Foe – J. M. Coetzee

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PRÓLOGO

Autor: J. M. Coetzee nasceu em 1940, na Cidade do Cabo, África do Sul. Tem mais de 23 livros de ficção publicados, entre romances, volumes de contos e autoficções; além de obras de ensaios e cartas. É o primeiro autor a vencer dois Booker Prize (em 1983 e 1999). Em 2003 venceu o Prêmio Nobel de Literatura. 

Livro: Quarto romance de J. M. Coetzee, Foe foi publicado em 1986. A edição da Companhia das Letras conta com tradução de José Rubens Siqueira e capa de Kiko Farkas e André Kavakama.

Tema e enredo: J. M. Coetzee recria a história de Robinson Crusoé a partir de Susan Barton, que foi abandonada na ilha onde viviam Cruso e o negro Sexta-feira. Ao ser resgatada, Barton entra em contato com o escritor Foe para que ele escreva a história de Cruso, levantando questões como o limite ético do escritor em relação a verdade e a distinção entre ficção e realidade.

Forma: Foe é um metarromance, uma espécie de ensaio ficcional sobre a literatura. O romance é dividido em quatro partes. Assim como ocorre em Robinson Crusoé de Daniel Defoe, a primeira parte é narrada em primeira pessoa, como um discurso oral, e depois adota-se uma estrutura de diário, com marcações das referidas datas. As duas últimas partes assumem uma postura narrativa menos coloquial, o que pode ser justificado pelo aprendizado da personagem, consequência da sua insistência em contar a história de Cruso.

CRÍTICA

Um ensaio ficcional sobre a literatura

No artigo História e literatura, o teórico Luiz Costa Lima observa que a distinção entre o discurso ficcional e os discursos da verdade (científicos e históricos) nem sempre foi tão enfática como hoje (apesar de algumas obras ainda serem capazes de nos pregar peças e certas situações da vida também nos empurre para experiências irreais). No texto, Costa Lima aponta que a necessidade para realizar essa diferenciação ganhou força com a popularização dos romances de aventura de viagem, provocando dúvidas em relação às suas veracidades e incutindo questionamentos sobre os discursos científicos.

É para essa discussão e contexto histórico que o escritor J. M. Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura em 2003, nos conduz em seu quarto romance Foe. Publicado pela primeira vez em 1986, o livro recria a história de Robinson Crusoé de Daniel Defoe. A narrativa é contada a partir da perspectiva de Susan Barton, uma mulher que foi abandonada numa ilha do Caribe após um motim na embarcação que a levaria de volta à Inglaterra. Nessa ilha, ela é acolhida por outros dois náufragos, um senhor que se identifica como Cruso e o negro Sexta-feira.

Mas ao contrário do que sugere a trama de náufragos perdidos numa ilha e a vinculação com a obra Robinson Crusoé, a história que J. M. Coetzee nos conta passa longe do que se entende por uma história de aventura. Embora não faltem elementos de mistérios e lacunas com potencial para a criação de situações tensas (por exemplo, o motim no navio, o rapto da filha de Susan Barton e sua viagem ao Brasil para procurá-la), Foe é uma espécie de negativa à aventura, com raras cenas de ação, quase nenhum conflito, desprezo aos movimentos de clímax e anticlímax.

A história de Coetzee ocorre basicamente no plano reflexivo, onde o interesse é muito mais literário e teórico do que o andamento da narrativa. O objetivo é menos tirar o fôlego do leitor, com cenas ritmadas pela ação, do que fazê-lo pensar na própria narrativa. Se na forma ele nos submete ao marasmo de uma vida motivada pela espera numa ilha deserta, no plano discursivo ele nos oferece uma rica discussão sobre a literatura.

Trata-se de um metarromance, ou uma espécie de ensaio ficcional. A exemplo de outras obras que se seguiriam na carreira de Coetzee, ele se vale da liberdade da ficção para criar situações que põem em xeque parte de nossas ideias sobre a literatura, desmontando questões teóricas e da vida acadêmica. É o caso, por exemplo, da personagem Elizabeth Costello em A vida dos animais para fazer uma analogia entre os campos de concentração nazistas com o modo de produção da indústria alimentícia, e da trilogia de autoficção do autor, iniciada com Infância, continuada com Juventude e concluída com Verão, esta construída através de depoimentos póstumos sobre o escritor J. M. Coetzee, num claro ataque à ideia de rigidez à veracidade que ronda a autoficção.

Em Foe, o autor se vale da esperança de Susan Barton em registrar a história de Cruso em livro, a partir do contato com o escritor Foe. Como Cruso morre no navio após serem resgatados da ilha e Sexta-feira não consegue falar por conta de sua língua cortada, Susan Barton assume o fardo de cuidar de Sexta-feira na Inglaterra enquanto tenta devolvê-lo à África, através do dinheiro obtido com a venda do livro sobre Cruso.

Nesse esforço, a personagem termina por encarar os dilemas vividos na época de ascensão das aventuras de viagem, ao se deparar com o limite ético de se manter fiel aos fatos ocorridos na ilha em oposição ao poder de sedução da criação, inserindo conflitos com canibais, inventando explicações para o naufrágio de Cruso e criando esclarecimentos para preencher a lacuna da mutilação da língua de Sexta-feira, por exemplo. “Contar minha história e silenciar sobre a língua de Sexta-feira não é melhor que pôr a venda um livro com páginas em branco sem explicação.” (p. 62).

No processo de compartilhar a história com o Sr. Foe, ao mesmo tempo em que Susan Barton assume o compromisso de contar a verdade, ela reconhece que falta vida ao seu relato. Primeiro, num diálogo com o capitão do navio ainda em sua trajetória de volta à Inglaterra, ela observa a perda de vivacidade que haveria entre o seu relato oral e a história escrita: “‘Assim como a conto ao senhor, minha história serve bem para passar o tempo’, repliquei, ‘ mas o pouco que sei sobre escrever livros me diz que seu encanto logo desaparecerá assim que eu a puser, desativada, em letra de fôrma. A vivacidade que se perde na escrita é compensada pela arte, e eu não tenho arte.’” (pp. 38-39). Depois, em cartas ao Sr. Foe, ela se questiona se sua experiência na ilha renderia uma boa trama: “serão circunstâncias suficientemente estranhas para produzir uma história?” (p. 62). A resposta, apresentada por Coetzee, é em certa medida o próprio romance Foe, em sua opção mais ensaística do que baseada em ações.

Ainda que se mantenha fiel ao compromisso com a verdade, o conflito vivido por Susan Barton se fortalece com a tentação de agradar o público: “Há mais em jogo na história que o senhor escreve, admito, pois ela deve não apenas contar a verdade sobre nós, mas agradar a seus leitores também.” (p. 59); e da necessidade de se encaixar em modelos narrativos pré-existentes: “chegará o dia em que poderemos produzir uma história sem circunstâncias estranhas?” (p. 62). Uma percepção que logo se volta para os relatos históricos e narrativas de viagem da época: “Sem desejo como é possível fazer uma história? Era uma ilha de preguiça, apesar dos terraços. Eu me pergunto o que fizeram os historiadores passados da condição de náufrago – se em desespero eles não começaram a inventar mentiras.” (p. 80).

A questão posta por Coetzee se aprofunda ainda mais quando a engrenagem passa pelo lugar de fala do narrador, com as discussões de Susan Barton com o sr. Foe, diante de sua insistência em desvirtuar a história contada por ela. Assim, de maneira sutil, Coetzee nos coloca o problema da falta de representatividade das minorias, da qual a própria Susan (simbolizando as mulheres) é submetida e que culmina no silêncio forçado e consentido do negro Sexta-feira, cuja mutilação se torna um símbolo da crueldade do período colonial e permanece uma ferida aberta com a persistência do preconceito racial. Em seus silêncios, como não cometer equívocos ao tentar criar suas vozes?

Lido em maio de 2016
Escrito em 10.06.2016


Relação com o escritor: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

Foe
J. M. Coetzee
Tradução de José Rubens Siqueira
Companhia das Letras
1ª edição, 2016
142 páginas

TRECHO

“Escrever se revela um trabalho lento. Depois da agitação do motim e daa morte docapitão português, depois que conheci Cruso e vim a saber um pouco da vida que ele leva, o que resta a dizer? Havia muito pouco desejo em Cruso e em Sexta-feira; muito pouco desejo de escapar, muito pouco desdejo por uma nova vida. Sem desejo como é possível fazer uma história? Era uma ilha de preguiça, apesar dos terraços. Eu me pergunto o que fizeram os historiadores passados da condição de náufrago – se em desespero eles não começaram a inventar mentiras.” (p. 80).

EPÍLOGO

Discurso: No discurso para receber o Prêmio Nobel de Literatura, J. M. Coetzee teve como tema o livro Robinson Crusoé de Daniel Dafoe.

OUTRAS OPINIÕES

Academia Sueca, em 2 de outubro de 2003

(http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/2003/press.html)

“O divertido metarromance Foe estende um fio sobre a incompatibilidade e a inseparabilidade entre literatura e vida, contado por uma mulher que deseja fazer parte de uma grande narrativa, quando, na realidade, é apenas uma parte de menor importância lhe é oferecida.”

Manuel da Costa Pinto, na Folha de S. Paulo, em 12 de junho de 2016

(http://www1.folha.uol.com.br/colunas/manueldacosta/2016/06/1780423-viola-redentora.shtml)

“Coetzee cria uma história oculta do clássico inglês, devassando os limites entre testemunho e representação.”

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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