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	<description>literatura doente e animal</description>
	<pubDate>Wed, 19 Oct 2011 00:05:40 +0000</pubDate>
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		<title>Olho Mágico &#124; A porta</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Oct 2011 10:30:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Joana Rozowykwiat</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>

		<category><![CDATA[Olho Mágico]]></category>

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		<description><![CDATA[<img src="http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2010/porta2.jpg">
Com o ouvido rente à porta, tentava captar alguma pista. Que novidade se abriria ali, quando alguém girasse a maçaneta? Pensou que toda porta tem em si um mistério. E muitas vezes um encontro.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A porta</strong><br />
Joana Rozowykwiat</p>
<p>Toc toc toc, ela se anunciou. Com o ouvido rente à porta, tentava captar alguma pista. Que novidade se abriria ali, quando alguém girasse a maçaneta? Pensou que toda porta tem em si um mistério. E muitas vezes um encontro.</p>
<p>Olhou pelo buraco da fechadura, para ver se reconhecia alguma sombra ou desilusão.Tinha o costume de proteger suas memórias e também de trancafiar os medos. E aporta, aberta, poderia dar-lhes passagem.</p>
<p>Mas também poderia revelar algum lugar de sonho, um caminho florido, em que ele viesse em sua direção. A porta estaria ali para protegê-lo, guardá-lo para ela – ou simplesmente separá-los…</p>
<p>E quando a dobradiça rangesse não teria mais jeito, o destino se apresentaria, no seu preto e branco de sempre, e ainda assim imprevisível nas suas gradações. Mas, até lá, podia imaginar o final que lhe coubesse melhor. Queria ser recepcionada com um doce sorriso, barulho de chuva e um cheirinho de hortelã. E foi então que ele a convidou para entrar.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
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		<title>Umbigocêntrico &#124; A duração do sorriso</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Oct 2011 10:29:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>

		<category><![CDATA[Umbigocêntrico]]></category>

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		<description><![CDATA[<img src="http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2010/sorriso2.jpg">
Hoje o porta-retrato está enferrujado, empoeirado, perdido no meio de pilhas de papel em cima da minha mesa. Mas a gente continua sorrindo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>A duração do sorriso</strong>*<br />
Thiago Corrêa</p>
<p>Na foto estou sorrindo, ela também. Era um sábado de carnaval, estávamos de saída, prestes a subir as ladeiras de Olinda. Ela toda de vermelho e amarelo, eu com chapéu de bobo da corte cheio de guizos nas pontas. É assim que apareço na foto que ganhei dela em um porta-retrato de metal. Hoje ele está enferrujado, empoeirado, perdido no meio de livros e pilhas de papel em cima da minha mesa. Mas a gente continua sorrindo.</p>
<p>Os olhares diretos para a câmera indicam que estávamos desafiando o tempo. Através daquela lente, acreditávamos que nossos sorrisos se reproduziriam nos rostos de um casal de velhinhos, sempre que eles resolvessem folhear a vida. Eles teriam uma legenda para cada imagem do álbum, que, naquela altura, seria escrita com fragmentos perdidos da memória e camadas de remendo criadas pela distância do tempo.</p>
<p>Dessa foto, talvez a gente apenas lembrasse que o sábado era dia de encher a cara na concentração do <em>Hoje a mangueira entra</em>, onde os amigos se encontravam debaixo de sol para brindar o início do carnaval. Pelas cores da roupa dela, também recordaríamos da agonia que era flutuar no meio da multidão na saída do <em>Eu acho é pouco</em>, de como era bom beijar escondido embaixo do dragão e do sufoco de subir o trecho da ladeira da Misericórdia – “ai, ai, ai; que ladeira do carai”.</p>
<p>Ou talvez a conversa seguisse para o dia em que nos conhecemos, quando ela apareceu fantasiada de boneca na prévia do <em>Enquanto isso na Sala de Justiça</em>. Eu repetiria pela milésima vez que foi ela quem me chamou pro cantinho sob o pretexto de comprar uma cerveja. E ela me daria uma mordida no braço, como fazia toda vez que eu contava minha versão. Eu faria drama dizendo que doeu, que ia ficar a marca, e ela diria que era o castigo por ser mentiroso.</p>
<p>Quando reencontrarmos essa foto, porém, o mais provável é que a gente perceba que os ponteiros afiaram aqueles sorrisos em espinhos e concretizaram nossos olhares em pontes inacabadas. Sinceros naquele instante, mas já tão deslocados quanto fantasias em outras épocas do ano. Porque tudo se revelou um amor de carnaval, que se estendeu na rotina e fez nossos sorrisos se diluírem em compromissos, desculpas, solidão e saudade.</p>
<p>* Crônica publicada no No. 64 do <em>Pernambuco - Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado</em>, em junho de 2011</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Crônicas para ler na escola - Ronaldo Correia de Brito</title>
		<link>http://www.vacatussa.com/2011/10/cronicas-para-ler-na-escola-ronaldo-correia-de-brito/</link>
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		<pubDate>Mon, 17 Oct 2011 09:59:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Críticas]]></category>

		<category><![CDATA[Destaque]]></category>

		<category><![CDATA[crônica]]></category>

		<category><![CDATA[literatura brasileira]]></category>

		<category><![CDATA[Ronaldo Correia de Brito]]></category>

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		<description><![CDATA[<img src="http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2010/paralerescola2.jpg">
As crônicas possibilitam uma visão precisa das ideias lançadas pelo autor, com opiniões diretas e interpretações da sociedade contemporânea.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Ronaldo Correia de Brito através do espelho</strong></p>
<p>Não faz muito tempo que os olhos da crítica literária eram condicionados a se voltarem à biografia do autor. Era através da vida dele, do seu engajamento político, das suas proezas intelectuais, das suas noias, obstáculos, loucuras, frustrações e amores que as obras eram analisadas. Embora essa prática tenha caído em desuso – com a ascensão das leituras formalistas (que privilegiam mais os recursos estéticos da obra) e dos estudos culturais (que procuram explicar o livro pelo contexto histórico-social em que fora produzido) –, fica difícil não recorrer ao apelo biográfico quando se trata de resenhar o volume <em>Ronaldo Correia de Brito: crônicas para ler na escola</em>.</p>
<p>O título reúne uma seleção feita pelo crítico literário Cristhiano Aguiar com 41 crônicas assinadas pelo autor de <em>Galiléia</em> para a coluna Entremez da revista Continente e o site Terra Magazine. Dada a amizade entre o crítico e o escritor, a escolha dos textos desenha um painel de interesses, ideias, sentimentos e memórias que reflete diretamente na figura de Ronaldo. Numa via de mão-dupla, ao mesmo tempo em que o vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009 lança luz a determinados temas, na intenção de traduzir o mundo em que vive; ele também se revela enquanto ator desse cenário: deixa rastros dos seus caminhos argumentativos, resgata lembranças importantes para sua formação intelectual, aponta referências literárias, expõe sua perspectiva e os valores que o guiam.</p>
<p>Afinal, como bem observa a professora Regina Zilberman na apresentação do livro, a primeira pessoa que assume o papel de narrador coincide com Ronaldo. O eu da narrativa é o próprio escritor, que se posiciona nas crônicas sem os subterfúgios da ficção, sem as maquiagens e disfarces dos personagens. O caráter pessoal dos textos é tão evidente que os mais próximos do escritor não terão dificuldades em ouvir a sua voz durante a leitura do livro. Por outro lado, a consciência de Ronaldo em se revelar, às vezes, parece pesar, traduzindo-se num certo didatismo, em explicações que deslocam o tom natural, transitório e subjetivo das crônicas para uma vocação de registro jornalístico, acadêmico.</p>
<p>Independentemente desses soluços, o que importa é que os fatos descritos nas crônicas de Ronaldo superam os limites da rotina individual para servir de mote na construção de um pensamento crítico, num processo que permite desvendar o contexto e a maneira como o escritor se insere nele. Nesse sentido, é interessante ver como o autor lida com sua condição de escritor premiado, refletindo sobre a transformação da literatura em eventos (na crônica <em>E mesmo assim continuamos escrevendo</em>), a rotina das suas turnês (<em>Uma viagem literária</em>) e a constatação de que a distância a percorrer para reverter o status sagrado da literatura em leitores reais ainda é imensa (<em>Constrangimentos </em>e <em>Os cinco rapazes do hotel Pirâmide</em>).</p>
<p>Mais do que isso, as crônicas também possibilitam uma visão precisa das ideias lançadas pelo autor, apontando opiniões diretas e tentativas de interpretação da sociedade contemporânea que em outros momentos foram ou ainda serão reformuladas dentro do seu universo ficcional. Quem lê as crônicas <em>Peixes, cebolas e políticos</em>; <em>Para onde estão me levando?</em>, <em>Viva o partido encarnado!</em> e <em>Cristo nasceu em Macujê</em> muito provavelmente vai perceber o mesmo sentimento de revolta que aparece com força dilacerante em alguns dos contos de <em>Retratos imorais</em>, onde o autor denuncia o fracasso do poder público, o caos social e o cinismo da classe política.</p>
<p>Mas talvez o melhor exemplo disso sejam os textos <em>Procura-se um personagem</em>, <em>O que faz Mickey no lugar de Jesus?</em> e <em>Natal, pão de ló e Coca-Cola</em> que evidenciam a luta do escritor, já sutilmente travada pela peça <em>O baile do menino Deus</em>, contra a invasão indiscriminada da cultura de massa, num processo de deterioração da tradição e dos valores religiosos da sociedade de consumo. Dentro dessa mesma perspectiva, também podemos entender a obra de Ronaldo a partir das suas ressalvas aos experimentalismos das práticas narrativas contemporâneas (contidas nas crônicas <em>Cortem a cabeça!</em> e <em>A escrita e os modismos</em>) ou do respeito do autor aos mestres da cultura popular, à tradição oral e ao imaginário sertanejo (revelados em <em>Entrevista com o lobisomem</em>, <em>Bach e José Ancieto</em> e <em>E mesmo assim continuamos escrevendo</em>). Posicionamentos esses que indicam caminhos para pensar na estrutura classuda dos livros <em><a href="http://www.vacatussa.com/2009/05/faca-ronaldo-correia-de-brito/">Faca</a> </em>e <em>Livro dos Homens</em>, na opção pelo encantamento em algumas das suas histórias e no seu processo de reescritura de mitos.</p>
<p>Embora os textos apontem para questões específicas da obra de Ronaldo, no conjunto elas evidenciam o descompasso do escritor com o seu mundo, a sua condição de estrangeiro, de outsider que não consegue se encaixar nos padrões da moda e, por isso, explora a literatura como uma maneira de compreender o outro e a si mesmo. Cada uma do seu jeito, as crônicas colaboram para a identificação dos pilares que sustentam o universo da sua obra numa linha fronteiriça entre o urbano e o rural, o erudito e o popular, o moderno e a tradição, o real e a imaginação que foi tão bem sintetizada no romance <a href="http://www.vacatussa.com/2009/03/galileia-ronaldo-correia-de-brito/"><em>Galiléia</em></a>, através do deslocamento de três sujeitos exilados diante das suas origens.</p>
<p>Thiago Corrêa<br />
lido em Ago. de 2011<br />
escrito em 19.08.2011</p>
<p><strong>: : TRECHO : :</strong><br />
“Olhado das ruas e becos, recantos de praças e avenidas, o carnaval revela o Recife e sua gente. Aprecio os enquadramentos fechados, os pequenos planos, as melodias perdidas, os cheiros que entram pelo nariz sem pedir licença, o suor do passista que nos salpica. Gosto do carnaval que nasce espontâneo, por pura vontade de brincar, e do folião que se fantasia, invertendo a ordem do mundo.O carnaval aglomera, vira onda e furacão, mas também é solitário, vontade de um único brincante.” (p. 57, crônica: <em>Sozinho eu vou</em>).</p>
<p><strong>: : FICHA TÉCNICA : :</strong><br />
Crônicas para ler na escola<br />
Ronaldo Correia de Brito<br />
Objetiva<br />
1a. edição, 2011<br />
170 páginas</p>
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		<item>
		<title>As Cobras: antologia definitiva - Luis Fernando Verissimo</title>
		<link>http://www.vacatussa.com/2011/10/as-cobras-antologia-definitiva-luis-fernando-verissimo/</link>
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		<pubDate>Sat, 15 Oct 2011 10:20:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Críticas]]></category>

		<category><![CDATA[Destaque]]></category>

		<category><![CDATA[HQ]]></category>

		<category><![CDATA[literatura brasileira]]></category>

		<category><![CDATA[Luis Fernando Verissimo]]></category>

		<category><![CDATA[quadrinhos]]></category>

		<category><![CDATA[tirinhas]]></category>

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		<description><![CDATA[<img src="http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2010/cobras2.jpg">
Apesar das marcas do tempo da ditadura militar, quando foram desenhadas, as ironias de Verissimo não ficam enganchadas no tempo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Pescoços pensantes e cheios de veneno</strong></p>
<p>O nome de Luis Fernando Verissimo se notabilizou na literatura brasileira pela capacidade de traduzir o espírito da sociedade brasileira em suas crônicas, pelas tramas inteligentes dos seus romances e por seus personagens marcantes, como a Velhinha da Taubaté, o detetive Ed Mort e o Analista de Bagé. Um desempenho que terminou ofuscando outro grande talento de Verissimo, o de quadrinista.</p>
<p>Parte desse trabalho agora é resgatado com a publicação do livro <em>As cobras: antologia definitiva</em>. O volume, que sai pela Objetiva, reúne em suas 198 páginas 470 tirinhas. Elas foram escolhidas dentro de um universo superior a 2 mil, desenhado entre a década de 1970 e 1997. Dividido em 10 partes, o livro agrupa as tirinhas de acordo com o tema.</p>
<p>Tem um capítulo dedicado às reflexões existencialistas da dupla de cobras diante das estrelas, outro destinado ao futebol, um sobre à relação com Deus e outro com o poder. Também há espaço para seções focadas na presença de personagens, como a dos filhotes e a dos outros bichos, e no cenário, como a temporada dos répteis na praia e no espaço, interagindo com alienígenas. Há ainda capítulos destinados às séries históricas e literárias. Na primeira, Verissimo recria a evolução do mundo em apenas 19 tiras e, na segunda, promove releituras de clássicos da literatura. A obra-prima do pernambucano Gilberto Freyre, <em>Casa Grande &amp; Senzala</em>, aparece numa divertida combinação com o filme <em>Casablanca</em>.</p>
<p>Como boa parte dos desenhos foram desenvolvidos durante a ditadura militar, é possível perceber as marcas de sua época, por conta da escolha dos temas e das referências. Mas nem por isso as ironias de Verissimo ficaram enganchadas no tempo. Quando aborda a política, por exemplo, o autor tem a preocupação não de investir em detalhes que se perderam na memória, ele busca a essência dos fatos e de lá nos presenteia com reflexões sobre a corrupção, questionamentos em torno das pesquisas de opinião e o poder do marketing. Problemas que permanecem tão atuais que nem o personagem Dudu, o alarmista seria capaz de prever.</p>
<p>Ainda que o traço das tiras seja simplório, com o próprio autor reconhecendo que escolheu as cobras como personagens por se tratarem apenas de pescoço, o raciocínio rápido do cronista prevalece. Verissimo desafia os limites do desenho a partir do poder das palavras. Muitas das tiras são criadas a partir de poucas variações dos desenhos, onde cenários e personagens quase não se alteram. Com base na mesma disposição de figuras, o autor consegue extrair diversas variantes, numa aula de como o humor pode surgir através do recurso da repetição.</p>
<p>Thiago Corrêa<br />
lido em Out. de 2010<br />
escrito em 27.12.2010</p>
<p><strong>: : FICHA TÉCNICA : :</strong><br />
As cobras: antologia definitiva<br />
Luis Fernando Verissimo<br />
Objetiva<br />
1a. edição, 2010<br />
198 páginas</p>
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		<title>Expo &#124; Amor e Solidariedade</title>
		<link>http://www.vacatussa.com/2011/05/expo-amor-e-solidariedade/</link>
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		<pubDate>Thu, 05 May 2011 13:24:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Blog]]></category>

		<category><![CDATA[Aberlado da Hora]]></category>

		<category><![CDATA[artes visuais]]></category>

		<category><![CDATA[escultura]]></category>

		<category><![CDATA[exposição]]></category>

		<category><![CDATA[Parque Dona Lindu]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma das lembranças que trago da infância são os passeios no shopping, regados a pastel de queijo da Pastello, acompanhado de um copo de Fanta e brincadeiras em cima de uma mulher nua, de formas arredondadas feita de pedra. Mais de duas décadas depois, eis que parentes dessa mulher aparecem aos montes aqui perto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma das lembranças que trago da infância são os passeios no shopping, regados a pastel de queijo da Pastello, acompanhado de um copo de Fanta e brincadeiras em cima de uma mulher nua, de formas arredondadas feita de pedra. Mais de duas décadas depois, eis que parentes dessa mulher aparecem aos montes aqui perto de casa, no Parque Dona Lindu. Trata-se da exposição <em>Amor e Solidariedade</em>, uma retrospectiva da trajetória de Abelardo da Hora que foi escolhida para inaugurar a Galeria Janete Costa.</p>
<p>Mas não foi por esse ímpeto nostálgico de relembrar minhas primeiras peripécias em cima de uma mulher pelada que resolvi romper meu silêncio escrito. Embora isso mereça ser ressaltado neste texto, também não foi pela satisfação de ver esse espaço de cultura funcionando aqui perto de casa nem pela constatação de que ele está atraindo pessoas que normalmente não sairiam de casa para ver uma exposição, mas que encontram um tempinho no meio dos exercícios físicos para dar uma espiada no que está acontecendo ali dentro.</p>
<p>Bom, chega de mistério. O que me levou a estar aqui em frente ao computador foi o impacto que senti ao me deparar com o conteúdo social da obra de Abelardo. Eu fui ali achando que só iria ver o mulherio arredondado e as referências à cultura popular, e de repente tropeço com a tristeza de uma mãe lamentando a fragilidade do seu filho doente.  A montagem da exposição permite esse impacto, criando uma fronteira que evidencia o abismo entre a preocupação puramente estética de Aberlado, na sua busca por novos caminhos da forma; e a social, onde o discurso se sobressai e atinge não através do olhar, mas da consciência.</p>
<p>A paulada é grande, você sai de um estado de letargia provocado pela beleza para cair num sentimento de culpa, revolta e angústia em questão de alguns passos. Num instante você está no paraíso habitado por mulheres nuas fazendo pose, grupos de frevo e maracatu; para ser expulso e se ver no convívio de retirantes da seca, meninos raquíticos com seus buchos cheios de vermes, palafitas, sobreviventes de guerra e olhares de desespero. Tudo ali, felicidade e miséria junto sob o mesmo teto. Como o mundo absurdo em que a gente vive.</p>
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		<title>Filme &#124; Medo e Delírio</title>
		<link>http://www.vacatussa.com/2011/04/filme-medo-e-delirio/</link>
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		<pubDate>Sun, 10 Apr 2011 00:13:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Blog]]></category>

		<category><![CDATA[adaptação]]></category>

		<category><![CDATA[cinema]]></category>

		<category><![CDATA[filme]]></category>

		<category><![CDATA[Hunter S. Thompson]]></category>

		<category><![CDATA[jornalismo gonzo]]></category>

		<category><![CDATA[Terry Gilliam]]></category>

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		<description><![CDATA[Certas coisas você precisa fazer na hora, no mesmo instante que lhe dá vontade. Não adianta adiar, porque aí você corre o risco de perder a sintonia que te fez querer aquilo de uma forma tão instensa. Quando isso não acontece, o tempo age na memória pra manter essa vontade. A distância que nos separa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Certas coisas você precisa fazer na hora, no mesmo instante que lhe dá vontade. Não adianta adiar, porque aí você corre o risco de perder a sintonia que te fez querer aquilo de uma forma tão instensa. Quando isso não acontece, o tempo age na memória pra manter essa vontade. A distância que nos separa de determinadas lembranças acaba funcionando como um filtro, como um ruído que faz com que a gente crie expectativas e impressões que nem sempre batem com a dimensão do fato.</p>
<p>Encontrei mais uma prova disso ontem, quando finalmente consegui assistir a <em>Medo e Delírio</em>. Desde a época em que eu cursava turismo, venho ouvindo falar desse filme. Ele entrou na minha lista de desejo, virou cult sem eu nunca tê-lo assistido. E a cena dos morcegos, que lembro de já tê-la visto em alguma festa, era mais do que suficiente pra me fazer querer assistir ao resto.</p>
<p>Nesse embalo, enquanto não encontrava o filme nas locadoras, fui me preparando. Descobri quem era Hunter S. Thompson, conheci o jornalismo gonzo e me diverti bastante com a leitura do livro <em>Medo e Delírio em Las Vegas</em>, o que só fez aumentar minha vontade em assistir a versão pro cinema feita pelo diretor Terry Gilliam.</p>
<p>Mas parece que os preparativos da espera nesse caso não fizeram bem ao filme. Reconheço que as cenas sobre as viagens de ácido, onde o personagem de Johnny Depp vê pessoas como lagartos, são impagáveis. No entanto, o filme apresenta o mal do excesso de narração, problema comum a várias obras que são adaptadas da literatura. O filme de Terry Gilliam fica preso ao livro, não permite que as imagens se livrem das palavras e isso me deu a impressão que havia uma barreira me impedindo de mergulhar na doideira dos personagens. Por já ter lido o livro, fiquei com a impressão que não se tratava de uma adaptação, mas de uma versão animada da obra de Hunter S. Thompson.</p>
<p>E pior, fiquei com a impressão de que me tornei um velho ranzinza e exigente, incapaz de voltar a sentir algo que me fascinou uns dez anos atrás.</p>
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		<title>Teatro &#124; Maria do Caritó</title>
		<link>http://www.vacatussa.com/2011/02/teatro-maria-do-carito/</link>
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		<pubDate>Fri, 11 Feb 2011 14:33:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Blog]]></category>

		<category><![CDATA[Dani Barros]]></category>

		<category><![CDATA[Fernando Neves]]></category>

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		<category><![CDATA[Lília Cabral]]></category>

		<category><![CDATA[Maria do Caritó]]></category>

		<category><![CDATA[Newton Moreno]]></category>

		<category><![CDATA[Silvia Poggetti]]></category>

		<category><![CDATA[teatro]]></category>

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		<description><![CDATA[De tanto ouvir falar no trabalho de Newton Moreno em Recife, coloquei a peça Maria do Caritó na lista do que precisava fazer no Rio de Janeiro. Nessa última quinta - ao invés de sentar num boteco em Botafogo, curtir um showzinho no Arpoador ou ficar de bobeira na rua vendo o povo passar - [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De tanto ouvir falar no trabalho de Newton Moreno em Recife, coloquei a peça <em>Maria do Caritó</em> na lista do que precisava fazer no Rio de Janeiro. Nessa última quinta - ao invés de sentar num boteco em Botafogo, curtir um showzinho no Arpoador ou ficar de bobeira na rua vendo o povo passar - me meti no trânsito rumo a Gávea pra dar boas gargalhadas com Lília Cabral e seus companheiros de palco: Leopoldo Pacheco, Dani Barros, Fernando Neves e Silvia Poggetti.</p>
<p>Se tivesse que classificar, eu diria que se trata de uma comédia. A história de Maria do Caritó (Lília), uma solteira que está desesperada para encontrar um marido antes de completar 50 anos, é recheada de situações feitas para a plateia explodir em risadas. Algo que na minha sessão aconteceu um bocado, gerando desde um risinho contido a gargalhadas de fazer chorar, com direito a rápidas interrupções no meio do espetáculo para aplausos. Foi assim na cena da galinha Damiana (maravilhosamente interpretada por Dani), no número musical preparado por Maria do Caritó e na sua reação depois do primeiro beijo em Amatoli (Leopoldo).</p>
<p>Embora esse seja o clima que prevalece nos cem minutos de espetáculo, o texto de Moreno apresenta nuances que ficam martelando em nossa cabeça. Nesse ritmo, assim como quem não quer nada, o autor aproveita que abaixamos a guarda para introduzir o tema do coronelismo no Nordeste, questiona a devoção religiosa e desmedida do povo, ironiza a criação de mitos e ainda repensa o papel do teatro, numa reflexão metalinguística sobre o circo.</p>
<p>Além de rir, a gente também se comove com a solidão de Maria do Caritó, se aborrece com a ignorância do povo e se revolta com a ambição do seu pai (Fernando) e do coronel (Leopoldo) em explorar a condição de santa da filha para objetivos comerciais e políticos. O espetáculo é construído entre risadas e reflexões, uma linha que se traduz no palco com uma mescla de figurinos caricatos e falas inteligentes, num jogo que transita entre o burlersco e o lúdico, a leveza da fantasia e o peso amargo da realidade.</p>
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		<title>Blog &#124; O mágico</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Feb 2011 18:05:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[animação]]></category>

		<category><![CDATA[cinema]]></category>

		<category><![CDATA[Jacques Tati]]></category>

		<category><![CDATA[O mágico]]></category>

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		<description><![CDATA[Bastam alguns dias no Rio de Janeiro para desconfiar que o adjetivo &#8220;lindo&#8221; deva ter sido criado na capital carioca. Você dá uma voltinha no quarteirão, vai ali na padaria comer um sanduíche ou na banquinha comprar o jornal e solta pelo menos  uns cinco &#8220;coisa linda&#8221;&#8230; ou variações como &#8220;nossa senhora&#8221;, &#8220;que gata&#8221;, &#8220;puta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Bastam alguns dias no Rio de Janeiro para desconfiar que o adjetivo &#8220;lindo&#8221; deva ter sido criado na capital carioca. Você dá uma voltinha no quarteirão, vai ali na padaria comer um sanduíche ou na banquinha comprar o jornal e solta pelo menos  uns cinco &#8220;coisa linda&#8221;&#8230; ou variações como &#8220;nossa senhora&#8221;, &#8220;que gata&#8221;, &#8220;puta que pariu&#8221; ou &#8220;com essa, eu caso&#8221;.</p>
<p>É tanta coisa bonita pra se ver que você fica atordoado. Seu &#8220;sentido de aranha&#8221; fica sobrecarregado, você não sabe pra onde olhar, então resolve se proteger, pegar o primeiro ônibus que aparece para sair dali. Mas você dá de cara com a baía de Guanabara, cheia de barquinhos com o Pão de Açúcar ao fundo. Antes que você solte o primeiro &#8220;coisa linda&#8221;, você olha pro outro lado e vê o Cristo lá em cima te mandando um abraço. Aí você se rende, e responde com um &#8220;nossa senhora, amém&#8221;.</p>
<p>Mas no meu quarto dia por aqui, o &#8220;lindo&#8221; com maior convicção que soltei foi no escuro, na sala 3 do Estação Botafogo assistindo ao novo filme de Sylvain Chomet, o diretor de <em>As bicicletas de Belleville</em>. Em seu retorno, o francês usa um roteiro escrito pelo cineasta e comediante Jacques Tati em 1956. A presença de Tati não se resume a presença do seu nome nos créditos, ele aparece personificado como o protagonista da história, que foi desenhado com os traços do Sr. Hulot, personagem clássico de filmes como <em>Meu tio</em> (1958) e <em>As férias do Sr. Hulot</em> (1953).</p>
<p>Os trejeitos alongados e atrapalhados de Hulot são copiados com perfeição no filme de Chomet, proporcionando uma bela homenagem ao cineasta falecido em 1982. Em particular através da cena em que o protagonista entra no cinema e se depara com sua versão carnal na tela, onde é exibido <em>Meu tio</em>. A partir de sutilezas como essa, Chomet procurar retomar a missão de Tati em colorir o mundo em que vivemos com poesia e imaginação.</p>
<p>Nesse sentido, tanto Chomet quanto Tati são representados pelo ilusionista da história, que enfrenta a decadência da sua arte num universo competitivo e ambicioso, cada vez menos aberto à mágica. Eles são aquela versão animada do Sr. Hulot que fazem de tudo para não decepcionar a menininha, e, por tabela, manter nossa capacidade de sonhar. Sem poderes reais, o protagonista alimenta a fantasia da garota com gestos simples, enquanto Chomet se utiliza da precisão e delicadeza de um equilibrista para manter a bolha de sabão intacta, flutuando com sopros de música, silêncio, melancolia e pequenas alegrias.</p>
<p>Talvez por isso que <em>O mágico</em> tenha o pé mais fincado no real do que <em>As bicicletas  de Belleville</em>, com seu universo onírico de senhoras gordas, maridos que  viram macacos e viagens transatlânticas movidas a um cachorro. Na mesmice da realidade, é possível exaltar melhor a mágica. Chomet então usa desenhos mais proporcionais e os personagens deixam de ser arquétipos, caricaturas para assumir uma condição humana longe dos palcos. Eles sofrem, se embebedam, tentam suicídio e reconhecem que mágica não existe no mundo real. Pelo menos até a hora em que não se apaixonam&#8230;</p>
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		<title>Blog &#124; Um lugar qualquer</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Feb 2011 12:23:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Blog]]></category>

		<category><![CDATA[cinema]]></category>

		<category><![CDATA[Sophia Coppola]]></category>

		<category><![CDATA[Um lugar qualquer]]></category>

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		<description><![CDATA[Uma das poucas vantagens de se chegar a certa idade é o fato de que, nesse caminho, você viveu e construiu um acervo de referências - sentimentais, literárias, musicais e visuais. Geralmente isso significa que você virou um chato, que já não se diverte mais com esses filmes de explosões, comédias românticas nem piadas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma das poucas vantagens de se chegar a certa idade é o fato de que, nesse caminho, você viveu e construiu um acervo de referências - sentimentais, literárias, musicais e visuais. Geralmente isso significa que você virou um chato, que já não se diverte mais com esses filmes de explosões, comédias românticas nem piadas de adolescente.</p>
<p>Mas quando acontece o contrário, você passa a valorizar ainda mais a obra, porque agora você já sabe o motivo de ter gostado tanto de tal filme. É o caso de <em>Um lugar qualquer</em>, o quarto filme de Sophia Coppola. Embora não tenha o mesmo apelo estonteante de <em>Maria Antonieta</em> (2006) e <em>Encontros e Desencontros</em> (2003), essa nova obra nos permite observar o processo de amadurecimento da cineasta, aprofundando-se no tema recorrente da solidão e do esvaziamento das relações humanas sob a lente de aumento da fama.</p>
<p>Dessa vez, porém, Sophia Coppola explora isso em termos de linguagem, incorporando o vazio da vida do personagem Johnny Marco (um astro de Hollywood) à estrutura do filme. Ao contrário dos seus outros filmes, os recursos visuais e sonoros deixam de ser usados para transmitir o sentimento do personagem, que - de tão entediado com sua vidinha de festas, entrevistas, viagens e passeios de Ferrari - é capaz de dormir durante um show particular de pole dance de duas gêmeas lindas no seu quarto.</p>
<p>O tédio de Johnny Marco se traduz numa postura minimalista da diretora: os planos são longos, praticamente fixos, quase não há movimentos de câmera ou cortes. A trilha, que sempre foi um dos pontos altos dos filmes da cineasta, dessa vez aparece tímida, apenas em momentos onde a música surge em cena. Aqui, o silêncio prevalece e o tempo se arrasta.</p>
<p>É como se Sophia Coppola desconfiasse que seu público já conhecesse a história que ela tem pra contar e agora seu desafio fosse mostrar que é capaz de se reiventar. Uma estratégia que até pode afugentar novos admiradores, mas que fideliza seu clubinho de fãs através da emissão de uma série de piscadelas sútis, cenas que remetem a passagens de outros filmes - como a bizarrice do showbizz, a incapacidade de comunicação e as diversões proporcionadas pela cultura pop.</p>
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		<title>Retratos Imorais - Ronaldo Correia de Brito</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Sep 2010 22:07:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Corrêa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Críticas]]></category>

		<category><![CDATA[2010]]></category>

		<category><![CDATA[conto]]></category>

		<category><![CDATA[literatura brasileira]]></category>

		<category><![CDATA[Ronaldo Correia de Brito]]></category>

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		<description><![CDATA[<img src="http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2010/imorais2.jpg">
No livro, o Recife tem lugar de destaque. A cidade é pintada com lembranças afetivas de quem a conheceu sentindo o cheiro de mijo de suas ruas.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>22 solos de Ronaldo Correia de Brito</strong></p>
<p>Com os livros <a href="http://www.vacatussa.com/2009/05/faca-ronaldo-correia-de-brito/"><em>Faca</em></a> (2003), <em>Livro dos Homens</em> (2005) e <a href="http://www.vacatussa.com/2009/03/galileia-ronaldo-correia-de-brito/"><em>Galiléia</em></a> (2008), o escritor Ronaldo Correia de Brito mostrou que suas histórias surgem da mesma maneira que acontece o processo de formação do solo. Elementos minerais, lixo, restos orgânicos, dejetos, poeira e múmias se acumulam ao acaso, constituindo camadas de tempo onde tudo parece se acomodar em harmonia, socadas pela pressão da vida até se confundirem com um único corpo. Em seu novo livro, <em>Retratos Imorais</em>, as 22 camadas em forma de conto trazem como matéria-prima o acúmulo de quatro décadas de sentimentos, recordações familiares, imagens colhidas pelas ruas do Recife, obras de arte e relatos ouvidos nos hospitais em que o escritor vem trabalhando como médico.</p>
<p>Com textos criados entre 1973 e 2010, o autor decanta essa poluição de referências explorando o conceito de imagem e da memória. Os contos funcionam como fotografias, compostas por detalhes sutis que se combinam no mesmo enquadramento, dando a impressão de formarem uma só paisagem onde tanto se registra o trivial, como são sugeridos caminhos para a imaginação. Como leitores, assumimos o papel de arqueólogos escavando a superfície de palavras para encontrar as nuances escondidas nas entrelinhas. A cada linha percorrida com os olhos, afundamos mais um grau no universo de personagens atormentados pela solidão, violência e sexulidade.</p>
<p>Nesse sítio arqueológico da memória ficcional de Ronaldo, o Recife tem lugar de destaque. O retrato que o autor faz da capital pernambucana é carregado de lembranças afetivas de quem conheceu a cidade sentindo o cheiro de mijo de suas ruas, brincando o carnaval, ouvindo os batuques de maracatu e sofrendo com a proliferação dos meninos de rua, da violência e com a mudança das calçadas de pedras portuguesas disformes por blocos de concretos retilíneos. Uma relação de amor e tristeza que aparece nos contos <em>Duas mulheres em preto e branco</em>, <em>Rainha sem coroa</em>, <em>Homem atravessando pontes</em>, <em>Homem folheia álbum de retratos imorais</em> e <em>Catana</em>.</p>
<p>Nesses dois últimos, o escritor constrói um painel verossímil do que é o Recife através da perspectiva singular de quem passa boa parte do dia dentro de hospitais públicos. <em>Homem folheia álbum de retratos imorais</em> se aproxima de outro conto de Ronaldo Correia de Brito – <em>Qohélet</em>, presente em <em>Livro dos Homens</em>. Narrado em primeira pessoa por um doente internado em estado grave, o texto nos dá acesso a um universo solitário de esperanças despedaçadas causada pela falta de perspectiva de quem vive em locais periféricos como o bairro de Brasília Teimosa. Uma denúncia carregada de urgência montada em cima de recordações de infância do narrador, do poder de redenção da religião e da insalubridade do ambiente hospitalar.</p>
<p>Já em <em>Catana</em>, Ronaldo revela a sua exuberância narrativa ao apresentar a capital pernambucana a partir de uma cirurgia durante o carnaval. Por meio de uma habilidosa alternância de narradores, são colocadas questões éticas que envolvem a profissão de médico, os dilemas da família contemporânea, as condições da saúde pública e a violência da cidade. Num texto desconcertante, que exerce força semelhante a do conto <a href="http://www.vacatussa.com/2008/10/feliz-ano-novo-rubem-fonseca/"><em>Feliz ano novo</em></a> de Rubem Fonseca, o autor nos oferece um poderoso exemplo de como a sua preocupação em descobrir outras formas de narrar pode potencializar o conteúdo.</p>
<p>O domínio narrativo do escritor cearense volta a aparecer em <em>Toyotas vermelhas e azuis</em>. Aqui, ele mostra que é um autor diferenciado ao não optar pelo óbvio, recusando-se a indicar o caminho logo na primeira frase e partir para o ataque na vertical. Consciente do seu poder de narrador, Ronaldo parece nos convidar para um passeio. Num exercício de paciência, ele serpenteia pelas beiradas do conto, como se estivesse nos testando, para só aí dar o bote ao apresentar o personagem Francisco.</p>
<p>Uma lógica que não demora muito para o escritor subverter. No conto <em>Homem-sapo</em>, o autor de <em>Galiléia</em> aparece com pressa, nocauteando-nos a cada trecho intercalado por orientações típicas de um set de filmagem, o que além de dar um dinamismo à história também dialoga com o universo do personagem. Um risco assumido na intenção de se renovar como autor, mas que nem sempre alcança os resultados esperados. Em alguns momentos percebemos que o terreno de <em>Retratos Imorais</em> ainda está totalmente acomodado. Desse solo também brotam galhos a serem podados, frutos verdes e disformes.</p>
<p>Em <em>Rainha sem coroa</em>, por exemplo, Ronaldo se vale da mesma estratégia de intercalar dois planos narrativos, como se um deles fosse a representação e o outro a realidade. Entretanto, diferentemente de <em>Homem-Sapo</em>, a junção desses dois discursos não apresenta a mesma costura, o que termina tirando o foco da bela história que se passa no ambiente do maracatu.</p>
<p>O mesmo se pode dizer do efeito de se tentar reproduzir um discurso histérico em <em>Duas mulheres em preto e branco</em>, onde autor dispara uma metralhadora de referências. A rapidez com que isso acontece implica no desprendimento das citações em relação ao contexto, soando como rangidos causados por parafusos frouxos. E, se em <em>Duas mulheres em preto e branco</em> a sensação é de falta de contextualização, em <em>Romeiros com sacos plásticos</em> o problema se torna o excesso. Embora seja um conto chave para entender o processo de transição do autor, estabelecendo diálogo direto com o romance <em>Galiléia</em>; a narrativa derrapa quando o escritor associa as viagens em pau-de-arara às torturas do período de ditadura, fugindo do universo da personagem.</p>
<p>No entanto, experimentações mais radicais, como a inserção de páginas em branco no conto <em>Mãe em fuligem de candeeiro</em>, são sempre bem-vindas no campo artístico. Ainda mais porque representam a inquietação de Ronaldo em se renovar enquanto linguagem num momento em que qualquer escritor corre o risco de se acomodar, logo após entrar em evidência pela conquista de um prêmio importante feito o São Paulo de Literatura, vencido em 2009 por ele com <em>Galiléia</em>.</p>
<p>Thiago Corrêa<br />
lido em Ago. de 2010<br />
escrito em 27.08.2010 e reescrita em 31.08.2010</p>
<p><strong>: : TRECHO : :</strong><br />
“O mundo cheira a talco ordinário, a bosta e mijo secando debaixo do sol quente de fevereiro, nos becos estreitos da cidade enlouquecida. Ecos desse carnaval chegam às emergências dos hospitais com os sobreviventes bêbados e feridos: de ambulância, nos camburões da polícia, a pé, se arrastando. São bacantes do deus trácio mestiçados no Recife. Na cola suarenta dos corpos resistem confetes; nas bocas, um bafo pestilento de álcool e cebola frita. Egressos de ruas e praças, encharcados de frevo e chuva fora de época, eles nem percebem os jardins circundando o hospital, as flores apagadas na noite escura. Entram no mundo de lâmpadas fluorescentes, percorrem corredores e salas onde médicos e enfermeiras se agitam possessos de Asclépio, um deus avesso à folia.” (p. 59, conto: <em>Catana</em>).</p>
<p><strong>: : FICHA TÉCNICA : :</strong><br />
Retratos imorais<br />
Ronaldo Correia de Brito<br />
Alfaguara<br />
1a. edição, 2010<br />
182 páginas</p>
<p><strong>: : ENTREVISTA : :</strong><br />
<a href="http://www.vacatussa.com/2010/09/entrevista-ronaldo-correia-de-brito-retratos-imorais-16082010/">Entrevista com Ronaldo Correia de Brito [16.08.2010]</a></p>
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