio Ademar tinha sido amputada. Aquilo me doeu muito, e dor eu não resolvo com remédio, me remendo é na poesia. Talvez seja mais por aí.

CA – Quais autores e leituras você acha que se relacionam com os poemas do O aquário desenterrado?

SL – Meus poetas prediletos. Roberto Juarroz, Vicente Huidobro, Antônio Porchia, Adélia Prado, Drummond e outros autores que não são propriamente da vertente poética, mas filosófica, como Bert Hellinger, Chogyam Trungpa etc.

CA – Tive a impressão de que os poemas tiveram um tempo de maturação longo. Também me surpreende a unidade que você conseguiu dar ao livro. Você já os escrevia pensando em reuni-los num conjunto? Como foi o processo geral para chegar à forma final de Aquário desenterrado?

SL – Com O aquário houve um processo interessante. Diria que houve uma liberação poética, algo psicanalítico que não sei decifrar. Acabei de publicar A praça azul, no final de 2012, e comecei a trabalhar em novos poemas. Eles foram literalmente saltando de mim, como se estivessem guardados. Arsênio lia e me devolvia, com longos comentários. Achei, de fato, que tinha pego um veio, uma fonte secreta. Quando havia já um bom lote de novos poemas, a Karla Melo, da Confraria do Vento, entrou em contato, para saber se eu tinha coisas novas. Em nosso primeiro encontro, levei A praça azul e Tempo de Vidro e ela começou a ler em voz alta, enquanto tomávamos vinho. Tinha uma hora que ela chorava de um lado, eu do outro. Então entreguei os novos poemas e sacramentamos O aquário.

TC – Você foi assessor de imprensa de Ariano Suassuna desde 2009. Como foi esse convívio? De alguma forma esse convívio chegou a influenciar tua obra?

SL – Foi um presente que ganhei da vida. Trabalhei com ele de julho de 2009 a julho de 2014. Nossas conversas sempre passavam pela literatura, mas ele ensinava muitas coisas estupendas nas menores conversas. A influência foi dupla. Primeiro, no que se refere ao trabalho incansável e diário com os originais, o burilamento, a correção, o zelo. Dar o melhor, sempre. Segundo, a leitura. Aliás, leitura e releitura dos clássicos. Foi graças a ele que comecei a entrar na obra de Tolstói. A maior influência de Ariano foi, no entanto, para a minha vida. Depois de ter convivido com ele, acho que sou um homem um pouco melhor, menos mesquinho, mais aberto, um pouco mais generoso. Ele tinha uma correção ética que atravessava a todos que estavam ao lado.

TC – Você já anunciou que um dos seus projetos eram publicar um livro sobre suas andanças durante a turnê de aulas-espetáculos de Ariano. Como anda esse projeto?

SL – Foi um projeto que apresentei à CEPE (Companhia Editora de Pernambuco em 2008), antes mesmo de ser da equipe de Ariano, a editora topou na hora, mas depois fiquei um pouco constrangido, porque fui convidado para a assessoria de imprensa (coisa que jamais imaginava). Poxa, como vou escrever um livro sobre o projeto de um secretário de Governo, sendo assessor de imprensa dele e tendo a CEPE como editora? Não dava mesmo. Seria uma contradição. Mas fiz entrevistas com ele, com várias outras pessoas, e tive o raro privilégio de acompanhar umas 100 aulas-espetáculo. Material eu tenho de sobra. Para 2015, acho que dá para retomar. Mas é preciso primeiro deixar o tempo agir. Não dá para mexer em nada, por enquanto. Só com o tempo verei como trabalhar neste projeto. Mas, como estou cada vez mais lento na vida e na literatura, vai ser lá para o final do ano que vem. O tempo, como bem diz o Raduan Nassar, é nosso melhor tesouro…

*Respondido nos dias 13 e 14 de agosto de 2014.

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