Faca – Ronaldo Correia de Brito

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro, interior do Ceará em 1951. É médico formado pela UFPE e escritor. Em sua obra, destacam-se os livros de contos Livro dos Homens, Retratos imorais e o romance Galileia, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009.

Livro: Nas onze histórias de Faca, Ronaldo Correia de Brito reconstrói de forma vigorosa o imaginário do Sertão.

Tema e Enredo: A honra é temática constante do livro. Nos contos ela assume formas variadas, aparece como amor, lealdade, respeito, família e vingança. O autor nos apresenta uma região dura, seca e rudimentar que exige dos seus habitantes uma espécie de crosta de proteção.

Forma: Ao contrário de outros olhares que mitificam o Sertão através do humor e de uma beleza quase folclórica, Ronaldo Correia de Brito opta em trabalhar com o imaginário sertanejo de uma maneira mais real, borrando as fronteiras entre o mundo como conhecemos e o que imaginamos.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

O silêncio cortante do Sertão

A analogia ao boxe feita pelo argentino Julio Cortázar para explicar as diferenças entre o romance e o conto não se aplica a Faca, escrito pelo cearense radicado no Recife, Ronaldo Correia de Brito. Apesar de ser um livro de contos, ele nos vence por pontos, numa conquista que se dá aos poucos, com golpes pequenos e incessantes, fazendo os leitores caírem de joelhos, rendendo-se à força precisa de suas palavras.

Nas onze histórias de Faca, Brito reconstrói de forma vigorosa o imaginário do Sertão. Os contos se completam, exploram o mesmo universo temático, embora sigam por caminhos diferentes. O autor nos apresenta uma região dura, seca e rudimentar que exige dos seus habitantes uma espécie de crosta de proteção. Essa casca calejada, desenvolvida na luta pela sobrevivência, vem sugerida na vontade dos sertanejos em cultivar a solidão e em perpetuar as tradições morais, que não raro se transformam em violência.

A honra é temática constante do livro. Nos contos ela assume formas variadas, aparece como amor, lealdade, respeito, família e vingança. Temas que são trabalhados como blocos de madeira maciça esculpidos à mão, lentamente, até encontrarem o formato exato imaginado por seu criador. São histórias maduras, livres de farpas na linguagem, mas longe de serem confortáveis para quem as lê.

Os contos de Faca estão mais para esculturas de demônios humanos do que cadeiras de balanço do vovô. Suas histórias são como um quarto escuro e apertado, um criadouro de angústia, uma coleção de tragédias que nos joga para um abismo onde não há salvação. O que mais impressiona no livro é que a desgraça não é feita a base do choque, da brutalidade.

Algumas cenas até impressionam pela violência, há tiros, facadas, brigas; mas os ataques de Brito mais ferozes são sutis, feito uma doença. Ela sufoca os leitores com uma avalanche textual contínua, onde não se enxergam perspectivas de mudança para as personagens além da tragédia. Uma estratégia que o autor explica em A Escolha: “As histórias não têm apenas princípio e fim, elas são sobretudo o meio, que é o tempo de maior duração, o de se comer juntos uma arrouba de sal” (p. 91).

Ao contrário de outros olhares que mitificam o Sertão através do humor e de uma beleza quase folclórica, Brito opta em trabalhar com o imaginário sertanejo de uma maneira mais real, borrando as fronteiras entre o mundo como conhecemos e o que imaginamos. Algo que o autor consegue com naturalidade.

Nos contos A espera da volante e Lua Cambará, por exemplo, Brito evita impor elementos mágicos diretamente aos leitores. Faz isso com as possibilidades da perspectiva, joga para as personagens essa responsabilidade de temperar os contos. É pelas vozes e olhares deles que as tramas ganham contorno fantasioso, criado por suas crendices e superstições. O que o autor faz, na verdade, é nos reunir numa roda de conversa e contar histórias para expor as sombras da alma humana.

Apesar de explorar a oralidade dos antigos sertanejos e se voltar para um lugar esquecido do tempo, as histórias revelam-se contemporâneas, fugindo do rótulo “regional” pela maneira como Brito as constrói. Ele usa uma linguagem cinematográfica, com cortes não-lineares feitos através da memória das personagens ou mesmo por recursos mais explícitos, dividindo a narrativa em blocos.

Lido em Out. de 2008
Escrito em 03.12.2008

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o autor: Próxima. Como jornalista, tenho acompanhado a carreira de Ronaldo, o que sempre nos coloca em contato para matérias, entrevistas, mediações de mesas e projetos.

[/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Faca

Ronaldo Correia de Brito

Ilustrações: Tita do Rêgo Silva

Cosac Naify

1a. edição, 2003

184 páginas

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“A volante policial vinha vindo, deixando um rastro de gemidos e desfeitas. Os soldados buscavam apenas três homens, mas, no caminho, alimentavam sua fúria de perseguidores maltratando qualquer um que houvesse dado guarida, por inocência ou interesse, aos perseguidos. Os sertões se abalavam nas passadas descalças dos assassinos, medrosos de deixarem sinais, e nas botas reiúnas dos homens da justiça” (pp. 11-12, conto: A espera da volante).

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Lua Cambará

O conto Lua Cambará virou filme na década de 1970 pela mãos do próprio Ronaldo Correia de Brito em parceria com Assis Lima e Horácio Carelli Mendes e música de Antonio Madureira. A então namorada (e hoje esposa) do autor, Avelina Brandão, assumiu o papel da protagonista da história. Em 2002, o conto ganhou uma nova adaptação para o cinema, desta vez com direção de Rosemberg Cariry e a atriz Dira Paes no papel de Lua Cambará. A história ainda ganhou duas versões para o balé, sendo a última encenada em 2010, com direção de Cecilia Brennand.

Cícera Candóia

O conto Cícera Candóia também ganhou as telas do cinema como o curta Tempo de ira, dirigido por Marcélia Cartaxo e Gisella de Mello, além do roteiro do cineasta Marcelo Gomes. A história também chegou ao teatro, compondo um fragmento do espetáculo Malassombro da Cia. de Teatro Cordão Encarnado.

Ligação

A história do conto Faca é reutilizada em O que veio de longe, conto do Livro dos Homens e reaparece no romance Galileia.

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Almir de Freitas, Bravo!, em abril de 2003

(http://www.almirdefreitas.com/almir/Faca___Ronaldo_Correia_de_Brito.html)

 “De certo modo, o mundo arcaico de Faca funciona como uma espécie de pretexto para voltar a perscrutar aqueles segredos que são próprios do ser humano e independem de época ou de lugar. A terra ignota da literatura regionalista é, na verdade, o território dos terrores mais íntimos e antigos do homem – é quando, para se usar uma expressão consagrada, o regional se transforma em universal. Se um escritor como Ronaldo Correia de Brito consegue ao menos se aproximar dessa humanidade primitiva, escapando das armadilhas das fórmulas gastas, seu papel está cumprido. Mesmo que, no fundo, suas histórias sejam sempre tragicamente conhecidas.”

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Do mesmo autor

Faca – Ronaldo Correia de Brito

Livro dos Homens – Ronaldo Correia de Brito

Galileia – Ronaldo Correia de Brito

Retratos imorais – Ronaldo Correia de Brito

Crônicas para ler na escola – Ronaldo Correia de Brito

Estive lá fora – Ronaldo Correia de Brito

Entrevistas

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito ao Vacatussa (outubro de 2014)

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito sobre Retratos imorais (agosto de 2010)

Links relacionados

Site do autor: Ronaldo Correia de Brito

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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