eu me encontrava e me perdia nas curvas mortais de brigitte montfort – Cida Pedrosa

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a heroína que eu amava tinha peitos de nuvens chuvosas e bunda de algodão doce de quermesse. eles apontavam caminhos ao norte e ao sul enquanto as ancas, desenhadas como alças para o amor, delimitavam ao leste e ao oeste o espaço geográfico para as mãos. montanhas onde eu brincava de esconder a minha dor. naves que me levavam do sertão a calcutá.

a heroína que eu amava tinha pernas longas, moldadas no torno como se feitas de barro. pés ligeiros e indecentes, sempre prontos para o amor ou para a morte. instrumentos de carícia e perdição. passagem paralela para o paraíso. voo perpendicular em direção ao desconhecido. colunas onde eu me encostava para esquecer o cansaço de uma cidade que dormia.

a heroína que eu amava desvendava mistérios e fazia a paz. dormia na cama escolhida, com o homem desejado ou com o homem marcado para morrer em seus lençóis. em um dia era loura e cavalgava nas colinas do zimbábue, no outro era morena e conduzia um jeep pelas areias de madagascar. a vi negra pilotando um jato sobre o céu de chipre e em setembro encontrei-a ruiva jogando pôquer em casa blanca. camaleão necessário e hábil, arco-íris de contas. caleidoscópio que refletia a solidão de uma menina ainda sem cor.

a heroína que eu amava usava o arco como quem brinca de bambolê na esquina e era treinada em armas de fogo curtas e longas. sabia até manusear uma bazuca, abrir e jogar uma granada, preparar os mais sofisticados explosivos e desmontá-los depois. com precisão milimétrica era capaz de acertar alvos parados e móveis – de perto e de longe – no claro ou no escuro. versada em artes marciais compreendia o poder da força, dos ossos, dos tendões, do espírito e da energia interior. era uma bailarina mortal ao incorporar as essências do tigre, do leopardo, da garça-azul, do dragão e da serpente. sabia de tantos golpes, tantos, quanto tantas são as estruturas nervosas do corpo. nirvana – noir – nonsense. contrários que se encontram. replicante a quem eu me entregava para a vida.

a heroína que eu amava matava e eu me divertia. me encontrava em cada último suspiro e me saciava a cada pescoço quebrado. tremia nervosa a cada sangue espirrado por bala, faca, flecha ou punhal. sorria a cada boca contorcida por cicuta e me fortalecia a cada corpo carbonizado e asfixiado. a heroína que eu amava matava e eu me sentia vingada.

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Sobre o autor

Nasceu em Bodocó-PE, em 1963. É advogada e trabalha com gestão pública e produção cultural. Tem 7 livros de poesias e participou de várias antologias no Brasil e no exterior. Militou no Movimento de Escritores Independentes nos anos 80.

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