Estive lá fora – Ronaldo Correia de Brito

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PRÓLOGO

Autor: Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro, no Ceará, em 1951, e se mudou para o Recife em 1969. Médico e escritor, é autor de peças, de contos e romances. Estreou na prosa em 1989, com a obra de contos Três histórias da noite. Desde então, publicou As noites e os dias, Faca, O livro dos homens e Retratos imorais, todos de narrativas curtas, e o romance Galileia, de 2008, que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura de melhor livro.

Livro: Lançado em 2012 pela Alfaguara, Estive lá fora foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2013, que foi vencido pelo livro Barba ensopada de sangue, do gaúcho Daniel Galera.

Tema e Enredo: O livro se passa no Recife, no fim dos anos 1960, em plena ditadura. Conta a história de Cirilo, um jovem estudante de Medicina que vive entre os extremos dos debates da época e procura por ordem dos seus pais o seu irmão, o militante comunista Geraldo.

Forma: A obra narra, na maior parte do tempo, em terceira pessoa os passos de Cirilo. Também há cartas que ele envia para mãe, cartas que recebe de amigos, sonhos e um trecho de um diário em primeira pessoa.

CRÍTICA

Há uma definição famosa do romance feita por Osman Lins que descreve o gênero como o “mundo imerso no mundo”. O exercício de uma narrativa assim talvez seja, então, o de compor um universo pessoal dentro de uma construção (ou reconstrução) de uma realidade. Erguer um espaço em palavras e memórias para, dentro e além dele, criar um ponto de vista pessoal de alguém.

Em Estive lá fora, o escritor cearense radicado no Recife Ronaldo Correia de Brito voltou ao formato do romance, depois da grande repercussão da estreia no gênero com Galileia. A narrativa mais recente, de quase 300 páginas, recupera também um contexto que o autor conheceu bem: o deslocamento de chegar ao Recife em plena ditadura militar, sob a pressão de constituir uma vida e uma carreira aqui.

Cirilo, o protagonista da obra, veio a capital pernambucana estudar Medicina, com cursinho bancado pelos pais. Já está na universidade, mora com amigos intelectuais na residência estudantil, dá aula para ganhar algum dinheiro em um sindicato e vive um triângulo amoroso. Leva consigo, também, a missão de encontrar notícias do seu irmão mais velho, Geraldo, estudante de engenharia engajado na luta clandestina contra a ditadura.

Narrado em terceira pessoa, o livro começa com uma cena dramática: Cirilo está numa ponte recifense – como não lembrar do final de Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto? – decidindo se vai acabar com sua vida ou não. Se há uma linearidade no romance, ela segue pelo caminho de entender a angústia do personagem, de acompanhar essa pulsão hesitante pela morte.

O jovem enfrenta a perseguição de colegas do curso de Medicina e de um professor; vê um amigo ser acusado de um crime que não cometeu; briga com Paula, a namorada que divide com o melhor amigo, Leonardo, por ciúmes que não tinha direito de ter; convive com o fantasma do irmão, vivo mas ausente; tortura-se com o destino do pai, que reúne fragmentos do que lê e escuta sobre Geraldo em um livro confuso; tenta explicar e justificar sua vida para a mãe em cartas. Todos esses momentos são apresentados sob o prisma da imperfeição da memória, que Ronaldo carrega sempre de sentimentos revelados ou ocultos na narrativa.

Ao longo da trama, nota-se que Estive lá fora é o romance de um personagem que não aceita ser obrigado a optar. Cirilo está entre o passado na cidade-natal, no interior do Ceará, e o presente frio do Recife, entre o dever com a família – mandar dinheiro, fazer a faculdade, achar o irmão mais velho – e a busca por seu próprio caminho, entre a repressão total da ditadura e a recusa a seguir a cartilha da guerrilha da época. O termo chave para entender a angústia dele talvez seja a ideia de deslocamento, que é construída no romance desde a primeira cena até a última página: Cirilo está condenado a fugir de lugares que o oprimem, que o tratam como diferente, só para chegar a territórios em que continua sendo um estrangeiro, uma vítima da crueldade simplificação.

O jovem é alguém movido pelo “desespero do presente” de que fala Álvaro, um dos amigos próximos de Cirilo e figura borgiana que insere na trama citações literárias e filosóficas sem revelar a origem. Não por acaso, em um dos momentos do livro, Cirilo está equilibrando-se no parapeito de uma ponte no Recife: para não cair nos equívocos que enxerga nos dois lados, ele precisa manter-se sempre na iminência de cair, próximo à angústia de tentar acertar os passos por um caminho estreito.

A empatia do leitor com ele surge, portanto, ao ver um homem em um mundo que não reserva espaço para ele. Cirilo é, ainda, um “sonâmbulo”, alguém que sempre “esteve do lado de fora”, um homem “fora do tempo e do lugar”, que faz “de suas contradições um método de sobrevivência”. Ao mesmo tempo, o personagem também se tem em mais alta conta: no meio dos seus lamentos, gaba-se de ser incompreendido pelo seu “esforço em ser livre” em um mundo de extremos. Despreza os colegas de turma de Medicina, que o perseguem por ser hippie, e os militantes contra a ditadura, vendo-os todos como marxistas ortodoxos. A relação do personagem com as duas amantes que aparecem na trama é mesquinha, como se a insatisfação de Cirilo com o mundo desaguasse nelas. E ele e seus amigos se veem como os poucos seres lúcidos diante de uma dupla barbárie, ainda que suas próprias respostas sejam tão tateantes ou agressivas – postura normal entre os jovens – quanto as que eles mesmos evitam. Cirilo pratica uma recusa extrema dentro de um período de extremos.

E, se Cirilo é um mundo, está imerso em outro mundo, o Recife. “Seu labirinto é a casa onde habita, o Recife e o Brasil. Quem lhe entregará um novelo de fio que o ajude a guiar-se pelo caminho certo?”, afirma a narrativa. A capital pernambucana é um lugar a ser decifrado no livro, em uma construção tão complexa quanto a do personagem e talvez com uma maestria ainda maior.

A cidade é vista não só nos momentos em que é descrita materialmente, nos seus pontos nada turísticos visitados durante o romance. Recife é também esse clima de paranoia da repressão ditatorial e, dentro dos apartamentos silenciosos dos grupos de esquerda, é o discurso ensaiado de pessoas que repetem uma cartilha que não leram na íntegra. Cirilo convive com os pescadores bêbados da ponte da Torre e com o Porto do Recife cheio de prostitutas, clientes e marinheiros, mas na faculdade de Medicina ou na delegacia, lugares onde a ordem predomina, a sua miséria parece ainda maior. A cidade, aqui, não é só um lugar, é também um tempo: ela materializa o labirinto que o jovem encontra em todas as encruzilhadas da própria vida. Essa forma da cidade se fazer presente como um clima rende os melhores momentos do livro, e é ali que Cirilo, o Recife de então e a própria narrativa se confundem, como um corpo composto de memórias e sombras.

Ler Estive lá fora é acompanhar um mundo dentro de um mundo – e é difícil saber se o Recife que contém Cirilo ou se é o contrário. A prosa que recupera essa trama dramática é sempre carregada nas descrições, nas lembranças, como se todos os objetos e cenas estivessem contaminados pela visão do personagem. Essa antinaturalidade das cenas se vê especialmente nos diálogos, transcritos de modo formal, como se os personagens discursassem. A linguagem do romance, na verdade, parece sempre descolada da expectativa, por exemplo, com o excesso de citações literárias, uma referência à mania de Álvaro de sempre trazer referências eruditas para o texto. A narrativa parece querer forçar um estranhamento para o leitor, algo parecido com o que o jovem estudante vive. Em alguns momentos (especialmente durante a transcrição dos sonhos e das cartas do personagem), esses recursos podem parecer cansativos, mas talvez seja o preço de uma imersão total em Cirilo.

Lido em setembro de 2012
Relido em outubro de 2014
Escrito em 19.10.2014


Diogo Guedes é jornalista e mestre em Comunicação pela UFPE.

FICHA TÉCNICA

Estive lá fora
Ronaldo Correia de Brito
Editora: Alfaguara
1ª edição, 2012
295 páginas

TRECHO

“Na rua Paissandu, que desemboca na ponte, alguns palacetes mal-assombrados sobrevivem de pé. Cirilo gastava horas tentando adivinhar estilos na arquitetura eclética. As cidades se constroem com camadas superpostas de fantasias, cada geração se desfaz dos sonhos da anterior, tenta imprimir seu gosto ao presente, provar que está viva e possui vontade. Os resultados, muitas vezes catastróficos, davam ao Recife uma feição disforme, um rosto sem linhas serenas.” (p. 12)

EPÍLOGO

No próprio romance, Ronaldo Correia de Brito trata de fazer um capítulo final, explicando algumas das citações que usa na obra, ocultas ou explícitas. E, para compor o personagem de Geraldo, irmão de Cirilo, ele já revelou que se inspirou na história do estudante Cândido Pinto, também citado na narrativa.

OUTRAS OPINIÕES

João Cezar de Castro Rocha, Estado de São Paulo, em 14 de setembro de 2012

(http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,historia-e-o-trunfo-de-estive-la-fora-romance-de-ronaldo-correia-de-brito,930668)

 “Assim, a trama é envolvente e a estrutura narrativa muito bem pensada. Contudo, Estive lá fora é um romance que mereceria ser mais trabalhado pelo autor, pois não chega a plasmar uma linguagem à altura da ambição do projeto.”

Cícero Belmar, Interpoética

(http://www.interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=1613&catid=72)

 “É uma história muito legal. Aliás, a história é o ponto alto do romance. Um livro de temática forte, um relato sóbrio, com estilo limpo, trabalhado. Um livro com várias vozes narrativas, embora em certos momentos, aqui e ali, o leitor não faça muita diferenciação entre elas. Mas nada que chegue a comprometer a qualidade da obra. Outro senão do romance é o fato de ser flagrante um certo didatismo na apresentação de alguns detalhes que compõem a narrativa. Talvez seja a preocupação de se fazer entendido, sobretudo porque o autor faz algumas citações, faz referências, diz objetivos de organizações políticas, cita outras obras literárias. E para fazê-lo, ele precisa mostrar que esses artifícios estão bem utilizados. No seu método, o autor quer entregar tudo pronto ao leitor.”

Luiz Paulo Faccioli, Rascunho

(http://rascunho.gazetadopovo.com.br/recife-1964-degradante-e-degradado/)

 “Como se pode ver, Brito tem uma prosa direta e de forte acento. Ela é bem construída, flui com naturalidade e mantém o racionalismo da narrativa a despeito de abordar um momento histórico que ainda lateja como um nervo exposto e que facilmente pode descambar para o juízo de valor, algo sempre indesejado em literatura de ficção. Junta-se a isso as mazelas sociais, e a tentação ao panfletário, em algum grau, torna-se quase irresistível. Brito está constantemente desafiando os limites de até onde pode chegar sem ceder a ela, uma situação análoga à de Cirilo em relação a seus delírios suicidas. O discurso é sempre muito racional, dispensando meias palavras e eufemismos e apresentando uma crueza adequada ao contexto.”

Daniel Lopes, Amálgama, 4 de outubro de 2012

(http://www.amalgama.blog.br/10/2012/estive-la-fora-ronaldo-correia-de-brito/)

 “Esse é um ótimo livro. Fora de dúvida, Ronaldo Correia de Brito é um dos ficcionistas nacionais que se tem a obrigação de acompanhar atentamente a cada lançamento. As descrições de ambientes, as vívidas sensações, os diálogos, tudo continua excelente no autor de Galileia.”

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Site do autor: Ronaldo Correia de Brito

 

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