Joaquim Cardozo está entre nós

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O poeta-engenheiro Joaquim Cardozo está entre nós. Como um patrimônio da cultura pernambucana, seu nome foi incorporado ao cotidiano do Recife batizando o teatro do Centro Cultural Benfica, a biblioteca do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (CAC-UFPE), uma escola municipal no bairro da Macaxeira e um centro de estudos em Tejipió. Apesar de ter falecido no dia 4 de novembro de 1978, ainda é possível encontrá-lo na ponte Maurício de Nassau. Ali, em seu silêncio de estátua que integra o Circuito da Poesia, ele responde com um sorriso tímido aos abraços dos turistas que posam para tirar fotos sobre o Capibaribe.

Mas, com esse mesmo sorriso contido, ele passa a maior parte do tempo esquecido na murada da ponte. Parada nesse ponto de transição entre o Recife Antigo e o bairro de Santo Antônio, a estátua de Joaquim Cardozo fixa um olhar distante nas transformações sofridas pela cidade em que nasceu. Virada para a cidade vizinha, a estátua parece recordar os versos “Olinda, / das perspectivas estranhas, / Dos imprevistos horizontes, / Das ladeiras, dos conventos e do mar.”, numa recusa a encarar o que fizeram com a antiga Ponte Giratória na década de 1970 e se assustar com os dois espigões de concreto erguidos na paisagem do Cais de Santa Rita. Uma postura de reprovação contra o progresso de linhas retas que, já em 1924, ele expressava no poema Recife morto: “Recife, / Ao clamor desta hora noturna e mágica, / Vejo-te morto, mutilado, grande, / Pregado à cruz das novas avenidas. / E as mãos longas e verdes / Da madrugada / Te acariciam”.

O sorridente Joaquim Cardozo modelado pelo artista plástico Demétrio Albuquerque prefere observar os efeitos do tempo através das pessoas e dos veículos que atravessam a ponte Maurício de Nassau, contente por ainda conviver, em pleno século 21, com pescadores que se debruçam nas muradas ao seu lado para catar siri no fundo do rio. Embora acanhado, o sorriso também comporta as lembranças dos tempos em que o poeta se reunia com amigos ilustres – como o sociólogo Gilberto Freyre, o poeta Ascenso Ferreira, o jovem João Cabral de Melo Neto e os pintores Luís Jardim, Vicente do Rego Monteiro e Cícero Dias – ali perto, no Café Continental, numa esquina da Rua Imperial, próximo à tabacaria Lafayette.

Foi nesse local, na década de 1920, que a fama de intelectual do discreto Cardozo começou a se espalhar. Com domínio de cerca de 15 línguas e antenado com as ideias que estavam sendo produzidas nas artes, o poeta logo conquistou a admiração dos colegas por suas opiniões, bagagem cultural e generosidade por compartilhar seu conhecimento através de livros e revistas de difícil acesso com os mais próximos. Um ato que ele veio repetir em 1977, quando já tinha 80 anos, doando sua biblioteca com cerca de 75 mil exemplares à UFPE.

Como uma forma de retribuir esses atos de generosidade, em 1947, os amigos presentearam o poeta com a publicação de Poemas, quando ele já havia deixado o Recife e vinha se destacando como engenheiro calculista do arquiteto Oscar Niemeyer. A obra marcou a estreia tardia de Cardozo em livro, que antes só havia publicado em revistas e fora incluído na Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos, organizada por Manuel Bandeira. Pesquisadores da obra de Cardozo contam que o poeta tinha o hábito de criar seus versos mentalmente e costumava recitar seus versos antes mesmo de escrevê-los. A peculiaridade do processo criativo de Cardozo chamou tanta atenção do poeta João Cabral de Melo Neto, que o autor de Morte e vida Severina tentou traduzir o método do amigo em versos em Um poema sempre se fazendo: “Assim, não deu trabalho aos prelos: / se sequer cuida de escrevê-los! // Se só se alguém lhe pede um poema / reescreve algum que ainda lembra.”

Esse aparente descaso com o registro, contudo, não chega a ser uma irresponsabilidade do poeta-engenheiro. Segundo a pesquisadora Maria da Paz Ribeiro Dantas, apesar da inabilidade do poeta para questões práticas da vida, o costume de Cardozo era uma maneira de ressaltar a importância da oralidade para a poesia. No livro Joaquim Cardozo – ensaio biográfico, a estudiosa observa que o teatro do autor pernambucano foi um prolongamento do seu interesse pela poesia oral, onde ele já vinha explorando o caráter narrativo, os diálogos e o gestual.

Por sorte, essa resistência do poeta-engenheiro foi vencida pela admiração dos seus leitores e grande parte da obra de Joaquim Cardozo continua acessível graças ao trabalho dos seus amigos em registrar seus versos. João Cabral de Melo Neto, inclusive, foi um dos maiores responsáveis pela preservação da obra de Cardozo, coletando com amigos versões de poemas recitados pelo poeta-engenheiro para depois submetê-los à memória do autor e fixá-los no papel.

A OBRA

joaquimcardozo-completoE foi do mesmo João Cabral de Melo Neto que, já no fim da vida, partiu a ideia de reunir a obra completa do amigo. Com o lançamento de Joaquim Cardozo – poesia completa e prosa, mais de 15 anos depois da motivação original, o poeta-engenheiro tem uma nova oportunidade para deixar de ser apenas um monumento estático e ganhar voz novamente através dos seus versos, críticas, ensaios e contos reunidos no volume.

O livro – publicado em parceria pela editora Nova Aguilar e a pernambucana Massangana, braço editorial da Fundação Joaquim Nabuco – é fruto de seis meses de dedicação do poeta Everardo Norões, a quem coube a organização do volume. Um trabalho que ele desempenhou em conjunto, com a colaboração de nomes como Marco Lucchesi, Fernando Py, Maria da Paz Ribeiro Dantas, o ex-prefeito do Recife Pelópidas da Silveira e o artista visual Paulo Bruscky. “Chamei todo mundo que tinha alguma ligação com Joaquim Cardozo. Foi um trabalho bem interessante”, recorda Norões.

O material reunido na edição permite um mergulho no universo criador do poeta-engenheiro. Nas quase 700 páginas do volume, temos acesso ao pensamento e à trajetória de um dos grandes intelectuais brasileiros do século 20 através da sua obra artística que vem agregada a documentos que ajudam a esclarecer momentos da vida do de Cardozo. Entre eles está o polêmico discurso feito pelo poeta-engenheiro na condição de paraninfo da turma de engenharia de 1939, que terminou por resultar na sua demissão da Secretaria de Viação e Obras Públicas e, por conseqüência, na sua mudança para o Rio de Janeiro. Um episódio triste na biografia de Cardozo, mas que outra vez acabou se transformando em poesia através dos versos de João Cabral em O exilado indiferente: “Seqüestram-no amizades boas, / às carreiras, para Alagoas // E, dos Maceiós, num navio / vem viver federal, no exílio”.

A edição ainda contempla uma série de ensaios concebidos por Cardozo ao longo dos seus 81 anos de vida. Aqui, o poeta-engenheiro demonstra a pluralidade do seu conhecimento, promovendo análises críticas refinadas a respeito das mais diversas formas de expressão artística. Por meio das observações feitas sobre literatura, artes visuais, arquitetura e urbanismo; o poeta-engenheiro deixa transparecer seus interesses artísticos e os rumos traçados por ele para a construção da sua poética.

Algo que se complementa com a inclusão da fortuna crítica, onde nomes de peso da cultura nacional (como Antônio Houaiss, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Oscar Niemeyer e o crítico Wilson Martins) oferecem caminhos para se entender a dimensão do legado poético de Joaquim Cardozo. Considerado um dos poetas mais importantes do século passado, a obra de Cardozo adquiriu essa relevância graças à sua particularidade de ponte, de visão a meio caminho entre a tensão de palavras e números, arte e ciência, local e universal.

Contemporâneo de uma época em que a literatura brasileira ainda era habitada por simbolistas e parnasianos, testemunha das vanguardas europeias, da Semana de Arte Moderna de 1922 e da reação regionalista de Gilberto Freyre ao movimento paulista; Cardozo soube administrar tais influências, reprocessando-as na busca pela construção de uma voz própria na poesia brasileira. Uma disposição que o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade atribuiu a “um aparelho severo de pudor, timidez e autocrítica” que o salvou da “passividade que em outros poetas daquela fase excluiria qualquer reivindicação do indivíduo”.

A pesquisadora Moema Selma D’Andrea, no entanto, sugere outra versão para explicar a independência estética do poeta-engenheiro que não cedeu ao “poema piada, o lirismo irreprimível do consciente e o primitivismo antropofágico” explorado pelos modernistas. Para ela, o fato da poesia de Cardozo se caracterizar como uma via alternativa do modernismo, sem cair no regionalismo, é reflexo da sua posição na sociedade. “Cardozo consegue este ponto de vista alternativo, que pode ter (talvez…) alguma ressonância na sua posição de intelectual de classe média (engenheiro de profissão), apreendendo de outro ângulo a transição do país no projeto nacionalista-modernizador da década de 1920”, aponta a estudiosa no artigo A via alternativa da modernidade em Cardozo. Assim, ela observa que o poeta-engenheiro não aderiu por completo ao regionalismo porque não lamentava o declínio do latifúndio nem ao modernismo porque não compartilhava do otimismo dos paulistas em sua análise em torno de Poemas.

Além dele, o volume Joaquim Cardozo – poesia completa e prosa traz os outros livros que compõem a obra poética do autor pernambucano: Signo estrelado, Trivium, Mundos paralelos, O interior da matéria, Um livro aceso e nove canções sombrias e mais uma série de versos que foram agrupados na seção Outros poemas, incluindo os inéditos poemas caligráficos onde Cardozo buscava aplicar seu conhecimento arquitetônico na poesia. Também foram incluídos os 12 contos escritos para integrar o livro Água de chincho.

Numa análise sobre o universo poético de Cardozo, o crítico César Leal estabelece que sua obra pode ser dividida em duas fases. Na primeira, ele aparece tentando se apropriar da linguagem, buscando novas maneiras de enriquecer sua poesia enquanto os horizontes do poeta-engenheiro são mais restritos, mais apegados a cenários e temas do cotidiano pernambucano. “Depois ele foi marchando para o universalismo e, nesse sentido, chega a ultrapassar João Cabral de Melo Neto que fez sua obra no estreito entre Recife e Espanha. Já Cardozo coloca em versos o universo inteiro, no Trivium ele pega o universo para si”, compara Leal.

O crítico considera o Trivium não só a obra-prima de Cardozo, mas uma das três ou quatro expressões máximas da poesia nacional do século 20. A obra, que teve a primeira parte publicada em 1952 e só apareceu concluída em 1971 dentro da edição Poesias completas, é um grande tratado sobre a morte, onde o poeta-engenheiro busca entender o fim da vida através do diálogo entre a poesia e a ciência, embasado nos conceitos da psicanálise de Freud e da física quântica sobre o tempo.

O interesse pelo tema parecia um prenúncio do poeta, que já em idade avançada e famoso na engenharia por sua contribuição na construção de Brasília, abateu-se com a notícia do desabamento do Pavilhão da Gameleira em Minas Gerais (obra cujo projeto era assinado por Niemeyer e fora calculada por Cardozo), resultando na morte de 86 operários. Acusado de ter sido o responsável pelo acidente, Cardozo foi inocentado em 1975, mas o abalo à alma do poeta já estava feito e sua condição de saúde só fez piorar. Até que no dia 4 de novembro de 1978, ele embarca no trem que subia ao céu.

Escrito em 4 de abril de 2011

Publicado originalmente no suplemento Pernambuco

Referência para citação:

RAMOS, T. C. . Ainda é possível encontrá-lo pelo Recife. Pernambuco Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado, Recife, p. 14 – 15, 01 jun. 2011.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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