Hibridismos Musicais de Chico Science & NZ – Herom Vargas

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Autópsia de carangueijos

A iniciativa de jovens que, na busca por diversão na década de 90, resolveram agitar a cena cultural do Recife criando o Manguebeat, tem sido objeto de estudo de vários trabalhos acadêmicos. Um deles sai agora em livro, publicado pela Ateliê Editorial. Fruto da tese de doutorado de Herom Vargas, o volume Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi faz uma revisão da bibliografia já produzida sobre o tema, traça um panorama histórico do Mangue e analisa a proposta estética dos malungos.
 
Apesar de sofrer algumas alterações, os cacoetes acadêmicos ainda se fazem presentes no livro, com a discussão sobre os conceitos de hibridismo. Passagens que destoam do restante da obra, embora não tire o brilho da obra de Vargas. Seu esforço é notável. Partindo do caminho deixado pelas pesquisas de Philip Galinsky, Carolina Leão e José Teles; o autor consegue traduzir em detalhes as idéias do Manguebeat.

Auxiliado por entrevistas de alguns personagens da cena, Vargas recupera o clima de diversão e improviso do movimento, mas sem menosprezar o lado cerebral que o fundamentou. O autor explica com precisão como Chico Science e Fred Zero Quatro desenvolveram a concepção do Mangue, com base nos ideais antropofágicos de Oswald de Andrade e do Tropicalismo, como uma forma de abrir espaço em meio ao Movimento Armorial, a cultura dominante na época.

Ao contrário do que alguns trabalhos levantam, o autor ressalta que a proximidade entre o Manguebeat e o Tropicalismo fica apenas no plano estético. Enquanto os tropicalistas buscavam se inserir na Indústria Cultural, para questioná-la de dentro; os mangueboys assumiam uma postura mais crítica, de oposição.

Sob os olhos do autor, Chico Science ganha um tom mítico. De gênio, que soube perceber as possibilidades em unir o conceito pop com as vertentes pernambucanas de ritmos africanos. E de líder, capaz de agrupar e respeitar o mosaico formado por pessoas que participaram da cena. O talento de Chico fica evidenciado na sua proposta de diferenciar sua sonoridade da que existia na Bahia, optando por uma batida de maracatu ao invés do samba-reggae, difundido por grupos como o Olodum e a Timbalada.

Outro ponto alto do trabalho de Vargas é a tentativa de explicar o Manguebeat não pelas teorias do pós-moderno, e sim como algo já natural da cultura latino-americana. O autor defende que a tendência às fusões é parte constitutiva da nossa formação, sempre absorvendo elementos estrangeiros e misturando-os às suas tradições.

Thiago Corrêa
lido em Mai. de 2008
escrito em 25.05.2008

: : TRECHO : :
“O objetivo estético parecia ser o principal motor desses jovens interessados em música pop, paralelo às ações políticas de abrir espaços de divulgação, de incrementar a cena musical de uma cidade musicalmente rica, mas em completo estado de estagnação cultural. Tal ação se diferenciava da postura dos blocos afro da Bahia, cujo posicionamento político fundava-se nas questões racial e de afirmação da negritude.” (p. 111).

: : FICHA TÉCNICA : :
Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi
Herom Vargas
Ateliê Editorial
1a. edição, 2008
248 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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