João – Felipe Teodoro

0

Quando a noite chega, João ajeita a pistola na cintura, pega a mochila e sai. Para em uma praça que fica três quadras da farmácia. Acende um cigarro e repassa o plano. Você vai entrar. Como se fosse comprar o remédio. Quando ele estiver na frente do caixa, você aponta o cano pra cabeça dele e grita, passa o dinheiro, passa todo o dinheiro! Não. Gritar não. Vai que alguém escuta? Vai que o velho mora nos fundos da farmácia e tem uma esposa. Um filho. Hein? Você aponta o cano pra cabeça dele e fala com calma, passa o dinheiro. Sim. Com calma. Pra ele ver que você tá no controle. E você vai falar olhando no fundo dos olhos dele. Pra ele ver como você tá sendo sincero. Depois você vai guardar o dinheiro na jaqueta e pegar o máximo de coisas que tiver ao seu alcance. Põe tudo na mochila e vaza. Vaza e nunca mais volta nessa merda de farmácia. Ninguém vai precisar se machucar. Vai ser tudo tranquilo. Ok?

Caminha até a farmácia, o coração acelerado, a cabeça quase explodindo.

O velho atrás do balcão acena e diz boa noite. Ficam frente a frente. João está tremendo. Tem dúvidas sobre o que fazer. Enfia a mão no bolso num movimento automático e tira a receita médica. O velho nem pede pra verificar, sabe quais remédios ele quer. Há seis meses João vai até aquela farmácia todo quinto dia útil do mês para comprar a medicação para a mãe inválida. Dá a volta e desaparece por alguns segundos. Nesse tempo, uma gota de suor frio escorre da testa de João. Ele olha pros lados para confirmar que estão sozinhos. Analisa o que tanto consegue pegar. Salgadinhos. Chocolates. Há também uma caixa cheia de remédios pra gripe que com certeza ele consegue vender pra alguém. Tenta não pensar nas consequências do crime. Só assim é possível realizar tal façanha. Sem se preocupar com o depois. Agir como se só existisse o agora. Fica frio, fica frio, ele pensa enquanto bate com os dedos no balcão. E o velho volta com os medicamentos, coloca tudo em uma sacola plástica e diz quarenta e cinco reais. João entende que aquele é o momento decisivo. Tudo ou nada. Você tira a arma e mira na cabeça dele. Pede o dinheiro, pega o remédio e o que mais você conseguir e aí vaza. Vaza e não volta. Nunca mais passa perto dessa maldita farmácia. Esse é o plano. Fica frio, vai ser rápido, é tranquilo.

Enfia a mão por baixo da blusa e infinitas possibilidades passam em sua cabeça. Um cliente que abre a porta e entra bem na hora. Um grito de desespero e ele assustado atira. Estoura os miolos do velho. A bala atravessa a cabeça e deixa um furo bem no meio da testa. O velho que reage, pegando o 38 antigo embaixo do balcão e acertando seu peito. João cai no chão e o mundo gira. A escuridão toma conta. A mãe sozinha no quarto recebendo a ligação, seu filho tá morto, tentativa de assalto. A mãe no IML reconhecendo seu corpo. É aquele ali, com a tatuagem no pescoço. O corpo sendo enfiado na gaveta após a identificação. Os amigos vestindo preto. As lágrimas. A terra. Os vermes. O inferno. Rios de fogo. O capeta. Tortura eterna. Vê tudo isso naquela pequena fração de tempo enquanto a mão avança até a pistola. Tudo ou nada. É tranquilo.

Aperta com mais força o cabo da pistola e depois, sua mão escorre para o bolso da frente da calça jeans. Tira um amontoado de notas e algumas moedas, deposita elas no balcão olhando pra baixo, extremamente envergonhado, impotente. Um covarde. Um bundão. Eu sempre soube que você era um bundão, um bundão.

O velho conta as notas e todas as moedinhas. Depois coloca a quantia no caixa e estende a sacola para João. Não se preocupe. Tá tudo certo, filho. Na próxima vez, você paga o que faltou. E por alguns segundos ele não acredita na atitude do velho. Em um movimento involuntário ele agarra a sacola com as duas mãos e sai correndo. Sem reação. Chora enquanto corre para casa. Desce a escadaria de pedra com o gosto amargo das lágrimas na boca.

Entra em casa, acende as luzes e depois guarda a arma debaixo do colchão. Senta na cama e respira fundo. Não se preocupe. Tá tudo certo, filho. Na próxima você paga o que faltou.

Entra no quarto da mãe e dá os comprimidos. Depois vai pra cozinha, prepara um pão com mortadela, mas não consegue comer. Perdeu toda a fome. A comida também é amarga. Resolve ir dormir. Deita na cama e sonha. Sonha com o velho da farmácia. No sonho os dois estão empinando pipa na esquina de casa e o velho é o pai que João não conheceu.

Compartilhe

Sobre o autor

Nasceu em Ponta Grossa-PR, em 1993. É formado em Letras e atualmente mestrando em Estudos da Linguagem na UEPG. Tem textos publicados em várias antologias nacionais. Contato: felipets9@hotmail.com.

Comente!