Galiléia – Ronaldo Correia de Brito

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro, interior do Ceará em 1951. É médico formado pela UFPE e escritor. Em sua obra, destacam-se os livros de contos Faca, Livro dos Homens, Retratos imorais.

Livro: Galileia marca a estreia de Ronaldo Correia de Brito na narrativa longa. Com o romance, o autor conquistou o Prêmio São Paulo de Literatura em 2009, foi finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio Zaffari & Bourbon e foi vice-campeão na Copa de Literatura Brasileira, em 2009.

Tema e Enredo: Galileia é um ensaio ficcional sobre essa região que se instalou com tons míticos em nosso imaginário.

Forma: O autor desfruta a vastidão espacial do gênero romance como se estivesse vagando no vazio do Sertão. Uma transição textual que se revela num trabalho meticuloso, de construção em cima de longos diálogos, no emaranhado de tramas e em experimentações na linguagem.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Galileia: o making of

Parte da história de como um livro se compõe será sempre privada: nunca nos é dado saber de modo definitivo que desordem dos desejos, que desarmonia do mundo, leva alguém a dedicar tantas horas, tantas insônias, a coisas que não existem. Se mesmo um autor pode se ver desamparado de razões ao tentar explicar, por exemplo, a origem de uma imagem, o porquê do nome de certa personagem, ou a cadência especialmente aliciante de uma frase, que saberão os leitores? A história de cada livro parece ter início num claro-escuro tenso, em que o arbítrio vigilante de um artista luta para iluminar o que acasos e inconsciências teimosamente ensombram. Nem tudo, no entanto, em relação a tais assuntos, precisa ser assim tão incerto e sutil: uma vez terminada sua pré-história íntima, os livros então começam seus primeiros ensaios de história pública, abrindo-se a uma primeira meia dúzia de olhares. Esse, de narração mais fácil, foi o passo em que tive contato com Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito.

Ao contrário, como é óbvio, do próprio autor, que vinha convivendo com o texto já havia oito anos, o romancenão poderia me evocar nada: sequer uma capa ou lombada de livro desconhecido, ou a referência vaga a algum prêmio, como hoje pode fazer aos que ainda não o leram. Também não conhecia os livros anteriores do autor, a não ser seus títulos, pronunciados aqui e ali por amigos que, pouco antes, também puderam ler o Galiléia ainda inédito. O que havia àquela altura era uma resma impressa, encadernada por uma espiral de plástico, e que podia ser um relatório ou uma monografia, mas era um romance.

Eram as palavras, pois, tudo a que nos deveríamos ater no momento, e foram elas o assunto de uma série de conversas que começou em novembro de 2006, com a distribuição, por Ronaldo, de alguns originais encadernados. Além de Everardo Norões, poeta, amigo e conterrâneo seu, organizador da recente edição da poesia completa de Joaquim Cardozo, e do romancista Rodrigo Lacerda, também receberam cópias de Galiléia a essa altura Cristhiano Aguiar, crítico e escritor; Eduardo Cesar Maia, jornalista e editor da revista Continente; e Fábio Andrade, professor, crítico e poeta, e que, com os dois últimos e comigo, compõe o corpo editorial da revista Crispim. Entre janeiro e fevereiro de 2007, os três se encontraram com Ronaldo para lhe devolver os originais anotados e conversar longamente sobre o que leram. Provavelmente por andar às voltas com algum trabalho da universidade, não pude assumir nenhuma das cópias, nem pude assumir, nesse primeiro encontro, um lugar à mesa, quando os quatro tentaram se haver com o Galiléia e com sushis ao mesmo tempo.

Pouco depois, tendo também Rodrigo Lacerda devolvido o original com anotações, Ronaldo passou o mês de abril em viagem. Na volta, trabalhou ainda por três meses no romance, até que, em agosto de 2007, me contatou e me entregou uma cópia, sob a orientação, sempre difícil de dar, de ler e opinar sobre tudo. Tratado, então, como editor, foi como editor que me detive sobre o texto. Ao fim do mesmo agosto, fui convidado a ir à sua casa.

A data eu não lembro, mas lembro que cheguei por volta das cinco da tarde, levando à mão a resma impressa. Ronaldo não estava: algum imprevisto lhe tinha prolongado o dia a dia de médico. Aguardei num terraço. Conversei um pouco com Tomás, um de seus filhos, até que, alguns minutos depois, chegando o autor, fomos sentar em torno a uma pequena mesa, mais ao canto do mesmo terraço. Dessa mesa, do tampo rendado de ferro, guardo uma lembrança detalhada; não por esforço consciente, mas como resultado automático da soma de horas que em seguida passaria nela: foi ali que discutimos, uma a uma, página após página, cada uma de minhas anotações. Nesse dia, terminei jantando à mesa com toda a família, e me despedi depois das dez.

Os limites da conversa seriam difíceis de se determinar. O caso é que, quando lemos um romance, não satisfazemos apenas o nosso gosto pela frase, pelo seu impecável arredondamento prosódico, ou pela força isolada de uma metáfora. Muita coisa pode caber num romance. A força dramática e a naturalidade de um diálogo, a variabilidade dos ritmos narrativos, a precisão na descrição psicológica, a plasticidade na descrição sensorial, o uso sutil dos sentidos que um gesto pode esconder, a captação das verdades que atravessam a cultura no momento atual, entre outros, são exemplos de qualidades que apelam tanto para a nossa sensibilidade mais propriamente textual, verbal, literária, quanto para a nossa capacidade de observar concretamente o mundo e o outro, e de auscultar sensivelmente a cultura à nossa volta. É assim que, numa precária sequência de palavras, com alguma arte, podem vir a se cruzar os mais variados níveis da experiência.

Com Galiléia, em que achados lingüísticos se alternam com achados humanos, não terá sido diferente: nossas anotações diziam respeito tanto ao plano da expressão e da narrativa quanto ao das questões culturais mais amplas, tendo se ocupado ora do emprego de um artigo em certa frase, ora do que possam significar hoje, por exemplo, as noções de “cultura”, “moral” ou “sertão”, ou da relação que possa haver entre os atos de João Domísio, Ismael ou Adonias com a hýbris da tragédia grega.

A minha cópia, ao fim da conversa, ficou com o autor. Teria ele, assim, o tempo que quisesse, e o que o seu cansaço permitisse, para considerar detidamente cada observação e decidir, finalmente, por acatá-la ou não. Ronaldo me agradeceu o trabalho, e eu lhe agradeci a humildade de ter dado ouvidos, com interesse, a alguém que nunca escreveu um romance. Reiterei minha confiança no livro e nos despedimos.

Em maio de 2008, Ronaldo enviou o Galiléia à Alfaguara. Para sua grande satisfação, em menos de vinte e quatro horas a editora o contratou. Mais tarde, no mês de novembro, aconteceria o lançamento do livro, do qual participei, ao lado de Cristhiano Aguiar, Lourival Holanda e do próprio autor. Em dezembro, foi publicada na revista Continente uma resenha minha sobre o livro (hoje disponível em www.revistacrispim.com).

Ao reler Galiléia, lembro de ter me deparado, diversas vezes, com a impressão já esperada de que certa frase ou passagem tivesse sido objeto de alguma de minhas sugestões: ora a cri acatada, ora a cri rejeitada, ora me senti completamente incapaz de dizer ao certo. Pouco importa: importa é que as escolhas de Ronaldo já tenham rendido ao Galiléia um primeiro grande prêmio. Acompanhamos, enquanto isso, com satisfação e expectativa, o curso imprevisível que vai traçando o romance, agora já livro.

Em texto publicado originalmente no Suplemento Pernambuco em Outubro de 2009, o professor e crítico literário Artur Almeida de Ataíde compartilha conosco sua experiência de leitura dos manuscritos de Galileia.

[author] [author_info]Artur Almeida de Ataíde é doutor em Teoria da Literatura pela UFPE.

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As vísceras do Sertão mítico

Um livro sobre o Sertão. Galiléia, romance de Ronaldo Correia de Brito, é um ensaio ficcional sobre essa região que se instalou com tons míticos em nosso imaginário. Nele, o autor usa como pretexto a viagem de três homens (Adonias, Ismael e Davi) ao Sertão dos Inhamuns, no Ceará, para desconstruir essa imagem de um lugar isolado do mundo, preso a um tempo onde os homens adquiriam a aparência rústica da luta pela sobrevivência diária, sob a sombra da vocação para a tragédia.

Autor da peça Baile do Menino Deus e dos livros de contos Faca e Livro dos Homens, Brito estréia no romance, desfrutando a vastidão espacial do gênero como se estivesse vagando no vazio do Sertão. Uma transição textual que se revela num trabalho meticuloso, de construção em cima de longos diálogos, no emaranhado de tramas e em experimentações na linguagem, como o recurso visual de simular a desatenção de Adonias com espaços em branco isolando palavras e em cortes não-lineares.

Dessa forma, Brito explora a travessia à Galiléia – fazenda onde os três primos cresceram e o avô Raimundo Caetano agoniza seus últimos suspiros – como a linha condutora da narrativa. A dubiedade do caráter das personagens e dos sentimentos de reencontro/despedida serve de metáfora à crise de identidade dos sertanejos. À medida que a caminhonete de Ismael avança pela estrada, o escritor promove o encontro de um Sertão conectado à internet, de mulheres emancipas pelo trabalho na confecção de redes e de motocicletas substituindo cavalos; com os cadáveres da memória, desenterrando a origem da região, baseada em teorias migratórias e de miscigenação presentes em nossa formação cultural.

Uma ligação que se dá em sutilezas. Nas primeiras páginas, citações à banda inglesa Radiohead e ao cantor Damien Rice. Referências a laptops, ao Google, bandas de forró estilizado, que logo são substituídas pelo peso da mitologia grega (Minotauro, Elektra, Édipo), das teorias de Freud e do existencialismo, corrente filosófica que tem importância particular no livro. Se o filósofo romeno Emil Cioran é citado, O Estrangeiro, de Albert Camus, aparece disfarçado no sentimento de inadequação dos viajantes e numa cena de violência de Galiléia, que remete ao assassinato da obra camusiana.

Aos poucos, lembranças que levaram os primos a abandonarem a Galiléia são desencavadas na poeira do abandono em que se encontra a região, sugerido na imagem que ilustra a capa do livro. O romance é um diálogo com os mortos, um reencontro com os fantasmas, personificados em Raimundo Caetano, último guardião das angústias sertanejas adormecidas na memória da família Rego Castro.

Lido em Nov. de 2008

Escrito em 18.11.2008

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o autor: Próxima. Como jornalista, tenho acompanhado a carreira de Ronaldo, o que sempre nos coloca em contato para matérias, entrevistas, mediações de mesas e projetos.

[/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Galiléia

Ronaldo Correia de Brito

Alfaguara

1a. edição, 2008

236 páginas

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“Foi como se o condenassem à insônia perpétua, ao inferno de ver as noites passarem, olhando os caibros e ripas do telhado. As pernas paralíticas não embalavam o corpo, o corpo não adormecia a mente, a mente trabalhava sem trégua, tecia rolos de fio de pensamentos, como os teares em que se fabricavam as redes. Enredado nas lembranças, sem ter mais ninguém a quem abrir o coração, porque era o último da sua espécie, Raimundo Caetano sentiu-se condenado à morte sem direito à apelação.” (pp. 58-59).

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Juliana Lesquives, Verbo 21, em novembro de 2012

(http://www.verbo21.com.br/v5/index.php?option=com_content&view=article&id=1729:travessias-dessacralizadas-o-sertao-em-galileia-por-juliana-lesquives&catid=131:resenha-e-ensaios-novembro-2012&Itemid=176)

“O romance de Ronaldo Correia de Brito suscita reflexões sobre a possibilidade de reescrita desse Nordeste, apresentando uma região inscrita na tensão entre passado e presente, entre pertencimento e não pertencimento. A narrativa corrobora a premissa de que os enunciados que tentam preconizar o Nordeste como fixo não são estáticos, como muitas vezes podem parecer ou são agenciados para parecer. Tendo em vista que as ideias não possuem lugares fixos, absolutos, e que passam por “deslizamentos” na produção de sentidos, diretamente ligados às mudanças que ocorrem no contexto em que são produzidas, podem ser identificadas constantes reelaborações e ressignificações. Essas mudanças permitiriam pensar o Nordeste e a cultura nordestina em sua relação com as transformações das últimas décadas referentes à intensificação da globalização e suas consequências e principalmente referentes aos questionamentos sobre a imutabilidade dos espaços e das identidades culturais.”

Vivien Lando, Folha de S.Paulo, em 29 de novembro de 2008

(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2911200811.htm)

“Da confluência autorizada entre o rio Jaguaribe e o Jordão, onde o trem azul do Cariri nem faz mais curva, onde o Muro das Lamentações esbarra no Santo Sepulcro situado a poucos metros da estátua do Padim Cícero, no Juazeiro do Norte, e onde a seca da caatinga chama chuva forte para enxaguar mágoas, Ronaldo Correia de Brito extraiu um livro denso, preciso e, às vezes, esquemático.

Sobretudo pela busca insana de encaixar destinos irreconciliáveis e mundos tão diversos. Felizmente, passa longe do new regionalismo que tentam lhe atribuir: se finca no presente e permanece atento a uma realidade na qual, até segunda ordem, a globalização é soberana.”

[/learn_more] [learn_more caption=”LEIA TAMBÉM” state=”close”]

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Faca – Ronaldo Correia de Brito

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Galileia – Ronaldo Correia de Brito

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Crônicas para ler na escola – Ronaldo Correia de Brito

Estive lá fora – Ronaldo Correia de Brito

Entrevistas

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito ao Vacatussa (outubro de 2014)

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito sobre Retratos imorais (agosto de 2010)

Links relacionados

Site do autor: Ronaldo Correia de Brito

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

6 Comentários

  1. Li Galiléia. Extreou bem no romance o Ronaldo. Mas ainda o prefiro como contista. Faca é seu grande livro. Primeira vez no site. Estou gostando. Abraço de Garanhuns

  2. Conheço os contos de Ronaldo, mas ainda não li este romance; este artigo me desperta o desejo de ler Galileia (nova grafia, sem acento), inclusive pela necessidade de conhecer melhor o imaginário da história de uma região de onde migrei sem nela ter nascido: meus pais e os seis irmãos mais velhos nasceram nos Inhamuns.

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