Ficcionais: entrevista com Schneider Carpeggiani

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Nesta segunda-feira (27/06) acontecerá o lançamento nacional, na charmosa livraria Blooks, em São Paulo, do segundo volume da antologia Ficcionais. Contando mais uma vez com a organização do jornalista Schneider Carpeggiani, Ficcionais mantém a proposta do primeiro volume, a de compilar depoimentos de escritores contemporâneos brasileiros a respeito do processo criativo das suas obras. Boa parte dos depoimentos dos dois volumes foi primeiro publicada no suplemento literário Pernambuco, editado também por Carpeggiani. Por e-mail, conversamos um pouco com o organizador a respeito de Ficcionais.

CRISTHIANO AGUIAR | Schneider, por que seria importante conhecermos um pouco mais do processo criativo dos nossos ficcionistas? De onde surgiu a ideia para a elaboração do Ficcionais?

SCHNEIDER CARPEGGIANI | Quando você compra o livro Ficcionais, você leva para casa justamente isso: escritores falando do processo de composição dos seus livros. Tem um papel “prático”, vamos dizer assim, para quem estuda literatura ou para quem faz oficina de escrita. O slogan da obra é bem verdadeiro e entrega o que promete. Mas essa é só a embalagem, a primeira casca. Quando eu convido um escritor para escrever sobre seu livro, na verdade estou colocando ele numa armadilha e pedindo uma espécie de outra obra. É um pedido-alçapão. Alguns dos textos desse livro são obras à parte por si só. Como o de Raimundo Carrero, que se olha sem todos os aparados do seu livro sobre a doença que o levou a escrever O senhor vai mudar de corpo. É quando o Carrero-escritor vira o Carrero-personagem autobiográfico. Ou o de Maria Valéria Rezende, um dos meus textos favoritos, que parte de um telefonema no meio da noite para contar sobre o seu livro 40 dias. Quando ela diz que há 10 anos recebeu o telefonema de uma conhecida no meio da noite, quando ela fala do susto que foi a ligação, já aciona a criação de uma ficção. Você não diz que recebeu um telefonema no meio da noite sem acionar uma curiosidade típica de um contador de história. Para mim, como organizador, o que me motiva é esse jogo de espelho da narrativa ficcional sobre uma narrativa ficcional. Então, ele pode ser lido também como um livro de contos. O livro não tem apenas textos que saíram no Pernambuco, como o primeiro volume. No processo de organização, notei que queria outros “contos” outras narrativas, queria escutar outras vozes. Um terço do livro é de material inédito, como os escritos de Sérgio Sant’Anna e de Ronaldo Correia de Brito.

CA | Os dois volumes do Ficcionais, ao seu modo, acabam funcionando como uma cartografia da nossa ficção contemporânea. A partir dos depoimentos compilados nos dois volumes, é possível estabelecer vertentes, modos de agir, linhas de força em nossa prosa hoje?

SCHNEIDER CARPEGGIANI | Os dois volumes de Ficcionais, juntos, formam uma espécie de panorama da literatura brasileira dessa segunda década do século até agora. Além dos textos inéditos, eu selecionei os textos presentes no Pernambuco a partir do grau de fricção, de relevância que eles trouxeram para a literatura brasileira. Teve textos que não entraram, por questões como por exemplo: textos sobre tradução, textos de autores estrangeiros, porque eu queria mostrar quem despontou na escrita nesses últimos cinco anos em termos de criação ficcional do Brasil. Acredito que esses textos apontam para uma profissionalização do escritor brasileiro: muitos passaram por oficinas, muitos preocupados com a técnica, com a necessidade de “ok, o que vale a pena ser narrado?”. Além de preocupações políticas muito fortes, como é o caso da escrita de Angélica Freitas. Mas sabe, o que eu fico pensando, e isso é uma boa dica para pesquisadores de literatura: uma obra que relate, como biografia mesmo, o que viveram os escritores nesses primeiros 15 anos do século em termos de Brasil. É uma excelente e estranha história a ser contada. Tivemos um boom do mercado, lá no começo da década passada com os prêmios literários e as festas literárias, criando a perspectiva para muitos autores de conseguirem se transformar num negócio, a chance de viver de literatura – é o caso de um Marcelino Freire -, houve os blogs, a possibilidade de publicação sem grandes editoras, até a retração, a crise, dos últimos dois anos. Essa crise vai mudar o mercado, está mudando. Veja a lista dos livros mais vendidos no Brasil, formada por celebridades de Youtube com pouco mais (ou até menos) de 20 anos. Para onde estamos indo? Essa é uma história que precisa ser contada.

THIAGO CORREA | Chama atenção que o título seja Ficcionais, embora se trate de uma coletânea de depoimentos. Por que foi escolhido este título?

SCHNEIDER CARPEGGIANI | O título Ficcionais tem algumas razões. A primeira e mais banal: minha obsessão por Borges. O título é um trocadilho com Ficções, um título que, de tão simples, sempre me impressionou. Adoro essa coisa de títulos simples para livros extremamente complexos. Tem coisas que você não precisa pensar muito, elas já o são. E quem melhor compreendeu a ficção no século 20 do que Borges? Eu penso também na expressão “Ficcionais” como uma espécie de sumo dos livros ali tratados. Quando os autores escrevem sobre seus livros, de certa forma eles criam outra ficção, se tornam ficcionais por si só.

TC e CA | Há centenas de escritores, em todas as regiões do país, escrevendo. Com toda certeza, não dá para escolher todos. Gostaríamos de saber quais os critérios guiaram a escolha dos escritores que colaboraram com as edições originais do Pernambuco. Da mesma maneira, na hora de escolher quais textos fariam parte do livro, que critérios foram mais importantes?

SCHNEIDER CARPEGGIANI | Toda curadoria é arbitrária e reconheço minha dificuldade em abarcar toda essa complexidade de regiões do Brasil nas edições do Pernambuco, mas sempre tento fazer um balanço entre grandes editoras e pequenas editoras, entre autores canônicos e iniciantes. Por exemplo, faltam textos no Ficcionais de autores da Região Norte. Eu e Carol Almeida, que edita comigo o Pernambuco, estamos bastante preocupados em trazer narrativas de mais autores negros, de mais escritoras, por exemplo, para o jornal e para o material exclusivo do site (www.suplementope.com.br). Mas tem também a questão de afinidade; há autores que eu naturalmente como editor gosto mais e que aposto. São os casos de Elvira Vigna, Luís Henrique Pellanda, que vez por outra aparecem no Pernambuco. Autores que eu me surpreendo por estarem fazendo algo novo ou recriando tradições. Eu queria muito, por exemplo, ter um texto no Ficcionais 2 sobre o próximo livro de Elvira, Como se estivéssemos em Palimpsesto de putas, mas até o momento de organizar o livro do Pernambuco, não havia uma data fechada de quando ele ia sair. Mas ainda bem que o vácuo de Elvira foi sanado pela capa do Pernambuco que fizemos sobre ela em dezembro passado. Elvira é a escritora mais interessante hoje no Brasil. Mas infelizmente é tratada como uma coisa à parte na Companhia das Letras. Eles não sabem o que estão perdendo. Ou talvez saibam e por isso ela não é colocada com tanto destaque.

CA | Por fim, queria propor um exercício de ficção: se você pudesse escolher um autor clássico – e já falecido – para participar do Ficcionais, quem seria e qual livro você gostaria que ele pudesse comentar?

SCHNEIDER CARPEGGIANI | O DH Lawrence de Mulheres apaixonadas. Um dos mais corajosos livros sobre a fricção emocional entre as pessoas. Por sinal, é um autor que precisa ser mais lido. Por um mundo com mais Lawrence e Henry James (eu adoraria também um sobre A outra volta do parafuso, o texto mais assustador que li na vida, com aquele tesão sexual pulsando em meio a fantasmas, o nosso direito primordial)!

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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