Geografia íntima do deserto – Micheliny Verunschk

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PRÓLOGO

Autora: Micheliny Verunschk nasceu em Recife-PE, 1972. É autora dos livros de poesia Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme, 2010), b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). É doutoranda em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela PUC-SP.

Livro: Lançado um ano após a participação da poeta na famosa antologia Na virada do século, organizada pelos poetas Claudio Daniel e Frederico Barbosa, Geografia íntima do deserto chegou a ser finalista do Prêmio Portugal Telecom em 2004. A edição conta com orelha de Mário Hélio e prefácio assinado por João Alexandre Barbosa.

Tema e Enredo: Geografia íntima do deserto é um livro marcado pela concisão, hermetismo e uma atenção a temas como a morte, o desejo e as artes visuais, entre outras temáticas.

Forma: Os poemas estão agrupados em três partes e de maneira geral são compostos por poucos versos curtos, não excedendo mais do que uma página.

CRÍTICA

Reler Geografia íntima do deserto, mais de dez anos depois que o li pela primeira vez, me obriga a começar mais uma resenha aqui no Vacatussa com um depoimento pessoal. Lançado em 2003 pela editora Landy, devo ter lido os poemas de Verunschk mais ou menos um ano depois de sua publicação. Tinha acabado de deixar o curso de Direito da UFPE, me matriculado em Letras e sentia uma grande curiosidade a respeito da poesia contemporânea brasileira, cujas notícias achava mais difíceis de encontrar do que a prosa. Através de indicações, li Geografia íntima do deserto e fiquei empolgado, porque a leitura desse livro me trouxe simultâneas impressões de novidade e reencontro. Explico a novidade: a dicção me soou própria e não queria, com exceção de um ou outro poema, simplesmente emular a voz dos seus poetas precursores. Ao mesmo tempo, porém, o livro não recaía na sedução da pura ruptura e encerrei minha leitura concluindo o quanto Geografia íntima do deserto tinha me revelado um intenso diálogo com diferentes tradições literárias.

A qualidade poética de Geografia íntima do deserto chamou a atenção de importantes críticos literários, que legitimaram, com rapidez impressionante e merecida, a obra. Além disso, sua poesia me foi apresentada relacionada a um grupo de poetas articulados ao redor da importante antologia Na virada do século, organizada por Claudio Daniel e Frederico Barbosa e publicada em 2002 pela Landy, na qual Verunschk foi uma das poetas selecionadas. Esse foi, portanto, meu encontro inicial com a nova poesia brasileira; passei anos lendo e acompanhando tanto os poetas publicados em Na virada do século, quanto outros que não couberam no recorte proposto pela antologia. Assim, quando definimos que Verunschk seria matéria de um dos nossos dossiês, não pude deixar de me perguntar: “mais de uma década depois, Geografia íntima do deserto e Na virada do século ainda me dizem respeito? Que conclusões eu teria após a sua releitura?”. Sobre a antologia e os poetas inventivos, a conversa fica para outro momento; mas posso dizer que retomar o contato com Geografia íntima do deserto me trouxe uma enorme satisfação.

Os críticos João Alexandre Barbosa e Manuel da Costa Pinto apontam, em seus ensaios sobre o livro, a proximidade da poesia de Geografia íntima do deserto com a obra de João Cabral de Melo Neto. Embora seja um livro com diferentes facetas e nuanças, é possível dizer com segurança que seus poemas de modo geral procuram um registro não retórico, conciso, atento à “coisidade” das coisas. Podemos, assim, associar esse caminho a um aprendizado cabralino, mas os dois críticos também apontam uma série de elementos que desvinculam a poesia de Geografia íntima do deserto de um mero pastiche do autor de Morte e vida severina. Penso que há uma série de pesos e contrapesos ao longo do livro; há tópicos, nódulos poéticos, cuja densidade da presença se faz incontornável, mas ao mesmo tempo nenhum deles consegue projetar sobre os poemas de Verunschk uma sombra definidora. Logo, o seu livro retira parte da sua força das diferentes vertentes, tensas, que se cruzam ao longo da obra.

Penso, por exemplo, o quanto as suas imagens surgem com clareza, porém ao mesmo tempo marcadas por uma tendência ao hermetismo (e sobre essa aspecto da sua poesia, bem como seus traços em outros poetas contemporâneos, remeto vocês ao excelente estudo de Fábio Andrade no seu livro A transparência impossível: poesia brasileira e hermetismo). Não é difícil, portanto, “enxergar” a poesia de Verunschk; a articulação entre si dessa imagética, o seu pleno entendimento e sentimento, no entanto, convidam a um reiterado esforço de construção intelectual por parte do leitor. Um bom exemplo estaria em um dos melhores do livro, A bicicleta: “A bicicleta brilhava no deserto./Dourada era um bicho./Magra, buscava as tetas da mãe/quando se perdeu./A bicicleta e sua solidez de areia,/sua solidão de ferrugem/e seu olho manso e manso (…)Animal mítico,/pedais, semente, umbigo:/pedaço de sol,/um deus enterrado no deserto”.

Outros exemplos podem ser nomeados. Há, de um lado, em alguns versos vislumbres da relação com espaços sociais ticpicamente nordestinos e ecos de uma memória cultural sertaneja, como no caso dos poemas Fotografia de menino e Seca (ou o Boi e a Quaresma); e por outro uma crônica da vida anônima das grandes cidades, como em O rio: “Mas à noite/copulo com luzes e prédios”. A vida do dia a dia, os pequenos afezeres e delírios compõem a rede de interesses de Geografia íntima do deserto tanto quanto a procura por Deus, o desconforto da solidão e as perguntas sobre o valor da experiência humana; há o Cristo Morto e barroco de Salmo da luta inútil e o paganismo de Ditirambo. Em muitos casos, as temáticas que acabo de apontar não se espelham entre si a partir do seu aparecimento em diferentes poemas, mas convivem misturadas em uma mesma estrofe ou verso. Não se trata de um ecletismo inseguro e típico de estreantes, mas sim de um refinado senso de contradição e complexidade. E quando tudo parece se encaminhar demais ao cerebral ou ao devaneio, a foda, a ereção e o orgasmo irrompem. Há muito corpo em Geografia íntima do deserto. O sexo e o desejo contextualizam as indagações sobre morte, tempo, linguagem, Deus e memória no âmbito das mais básicas necessidades e limitações humanas.

Próximo ao final do livro, podemos ler no poema Decalque: “A manhã seguinte decalcou/quase toda a manhã anterior/que se tinha fixado nos olhos./E todas as outras manhãs/copiariam detalhes/cada vez mais tênues/até que nem olhos mais houvesse”. Se essa é uma verdade sobre o desmanche que o tempo, com artimanhas e em silêncio, impõe aos nossos dias, certamente não descreve minha releitura de Geografia íntima do deserto: a vida e a força poética encontráveis em muitos desses poemas se renovam a cada reencontro.

Relido em novembro de 2014
Escrito em 24.11.2014

FICHA TÉCNICA

Geografia íntima do deserto
Micheliny Verunschk
1a. edição 2003
79 p.

TRECHO

“Saber o deserto

como a cidade

sabe os seus ferrolhos,

a infecção, suas abelhas.

Saber o deserto

e mais ainda: tê-lo.

Conquistar seus ferrões de areia

sua gula seca e oca tempestade.

(Penetrá-lo com suas íntimas chaves).”, (p. 48, poema Face)

EPÍLOGO

Raridade: Em caráter excepcional, esse livro foi resenhado em um arquivo em formato pdf. Sempre procuramos comprar os livros resenhados em nossos dossiês, no entanto, devido ao fato de que Geografia íntima do deserto tem sido difícil de encontrar nas principais livrarias, sebos e sites do país, foi preciso solicitar à própria autora o arquivo do livro. Fica, portanto, o incentivo para que a obra seja republicada em nova edição.

OUTRAS OPINIÕES

João Alexandre Barbosa, no Jornal de Poesia, 2003.

(http://www.jornaldepoesia.jor.br/jabarbosa1.html)

“Eis, portanto, um interessante e aparente paradoxo: uma poesia da intimidade, como esta sem dúvida é, não é necessariamente uma poesia intimista ou de intimidades.

E isso porque a intimidade está antes no difícil e delicado jogo entre a experiência pessoal e a construção pela linguagem de um espaço de traduções recíprocas, em que as reverberações léxicas, sintáticas e sonoras não deixam brechas para o caos que costuma se apossar das expressões de intimidades.”

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A cartografia da noite – Micheliny Verunschk

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Entrevista

Entrevista de Micheliny Verunschk ao Vacatussa (novembro de 2014)

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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