Estela – Thiago Corrêa

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Diante do espelho, ela se viu outra. O que encontrou no reflexo da superfície fria e lisa já não correspondia à Estela que aparecia na carteira de identidade. Aquela Estela estava escondida no fundo da bolsa, sufocada num pedaço de papel plastificado. Os cabelos crespos e negros, que soltos nos anos 70 lhe renderam o apelido de leãozinho pelos versos de Caetano, tornaram-se avermelhados e sem curvas. No lugar do nariz arredondado, agora havia linhas retas que se encontravam numa angulação meticulosamente planejada para dar certo ar esnobe, igual a da atriz de Hollywood, que ela costumava observar, de baixo pra cima, desejando que a tela do cinema se transformasse em espelho.

Junto com as marcações da moda registradas pelas fotografias, também se desprendia dos traços históricos e genéticos de uma colonização realizada por senhores católicos à base de escravidão. Graças aos avanços da medicina, as ondas do cabelo e as curvas nasais foram descartadas, assim como fizera com a camisa amarrada na cintura, as calças boca-de-sino e saint-tropez. Respirou fundo na intenção de apreciar o cheiro do progresso e ouvir o médico dizer novamente: um dia a ciência fará com que o tempo se curve ao poder do bisturi e o nosso corpo poderá ser reformado, demolido e reconstruído como qualquer outro imóvel, do jeito que a gente quiser.

Depois de tantas mudanças, talvez nem mais a impressão digital do seu polegar direito permanecesse a mesma. O que restava era apenas o número do RG e o nome de casada com o sobrenome do ex-marido. Embora continuasse indicando o ano de 1957, a data de nascimento agora parecia inverossímil, um erro de digitação diante da pele lisa, espichada por fios de ouro. Sem as cicatrizes do tempo, sentiu como se tivesse nascido outra vez e a vida, dali pra frente, surgisse como um cruzamento, oferecendo novos caminhos. Um horizonte sem amarras do passado, pronto para ser desbravado por seios erguidos, barriga chapada e pernas enxutas por drenagens linfáticas e lipoaspirações.

O alívio de finalmente perceber o resultado de tanto sangue, ossos serrados, sucções de gordura, cortes e costuras faciais, aplicações de botox, dores e curativos do pós-operatório a fez sorrir. Ao invés da satisfação como efeito das descargas de endorfina no corpo, o que ela sentiu foram puxões por baixo da pele. De imediato, as fisgadas subcutâneas se engancharam em lembranças de quando o pai a obrigava vestir roupas encolhidas pelo seu crescimento, das unhas da mãe cravadas no seu braço para que ela se comportasse durante a missa de domingo, do peso do cassetete em suas pernas nos protestos contra a censura na época do diretório acadêmico e dos beliscões por baixo da mesa do marido para fazê-la se calar nos jantares de negócio.

No espelho, o rosto permaneceu no presente diante das recordações do passado. O corpo como uma barragem a interromper o fluxo de memória que ainda pulsava dentro dela. Tentou novos movimentos: expressões de felicidade, satisfação e alegria se equivaleram a espanto, melancolia, tristeza. Viu-se presa, incapaz de romper o silêncio do espelho. Na frustração e no arrependimento alimentado pela memória, encontrava a mesma imagem insípida que enxergava nos dias de alívio e esquecimento. Aos seus olhos, os momentos de júbilo ficaram iguais aos instantes de desespero, ou de terror, ou de prazer. Tudo correspondia à mesma imagem.

Na ausência de referencial de suas emoções, passou a interpretar gargalhadas na hora do choro, brigas em vez de abraços. Os convites para sair rarearam, a campainha se calou e o telefone emudeceu. Um dia acordou com a sensação de ter sonhado com os sonhos de outra pessoa. Algo que se repetiu dia após dia até reconhecer o mesmo rosto nos porta-retratos do apartamento. Não fosse a sua imagem presa num pôster na parede e nos filmes em DVD que assistia para exercitar a memória, acharia que estivesse na casa da mulher do sonho.

Mergulhou em si para entender o que se passava em silêncio. Quando voltou a falar, o que ouviu foi em inglês: who is that bitch? Resolveu vasculhar os armários até encontrar os álbuns de retrato. Pelas fotos, entre uma pose e outra, ela pôde recompor a vida da estranha que de alguma forma emergia em seus sonhos. O vestidinho de ir à missa, o carinho da mãe, as viagens, os sorrisos, o brilho do olhar, os amigos, as roupas, o casamento, os filhos, os cachos de cabelo e as curvas simpáticas do nariz. A partir de então, passou a folhear os álbuns da mulher durante os dias. Até que, do canto do olho, brotou uma certeza. O contraste da sinceridade cristalina da lágrima escorrendo sobre a máscara costurada em seu rosto a fez perceber o quanto gostaria de ter sido aquela mulher.

Thiago Corrêa nasceu em São Bernardo do Campo-SP, 1981, e mora no Recife. É jornalista e mestre em Teoria da Literatura. Tem contos publicados nos livros Recife Conta São João (2008), Possibilidades da fotografia contemporânea (2009), Tempo Bom (2010), Ficção em Pernambuco (2013), Inquebrável: Estelita para cima (2014). Edita a Revista Vacatussa.

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Sobre o autor

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