A linguagem como recurso estético em Antão, o insone

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A fotografia exibe o sopé de uma montanha rochosa cortando a paisagem em diagonal. A luminosidade conduz nosso olhar para a planície ao fundo, que percorremos até o horizonte em busca do encontro com o céu. Tirada em contraluz, de dentro para fora, uma penumbra envolve a paisagem, revelando que a vista está condicionada à moldura de uma janela. Considerando-se que poucos passos do fotógrafo bastariam para isolar a paisagem e excluir da imagem os restos de parede, a moldura ganha relevo simbólico. Em contraste com a claridade da paisagem que impõe imagens sólidas, a penumbra sugere subjetividades, indica uma intenção, um viés, o caminho percorrido pelo olhar.

Dentro dessa perspectiva, observa-se que não foi por acaso que a fotografia descrita tenha sido escolhida para ilustrar a capa do livro Antão, o insone, escrito pelo pernambucano descendente de sírio-libaneses Tomé Cravan. Como uma janela que se abre ao sol, ele também delineia os contornos, faz com que as palavras revelem suas condições de moldura das entrelinhas, feito paredes erguidas como labirinto para canalizar os espaços vazios da linguagem. Um processo de embalagem que procura abraçar o leitor logo de início, com a escolha da capa, da fotografia seguida por uma breve biografia do autor na contracapa, dos dizeres da orelha escrita pelo mestre em poéticas visuais André Severo, das obras listadas na referência bibliográfica e da apresentação, das notas e do posfácio assinados pelo artista visual e professor universitário Marcelo Coutinho.

Mesmo antes do início da leitura do texto de Cravan, todos esses recursos já funcionam como uma fôrma, direcionam nosso olhar, criam expectativas, desencadeiam experiências preexistentes ao momento em que abrimos o livro. Partimos para a leitura com a certeza da ficção impressa sob a alcunha “novela” na ficha catalográfica, mas intrigados com o tom ensaístico e pessoal de Cravan, os comentários balizadores de Coutinho e a estrutura narrativa apoiada no modelo dos diários, onde os relatos aparecem subdivididos por data. Não fosse uma informação na breve biografia de Coutinho em que, ao invés de ressaltar a credibilidade do comentador, ironiza de maneira sutil o fato da sua dissertação de mestrado ter sido considerada por órgão federais um despropósito acadêmico; nada denunciaria o viés científico de Antão, o insone.

Originalmente apresentada por Coutinho como sua dissertação para obtenção do título de mestre em comunicação pela UFPE, em agosto de 2003; a obra foi relançada em livro pela editora Zouk em 2008, assumindo-se de maneira plena como ficção. Curioso é que, sem o estranhamento da dissertação ter sido defendida por outra pessoa que não seu autor e a exclusão da Nota prévia a título de advertência (a qual explicava o processo de elaboração da pesquisa e indicava quais os frutos colhidos na análise de campo e quais os que brotaram da imaginação de Coutinho), a versão do livro perde sua moldura do real, transforma-se apenas em paisagem, erguendo molduras próprias com os tijolos da ficção. Sem o contraste do contexto acadêmico, a ficcionalidade da obra invade os espaços de verificabilidade do livro, embora isso ocorra de maneira camuflada para os olhos do leitor que desconhece a dissertação.

É o caso de Tomé Cravan, ele deixa de ser apenas personagem e surge como autor, inclusive referendado pela ficha catalográfica. No livro, nada aponta para o seu caráter imaginário. Cravan parece existir de fato, ele ganha corpo através da fotografia da contracapa, revelando-se um senhor moreno cujo rosto carrega as marcas de uma vida dedicada a traduções para o português de textos científicos e, mais recentemente, a criação de cabras no interior do Rio Grande do Norte. Como uma forma de compensar a perda do contraste acadêmico no livro, Coutinho optou por reforçar a credibilidade de Cravan, adaptando a narrativa ao formato de diário, inserindo datas e relatos do cotidiano para legitimar a condição íntima do gênero.

Ainda que já seja uma estratégia adotada na dissertação, na versão em livro as notas de rodapé, bibliografia, apresentação e posfácio atuam com mais veracidade na intenção de borrar as fronteiras, confundir o leitor sobre o caráter ficcional da obra. Coutinho explora esses espaços para respaldar a existência de Cravan e, tal como Jorge Luis Borges, desenvolve uma suposta trajetória do livro Antão, o insone (cuja primeira edição fora supostamente escrita em braille e publicada pela editora portuguesa O Rabo da Víbora, com tiragem de 250 exemplares), com direito a análise da fortuna crítica e correção de equívocos publicados em matérias de jornal. A exemplo de Alexander Van Humboldt (LIMA, 1997, p. 221), que buscou aliar a experiência estética com a precisão na descrição da natureza através das notas; o autor se utiliza desses espaços subterrâneos para amenizar a carência das exigências acadêmicas da dissertação, discutindo as reflexões de Cravan ao propor uma fundamentação teórica e diálogos com obras de estudiosos como Edgar Morin, Humberto Maturana, Francisco Varela, Claude Lévi-Strauss e alguns teóricos inventados.

As referências evocadas por Coutinho entram no campo teórico dos paradigmas da complexidade e atentam para os problemas causados pela imprecisão da linguagem, num desmonte da ilusão racionalista que levou a ciência a acreditar no uso dos métodos científicos para absorver o real em sua totalidade (MAIA, 2011, p. 14). Ao mesmo tempo em que elas dotam de cientificidade os relatos pessoais de Cravan, ampliando seu ponto de vista individual; as notas também apontam para as entrelinhas e subjetividades que existem dentro da própria ciência, eleita como a maneira mais indicada para a apreensão da realidade.

É nessa trincheira entre a ficção e o real que se equilibra Antão, o insone. Ao optar em passar a autoria do relato da sua pesquisa de campo para Cravan, Coutinho absorve a discussão do tema investigado no próprio texto, problematiza-o esteticamente, assume as inclinações do seu discurso já na construção narrativa, que se admite como metáfora e exemplo da discussão teórica. O autor batiza a estratégia de “escrita incorporada”, um tipo de texto que se despe da ilusão de neutralidade e deixa de ser apenas o meio, torna-se a própria materialidade da mensagem, a forma enquanto conteúdo. A ideia amplia os preceitos do historiador Hayden White, que defende que a simples opção por um determinado gênero textual já presume certa organização dos fatos e certo encaminhamento dos argumentos, o que acaba por influenciar o sentido da análise (WHITE, 2008, p. 193).

Das mesmas incertezas estão prenhes as anotações de Cravan, sobre o seu convívio com cinco dos sete filhos nascidos cegos da família Belarmino (que existem de fato, tendo suas falas registradas em mais de dez horas de gravações por Coutinho e preservadas na transcrição para o texto). Elas não falam de outra coisa senão dos limites e enquadramentos do seu olhar na captura da realidade. O contato com a cegueira de Joana, Maria, Manuel, Luzia e Lourdes Belarmino leva o personagem-autor a vivenciar a condição de ser minoria, o único a enxergar num grupo em que o mundo se revela ao toque e se apresenta por sons, cheiros, temperaturas.

Como um estrangeiro num país cujo idioma não domina, ele logo percebe o precipício que se abre na linguagem, tanto na hora de descrever suas sensações como no momento de entender os relatos dos Belarmino. Talvez por sentir a distância que o separa do universo dos cegos, Cravan relata com espanto a constatação de que a fala dos Belarmino carrega o ponto de vista de quem vê, porque a linguagem que fazem uso foi desenvolvida e moldada pela lógica dominante: a visual. Faltam palavras, a estrutura sintática de sujeito, verbo e predicado se revela insuficiente para abrigar o mundo percebido pelos cegos, que terminam precisando abafar seus diferenciais, distorcendo suas impressões do real, para se inserirem na sociedade (CRAVAN, 2008, p. 14 e 97). A ideia é referendada nas notas de Coutinho com citações à noção de aparelhos ideológicos formulada por Louis Althusser e à acusação de Roland Barthes, em sua aula inaugural no Colégio de França, sobre o caráter fascista da linguagem, atentando para o fato dela ser o único meio de expressão, obrigando os sujeitos a utilizarem-na para se pronunciarem.

Ainda assim, embora pisem o mesmo solo e usem o português como código linguístico, a proximidade de Cravan com os Belarmino mostra o quanto os fatos se moldam aos ângulos que posicionamos nossos olhares. Além do enviesamento provocado pela linguagem, a solidez do que se convencionou chamar de realidade é atacada em outras frentes ao longo do livro, expondo rachaduras subjetivas em mais quatro pilares que sustentam nossa percepção do mundo: a memória, o corpo, a comunicação e a cultura (formação intelectual, base teórica e religião). Eles são desconstruídos um a um, revelando brechas para a ficção através da relativização do real, desenvolvidas na maneira como cada um deles edita e monta suas noções de realidade.

Mas antes de destrinchar as reflexões de Cravan, é importante ressaltar que, a exemplo de um teórico pós-moderno, ele sabe que não pode se desprender desses aparatos e sua própria voz funciona como um filtro. Então ele se põe a desmontar as colunas de dentro, estabelecendo relações entre sua bagagem pessoal com perspectivas diferentes, numa forma dialógica de contrastar opiniões e evidenciar a diversidade de caminhos para entender o real. A partir do seu olhar individual, ele revela os rastros e molduras, aquilo que Linda Hutcheon chama de condições de verdade:

“As contradições da teoria e da prática pós-modernas se posicionam dentro do sistema, e mesmo assim atuam no sentido de permitir que as premissas desse sistema sejam consideradas como ficções ou como estruturas ideológicas. Isso não destrói necessariamente seu valor de “verdade”, mas realmente define as condições dessa “verdade”. Um processo desse tipo revela, em vez de ocultar, as trajetórias dos sistemas por nós construídos em resposta a nossas necessidades. Por maior que seja sua importância, tais sistemas não são naturais, pressupostos ou universais” (HUTCHEON, 1991, p. 31).

A passagem aponta para o processo de autoanálise da teoria pós-moderna na intenção de descortinar as subjetividades que existem no discurso científico, deixando à mostra o viés da análise. Devido à pretensão de abarcar o mundo em sua totalidade, alcançando-o de maneira transparente, sem interferências; a ciência, de maneira geral, tende a esconder suas molduras para se passar por verdade absoluta. Isso fica claro em algumas reflexões feitas por Cravan, como o trecho em que ele trata dos processos de eleição e exclusão de fenômenos, instrumentos e perguntas que envolvem uma análise epistemológica, e acabam por construir “consensos comunicativos de uma comunidade científica” (CRAVAN, 2008, p. 49).

A mesma relação é feita com a religião, que se vale do sagrado para justificar o senso de verdade contido no seu discurso. Ao comparar diferentes interpretações religiosas para o mesmo fato, sendo o êxtase classificado como um canal para o Espírito Santo pelos Indian Shakers dos Estados Unidos, sinal de virilidade e autoafirmação pelos samburo do Quênia, possessão demoníaca pelos católicos na Idade Média, sinais do Espírito no século XVI e histeria pela psicanálise; Cravan expõe o sagrado como construções humanas, minando sua pretensão absoluta na leitura dos fenômenos do mundo (CRAVAN, 2008, pp. 35-36).

Para Cravan, os paradigmas teóricos e filtros culturais que nos guiam na formulação do real atuam de maneira semelhante com as condições impostas pelo nosso corpo. Tal qual a estrutura narrativa escolhida por Coutinho para escrever sua pesquisa, o corpo também já predetermina a sua absorção do conteúdo. Com base nos relatos dos Belarmino, ele defende, pela voz de Cravan, que a percepção do mundo exterior depende do funcionamento dos aparelhos sensitivos. Caso nossa sensibilidade sofra alguma alteração, a representação de mundo que faríamos também se transformaria. Na cegueira, por exemplo, ele constata que os objetos perdem suas condição passivas, sorrisos e olhares são percebidos como temperaturas e os sons ganham formas:

“Os sons deixavam de ser invisíveis. Demarcavam fronteiras e modelavam a forma de penetração dos sujeitos nos lugares, e dos lugares nos sujeitos. Agora eles podiam ser agudos e, de fato, cortar o vento, suspender os corpos, ferir o ar como uma faca sem cabo, apenas lâmina. Ou graves e afundar tudo sobre a terra. Quando constantes, como um motor de geladeira, eles eram sólidos como um muro. Quando irregulares e desprovidos de ritmo, eram pesados e abriam clareiras no ar:

– Quando uma fruta cai, abre-se um buraco no espaço. É como se ela me dissesse: “estou aqui”. Este buraco é para mim uma presença.” (CRAVAN, 2008, p. 94)

Mas esse corpo não chega a ser determinante e inteiramente confiável. Na página 47, quando descreve o funcionamento da visão, Cravan aponta para uma brecha dos nossos aparelhos sensitivos ao se referir ao ponto cego, uma área da retina desprovida de receptores visuais por ser este o local de onde surge o nervo óptico. O texto explica que esse buraco na visão é suprimido pelo nosso cérebro, que automaticamente cria seus rebocos para completar os vazios que não conseguimos enxergar. De certa forma, o processo de preenchimento é semelhante ao funcionamento da nossa memória, que também é abordado no livro quando Cravan recebe o telefonema do seu amigo de faculdade Clément Vaché. Como aponta Ecléa Bosi, aquilo que Cravan lembra motivado pela voz do amigo não é exatamente o que ele viveu no passado, mas uma recriação que ele faz com base na sua subjetividade do presente:

“Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas ideias, nossos juízos de realidade e de valor”. (BOSI, 1987, p. 55)

Se já não bastasse a menção a tantos vácuos para a escrita incorporada de Coutinho emoldurar, ele ainda observa o terreno movediço do nosso próprio processo comunicativo. Comparada à eficiência da transmissão de elementos químicos do roçar de antenas das formigas (CRAVAN, 2008, p. 123), a condição imprecisa das palavras como veículo da comunicação humana já se mostrava inviável. Somado às lacunas do nosso corpo, à diversidade de formações intelectuais, teóricas e culturais; então a comunicação entre os homens ganha tons de milagre. Isso porque o espaço que se abe entre cada ser humano é um abismo, que alarga ou diminui as distâncias de acordo com o volume de interseções das suas bagagens culturais. Como vimos anteriormente, um mesmo fato pode ganhar inúmeras interpretações porque cada um vai absorver e relacionar as informações da mensagem com suas vivências individuais. E quando, por exemplo, o precipício é entre cegos e videntes, a distância mede toda uma forma de construção do raciocínio lógico. Numa passagem das páginas 115 e 116, Cravan exemplifica o processo de codificação da linguagem verbal pelos deficientes visuais a partir do som do termo “banana”, que evoca uma forma curva, sem cor, mas dotada de tamanho e consistência. Com o acréscimo das palavras “verde” ou “amarelo” na mensagem, o significado para os cegos seria traduzido não como cores, e sim em termos de consistência: dura ou madura. Assim, para ele, as diferenças impostas pelos aparelhos sensitivos aos cegos e aos videntes na absorção do mundo pode ser comparada, respectivamente, com a linearidade do ato da leitura e a invasão simultânea que temos na observação de uma fotografia/pintura (CRAVAN, 2008, p. 112).

Mesmo que as distinções não sejam marcadas no corpo, por mais que se escreva, por mais que se teçam linhas negras e se costurem argumentos com citações respaldadas na comunidade acadêmica; os espaços em branco continuarão a existir nas entrelinhas. Como lembra Umberto Eco no livro Seis passeios pelos bosques da ficção, essa é uma condição essencial a um texto ficcional. Segundo ele, um autor não pode dizer tudo sobre o mundo criado, ele deve se apoiar em pressupostos, cabendo aos leitores este preenchimento (ECO, 1994, p. 9). E é justo nesse caminho prenhe de vazios que o texto de Coutinho procura se equilibrar. Porque, em Antão, o insone, o indizível é objeto e objetivo, a narrativa encurralada nas entrelinhas. O vazio, representado pelo branco das páginas “originais” pontilhadas do braille, ganha o significado de abismo, de limite para nossa capacidade de entender o mundo. Mas esse mesmo vazio também significa um convite à contemplação desse deserto, que se alastra entre as palavras, para enxergá-lo como uma tentativa de entender o próximo e observar que a realidade pode ser vista com outros olhos. Mesmo que eles sejam cegos.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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