Josué! – Janaina Abílio

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Grito seu nome o dia inteiro, Josué!,

pra cada xerox, rubrica, bailarina enferrujada nos processos de XX volumes, vem esse crachá desaforado na minha cara, Josué, que eu quase puxo pra te enfiar embaixo da mesa, aqui, meu bem, sentadinho aqui. Quase. Daí o crachá volta intacto no pescoço magro e eu grito de novo, pra você levar um relatório qualquer, arquivar, carimbar, e assim a gente fica o dia inteiro nessa brincadeira que você aprendeu a respeitar.

Ou eu poderia te servir nessa fórmica lascada. Esse corpo franzino, carne fresca, galetinho no ponto pra comer e chupar cada ossinho lambendo os beiços. Ele ri. Ele zomba, ele sabe, não é possível. Me exibe os dentes de aparelho numa boca tão carnuda e vermelha, sorriso de moleque sem vergonha desse bigodinho ralo que não condiz mais com a sua idade. Um menino. Que eu queria pôr no colo, deitar entre as pernas e ensinar como chupa uma buceta, que pra meter gostoso é preciso um bom ângulo e pressão pro seu pau bater ali depois da curva, que você pode olhar nos olhos sem medo, e se pegar na minha mão é capaz de eu te amar por uma noite inteira.

Tão novo e vive na igreja. Tão novo e quer casar, voltar pra Macaé. Você só tem 18, pretinho, vem que vou te apresentar a Lapa, te embebedar nas minhas coxas, deixa esse cabelo crescer, deixa eu te profanar. Eu te levo pro futebol, faço tua lição, até te dou de comer, se me deixar te lamber, te salgar, te lamber, sugar teu corpo pra nunca mais querer sair de dentro. Pode me chamar de puta-maconheira-vadia, me converter em adoradora dos seus desejos, que terão sido meus, que ainda serão seus, num vai e vem que você não cansa fácil, eu sei. Quero o seu gozo de menino, que só menino tem, sorrindo e brilhando no descanso dos meus seios.

A noivinha em Macaé terá tempo de preparar o enxoval com calma. Sua transferência ainda demora, não carece se afobar. Vou gritar de novo, chegue seu sorriso sem vergonha que te falo mais um par de coisas da vida, até você entender que toda vez que chamo é da ordem do modo imperativo de um desejo pungente, que a vida é intratável, e que não se pode casar sem cumprir certas formalidades.

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Sobre o autor

Nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 1988. É funcionária pública, cursa Letras na Unirio e tem contos publicados na antologia Grãos Imastigáveis (Bando Editorial Favelofágico).

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