Francisquinha – V. Dellome

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Não gostei de Rosalvo, o futuro marido de minha querida irmã Francisquinha, desde que o vi pela primeira vez.

Conforme fora planejado pelas respectivas famílias, casar-se-iam em Catende, nossa cidade, no interior de Pernambuco.

Tive certeza de que não gostava realmente de Rosalvo durante o tempo do noivado, limitado a poucos e vigiados encontros, quando ele, saindo de Recife, dignava-se a ir mais vezes até nossa cidade, por ele detestada, apesar de ser filho da terra.

Nessa época ele já me olhava de maneira estranha, apesar de eu ser somente uma menina mirrada e arredia. E curiosa, pois seguia-o com os olhos, da janela, quando às nove da noite ele deixava nossa casa, ansioso para chegar à Rua do Pecado. Certamente os charmes de minha tímida irmã, no desabrochar de seus dezessete anos, não o deixavam indiferente.

Mas antes ele passava pela casa paterna para tranquilizar Alzira, sua irmã solteirona e ranzinza, mais preocupada com a sífilis do que com o respeito devido à futura esposa.

A festa do casamento ficou na história da cidadezinha. A Matriz de Nossa Senhora Sant’Anna, cheia de flores, estava linda naquele sábado. O povo atropelava-se para ver entrar a noiva.

Passei a detestar Rosalvo no dia do casamento. Ele não conseguiu disfarçar a contrariedade no momento em que minha irmã entrou na Igreja.

Próximo ao altar, ao lado de Alzira, ele enviava olhares furtidos à entrada do templo, certamente na secreta esperança de que Francisquinha desistira do enlace, num lampejo de bom senso.

Ainda tive mais raiva de Rosalvo quando Francisquinha, muda, não conseguia reprimir as lágrimas nas semanas subsequentes às núpcias.

Um bruto o marido. E ainda fora repreendida severamente por Alzira, contou-me anos mais tarde. Num desabafo, confessara à cunhada sentir-se frustrada pela ausência de qualquer prazer, mesmo após meses de vida conjugal.

E minha raiva de Rosalvo aumentou paulatinamente com o passar dos anos.

Francisquinha perdera o viço e engordara alguns quilos após as inúmeras maternidades. E continuava a suportar estoicamente o ciúme doentio da cunhada, além das grosserias do marido.

Humilhava-a sim, o salafrário Rosalvo, obrigado a vir morar em nossa cidade. Havia dilapidado a herança e sua única solução foi aceitar trabalho na usina de beneficiamento de Catende, em parte propriedade da nossa família. Voltava ele assim aos canaviais da Zona da Mata Sul de Pernambuco.

Mas haviam compensações, segundo ele, pois ali contava com as regalias trazidas pelo dote da mulher e usufruía dos prazeres oferecidos pelo melhor bordel da Rua dos Pecados, para onde levava os filhos.

Comecei a cogitar como matar Rosalvo, quando encontrei Francisquinha, desesperada com o filho caçula, doente, resultado de sua primeira visita, forçada, à casa de mulheres.

Decidi assassinar Rosalvo no dia em que tirou-me à força do assentamento ao qual eu prestava assistência. Não podia admitir, vociferava ele como uma besta raivosa, ideias esquerdistas entre os seus! Acalmou-se, como por encanto, e exigiu-me carícias obscenas.

Escolhi o dia da festa de aniversário de casamento de Francisquinha para acabar com Rosalvo.

Um silêncio seguiu-se aos discursos no qual homens fátuos enalteceram as suas “indiscutíveis” qualidades. No final das falas, o povo esperou suas palavras de agradecimento, mas ele continuava silencioso, com as pupilas contraídas, paralisado.

Um aneurisma de aorta, declarou o doutor. Complicações cardiovasculares em consequência da sífilis, confidenciou em voz baixa mais tarde à familia.

Continuava a odiar Rosalvo, olhando-o impiedosamente dentro do caixão, próximo ao altar da Matriz de Nossa Senhora Sant’Anna, muito bonita naquela ocasião, cheia de flores brancas.

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Sobre o autor

Nasceu em Manaus-AM (1948) e mora em Paris desde 1976. É professora de português em Paris e Toulouse, e mestra em Métodos de Pesquisa em Literatura, Linguística e Civilização de países lusófonos pela Sorbonne Nouvelle.

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