Lições de física – Débora Ferraz

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Foi no meio da aula. O professor se aproximou do grupo em que eu estava, viu que falávamos sobre estupro daquele jeito que as garotas de classe média falam, como quem conta histórias de terror com lanternas debaixo do queixo, e não resistiu.

– Que deus nos livre de acontecer, mas se algum dia um estuprador chegar pra vocês e lhes arrastarem para o meio do mato, façam um favor a si mesmas e, pelo amor de deus, não gritem.

Claro que a gente ficou surpresa com aquilo. Já tínhamos ouvido que não se deve gritar “Socorro” e sim “Fogo!”. Que “Fogo!” mexe com o lado egoísta do ser humano, faz com que corram, se mobilizem. Essa tática, apesar de furada, nós conhecíamos. Mas não gritar nada? Essa era nova.

– O que vocês têm que fazer é dizer “Sim”. Vocês precisam fingir que querem. Tirem a roupa deles. Façam uma cara bem depravada. Peçam. Implorem. Daí é muito provável que fujam e lhes deixem em paz.
Pois pedir “Socorro!”, isso nunca ajuda mesmo. O professor estava certo neste ponto. Não perguntem como eu sei disso. Sei assim: sabendo.

– Setenta por cento dos estupradores são sádicos irremediáveis – ele explicou. – O que os excita não é o sexo. É o medo da vítima.

Era um argumento interessante.

– Então se disserem “Sim” – continuou – Se disserem “Rápido!”, se se mostrarem excitadas, o estuprador vai simplesmente brochar. Eu sei que é difícil. Eles são feios, desdentados, têm uns paus fedidos. Mas se tem uma coisa que uma mulher, e eu digo isso pra vocês muito a contragosto, se uma coisa que uma mulher precisa fazer pra sobreviver, essa coisa é fingir e ser convincente. Olhem esse mundo aí. Isso é uma selva. E se não for eu, no papel de professor, e sobretudo de homem, pra dizer isso aqui pra vocês, quem vai dizer? As mães de vocês sabem disso? Sabem. Os pais de vocês sabem disso? Sabem. Mas eles não vão, nunca, de jeito nenhum, dizer para as filhas o mínimo que precisam pra sobreviver no mundo real. Então eu estou dizendo. Acreditem em mim: eu sei de histórias. Queiram o estuprador.

Apenas para efeito didático, ele devia ter acrescentado: alguns têm carros importados. Sedãs que parecerão vazios e desligados até que você passe, digamos, quando estiver voltando da padaria. E como é que eu sei disso? Sabendo.

– Já ouviram a piada do sádico transando com uma masoquista? Ela diz assim: “Me bate, me bate”. E ele diz: “Não bato. Não bato”.

E eu deixei ele falar tudo.

– Agora vamos voltar à aula. Abram o livro na página cem.
– Mas, professor – eu interrompi –, e os outros trinta por cento?

Ele olhou pra mim.

– Você disse que setenta por cento dos estupradores são sádicos patológicos. E os outros trinta por cento? – perguntei. – Qual o macete?

Perguntei porque não queria dizer que a teoria era falha. Abelhas, cães e também estupradores, eles farejam o medo. O medo irradia de nós em ondas, ultrapassa um sorriso forçado, ultrapassa a palavra “Sim”. Vai além de tudo. E como é que eu sei disso?

Bem, eu sei disso porque minha prima tinha medo de cachorros e todos os cachorros da rua sabiam. Ela passava por minha rua, rezava vinte pai nossos até chegar à minha porta. Nunca precisou tocar a campainha. Quando despontava na esquina, todos os cachorros um a um, casa a casa, num efeito dominó, iam acordando, latindo e rosnando. Ninguém mais conseguia falar ao telefone, a cachorrada tirava a paz de cada morador que gritava “Quieto!”. E a baderna era generalizada enquanto ela passava, controlando os passos, uma perna depois da outra, devagar, e eu ouvia aquilo tudo e meu pai gritava: “Mas que merda está acontecendo com os cães?”. Eu só abria a porta e lá vinha ela. Não corria, não gritava, apenas pedia: “Por favor, um copo d’água”.

– Os outros trinta por cento são apenas homens. Sim, normais. Nenhum macete, nenhum desvio. Apenas homens, ora.

E daí eu sei que se você disser: “Eu não vou chorar”, então ele vai te dar primeiro um tapa, depois ele vai puxar o seu cabelo, depois ele vai te socar, vai te enforcar e, ao fim, se for o jeito e nada mais adiantar, ele vai te prender na caixa d’água e vai dizer: “Quero ver se não chora agora, menina estúpida”. E como é que eu sei disso?

– Não há o que se possa fazer, lamento muito – ele disse. – Nesse caso, reconheçam: vocês deram um azar danado.

Tem certeza que quer saber como é que eu sei disso?

– Mas, então – ele disse –, por que não deixamos de conversa mole e abrimos o livro na página cem?

Débora Ferraz nasceu em Serra Talhada-PE. É escritora e jornalista. Seu romance, Enquanto deus não está olhando, foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio São Paulo de Literatura (autor estreante com menos de 40 anos).

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