Legião Anônima – João Paulo Parisio

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

Autor: João Paulo Parisio nasceu no Recife-PE, em 1982. Hoje mora em Arcoverde. Além de contos, ele escreve poemas. Já teve textos publicados no Suplemento Pernambuco, no jornal Rascunho, no site Interpoética.

Livro: Publicado em 2014 pela Cepe, o livro reúne 17 contos. A edição traz orelha assinada pelo escritor Raimundo de Moraes.

Tema e Enredo: Apesar da presença do elemento fantástico, as histórias de Legião Anônima fincam o pé em temas da realidade, como a desigualdade social, a solidão e a dificuldade do homem em lidar com o diferente.

Forma: Uso do fantástico como uma forma de ressaltar os contrastes do mundo, seja através do olhar infantil, dos efeitos de uma mente atordoada ou da memória.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Possibilidades da terra firme

No exercício da crítica literária, lidar com o novo significa tanto a inexistência de um passado que ajuda a contextualizar a obra do estreante, como os riscos de se fazer uma aposta prematura. Por sorte, nesse abismo em que precisamos nos equilibrar, geralmente o texto se impõe, seja alimentando o prazer da descoberta ou levando a uma bifurcação que aponta para uma mera cópia de obras bem sucedidas e para projetos pretensiosos que, no intuito de revolucionar a literatura, alcançam no máximo um experimentalismo oco. Nesse sentido, a leitura de Legião Anônima, livro de estreia do pernambucano João Paulo Parisio, é uma caminhada sobre piso firme que nos dá esperança de um horizonte sólido a ser construído.

Com a habilidade de criar um espírito singular a cada história, Parisio apresenta um repertório versátil de estratégias narrativas que lhe permitem girar em torno das mesmas fórmulas e dos mesmos eixos temáticos (como a desigualdade social, a violência, a incapacidade de lidar com o outro e a solidão) sem cair no risco da redundância e, ao mesmo tempo, sem perder a unidade da obra. Algo que ele consegue através da variação de perspectivas, na mescla de elementos fantásticos com o real, do recurso da memória e da ação, gerando alguns contos mais factuais e outros mais vagos e filosóficos. Na inserção de um elemento aqui ou na alternância da ordem dos fatos, o autor já embala cada conto com um ar de novidade, evitando repetições.

A diferença de classes, por exemplo, aparece nos contos Natal nos trópicos, Véio e Sapucaia. Neste último, a desigualdade não é o foco principal da história, mas passa por ela por meio da lembrança que o narrador tem sobre o avô, num misto de nostalgia e desconforto. Já nos dois primeiros, há o confronto de realidades através do olhar infantil, quando duas crianças de mundos diferentes se encontram num semáforo (Natal nos trópicos) ou durante umas férias na casa de praia (Véio). E, embora o procedimento da justaposição de realidades seja o mesmo, os contos se distinguem pela maneira como Parisio os conduz, construindo Natal nos trópicos na alternância de perspectivas (ora dando voz ao garoto de rua, ora ao menino do carro, no seu ar condicionado); enquanto que Véio é desenvolvido numa única via, apenas pelas recordações do galego em relação ao filho da empregada, o que, até pelo que o título da história indica, termina por privilegiar a construção do personagem.

E assim como ocorre com o tema, Parisio também emprega variações sobre o mesmo método de criação. Quase todos os contos do livro partem da mesma premissa: a ocorrência de uma situação de ruptura que impõe um novo cenário aos personagens e exige deles uma reação, algo que é explicitado na frase “Trazia uma cicatriz no olhar ao ser encontrada”, que fecha o conto A sobrevivente. Além dele, onde é narrada a mudança da personagem depois de um assalto; isso também acontece com os transeuntes da Conde da Boa Vista ao se depararem com um homem alado no conto A boa ação, com o garoto em sua nova escola em Asfódelo, com o protagonista de Blecaute ao encontrar a cidade vazia, o homem que reage a agressão a uma mulher em Ponte Giratória, com a cidade após a aparição do felino em O tigre, com a mulher que sofre o acidente em Nossa senhora dos ratos.

Apesar dessa semelhança, Parisio consegue administrá-la aplicando elementos fantásticos e alternando a posição do ponto de transição da narrativa. Em O tigre e A sobrevivente, a ruptura já é o pressuposto das histórias, aparece logo no começo dos contos e eles seguem numa linha reta, sem viradas narrativas. O absurdo da situação de um tigre solto na cidade e o impacto do trauma de um assalto já são suficientes para colocar em perspectiva o mundo real, sem necessariamente explicitá-lo. Já em A boa ação, a ruptura se dá aos poucos, com uma metamorfose lenta e inusitada de um passante na Avenida Conde da Boa Vista. E, embora o foco da história se mantenha no personagem, é ele o catalisador da mudança de cenário. Diferente, por exemplo, de Blecaute, onde aparentemente é o fator externo que provoca a transformação do personagem. Aqui, a transição já aparece no início do conto, mas a causa é jogada para o fim da narrativa.

Com essas pequenas mudanças, a unidade do livro é mantida tanto pelo eixo temático como pela estrutura narrativa. Ao mesmo tempo, para consolidar essa ideia de conjunto, Parísio costura suas histórias num projeto comum, promovendo intersecções entre os contos. No conto XIX, XXI encontra-se uma referência a artesã Carmem Miranda de Homônimas; o que também acontece em Sobre a Guerra da Arraia-miúda com indicações a Blecaute, Natal nos trópicos e Ponte Giratória, que, por sua vez, alude ao homem alado de A boa ação.

Por esses túneis interligados, a leitura de Legião Anônima é conduzida num misto de segurança nutrida pela solidez narrativa (que nos abre o horizonte com trechos que praticamente exigem ser sublinhados) e de desafio por nos colocar sob a ameaça de penhascos construídos por enredos inusitados, histórias povoadas por seres mágicos e desdobramentos que nos levam a nós mesmos, como o caso de A boa ação, onde a metamorfose de um homem alado acaba por nos colocar um dedo na cara e nos acusar de intolerância, e da investigação circular de Ponte Giratória. Embora a travessia por Legião Anônima revele alguns pedregulhos soltos – a exemplo de alguns excessos ou termos em desuso (lobrigou, ínferos, avoengos, fímbria, melopeia…), que destoam do vocabulário das próprias narrativas, quebrando a fluência das histórias –, eles se revelam meros detalhes perante o conjunto de 17 contos reunidos no volume publicado pela Cepe.

Lido em julho de 2014

Escrito em 12.08.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/03/Thiago-Corrêa-Foto-de-Ale-Ribeiro-3.jpg[/author_image] [author_info]Thiago Corrêa é jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE.

Relação com o escritor: Nenhuma, até o autor entrar em contato para divulgar o livro.

[/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Legião Anônima

João Paulo Parisio

Editora: Cepe

1ª edição, 2014

124 páginas

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“Era como se todas as coisas perdessem o sentido e a forma, a começar por ele mesmo. Entre os entes familiares é que se desenhava a sua silhueta. Avulso, não sabia o que ser, perdia os contornos. Tornava-se um borrão. O vazio era o da sua própria ausência, um vazio devorador. Parecia que tinha se extraviado como a um objeto, de que nunca se dera conta, como costuma acontecer aos imprescindíveis, mas sem o qual perdia o direito de usufruto de todos os outros, um artefato que era a chave para a fruição do mundo.” (p. 19. Conto: Asfódelo)

[/learn_more] [learn_more caption=”EPÍLOGO” state=”close”]

Trajetória

Uma busca pelo nome do autor no Google é suficiente para perceber que há muito João Paulo Parisio vem construindo sua obra. É possível encontrar na rede um poema publicado na seção Inéditos do Suplemento Pernambuco, o conto Boneca-de-pano enviado pelo autor para a seleção da Revista Granta – Os melhores jovens escritores brasileiros e o conto Sete, no site d’O Recife Assombrado.

Poesia

Além de Legião Anônima, Parisio teve outro livro aprovado pelo conselho editorial da Cepe. Trata-se de um volume de poesia e deve ser lançado em 2015.

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Entrevista

Entrevista de João Paulo Parisio ao Vacatussa (setembro de 2014)

Links relacionados

Blogs do autor: Ilha invisível (poesia): http://ilhainvisivel.blogspot.com.br/

Fábulas árduas (prosa): http://fabulasarduas.blogspot.com.br/

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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