Livro dos homens – Ronaldo Correia de Brito

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AVALIAÇÃO

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PRÓLOGO

Autor: Ronaldo Correia de Brito nasceu em Saboeiro, interior do Ceará em 1951. É médico formado pela UFPE e escritor. Em sua obra, destacam-se os livros de contos Faca, Retratos imorais e o romance Galileia, vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009.

Livro: Este é o segundo livro de contos de Ronaldo Correia de Brito publicado pela Cosac Naify. O projeto gráfico é ótimo, como é de praxe no caso da Cosac, contudo há de se pensar se tanto em Livro dos Homens, como em Faca, foi tão necessário assim marcar graficamente as raízes nordestinas dos contos. Encadernação e gramatura do papel também devem ser elogiadas.

Tema e Enredo: Memória, destinos trágicos e a relação entre mito e vida cotidiana são temas importantes nos contos.

Forma: Os contos são marcados por uma linguagem concisa e imagética, muitas vezes fragmentada. A estrutura do livro não procura dar uma unidade maior às histórias, que dialogam entre si por afinidades temáticas e estilísticas.

CRÍTICA

Escrito e honrado no livro

Não sei se consigo transmitir para vocês a sensação de novidade que o primeiro livro de Ronaldo Correia de Brito, o excelente Faca, me causou quando o li pela primeira vez em 2004. Durante muitos anos, principalmente depois de Galileia, sua literatura foi vendida como um “novo olhar para o sertão”. Hoje, no entanto, penso que seu grande mérito está menos numa visão renovada de um espaço social tão importante no imaginário do país – visão essa que, na ficção contemporânea, não é privilégio de sua literatura ter abordado -, mas sim na intensa força trágica que ecoa da sua narrativa. Os espaços na sua obra, aliás, são múltiplos: sertão, é certo, como também pequenas e grandes cidades. Associado a esse possível senso trágico, encontramos em sua escrita uma consciência crítica da presença do mito no mundo contemporâneo e um singular talento para a composição de imagens simples e fortes: uma lâmina se projetando no ar, um voz perdida numa ilha deserta, um potencial suicida cujo corpo oscila sobre uma ponte.

Junto com Sidney Rocha, Marcelino Freire, Rinaldo de Fernandes e Antonio Carlos Viana, a obra de Ronaldo chegou até mim em um momento no qual eu precisava não só definir que tipo de conto queria escrever e ler, mas também o que poderia significar escrever a partir de uma circunstância específica: o nordeste. A resposta que me foi dada por obras tão diferentes entre si foi uma só: a reafirmação da literatura como um radical espaço de liberdade criativa. No caso de Ronaldo, voltar a contar histórias – por que não? -, flertar com o fantástico e pensar de forma irônica o mosaico cultural nordestino me parecem traços fortes da sua obra até o presente momento.

Seu segundo livro de contos, Livro dos Homens, publicado em 2005, me causou um impacto menor do que Faca. O fato é que Livro dos Homens dá continuidade ao esboçado no primeiro livro, mantendo uma unidade de estilo, temática e espaços narrativos. Esta continuidade, contudo, não significa queda na qualidade dos contos, embora, revendo as duas obras tantos anos depois, daria uma vitória por pontos a Faca. Ronaldo Correia de Brito seria um escritor regionalista, como parte da crítica, à época de lançamento de seus primeiros dois livros, procurou classificá-lo? Não consigo ver na sua obra, nem nestes contos em particular, qualquer compromisso com um projeto de criação de uma identidade nordestina. Nem uma tentativa de vincular a região nordeste a uma explicação sobre uma suposta “alma” do Brasil. Por fim, não vejo no livro uma tentativa de formular uma imagem das expressões culturais sob o prisma sedutor do exotismo. Há sertão em suas histórias, bem como cidades pequenas e uma série de personagens – os vaqueiros, por exemplo – retratados com frequência na nossa tradição regionalista. A mera presença desses elementos, porém, é suficiente para o uso da palavra “regionalismo”? Cada crítico trabalha com seu próprio vocabulário e no meu caso não considero necessária a utilização deste conceito para entender a obra de Ronaldo Correia de Brito e de Livro dos Homens em particular. Por outro lado, mas esta não é uma conversa para agora, pode ser bem interessante refletir acerca do que pode haver de realismo mágico em sua obra, em especial no caso de uma comparação com as obras de Alejo Carpentier e Juan Rulfo.

Livro dos Homens mistura o rural com o mítico. A Bíblia, a mitologia e as tragédias gregas são referências fundamentais e Brito utiliza o substrato mítico para afastar a sua literatura do lado documental que existiu nos nossos diferentes regionalismos. Além disso, aproveita o imaginário popular nordestino e a literatura de cordel com suas histórias de trancoso, pelejas, aparições e malassombro, e enreda ambos com referências de outras manifestações literárias. É o caso do conto Rabo-de-burro, no qual uma presença maligna, que não sabemos se é uma assombração, ou um psicopata, persegue uma mulher numa cidade do interior, ou da pequena obra-prima Lua Cambará, presente no livro Faca.

Em Livro dos Homens, o sertão se afoga no mar da modernidade, da globalização. Desta tensão, surge uma ambiguidade: o maravilhoso se infiltra em algumas experiências cotidianas – como na visão dos milhares de rostos que compõem o Uno, o Rosto Amado, em Milagre em Juazeiro –, mas não temos certeza se um fenômeno sobrenatural de fato aconteceu, ou não. No desfecho de Maria Caboré, a realidade do delírio é contraposta aos atos dos médicos que querem salvar a protagonista da morte; em O amor das sombras, a morte de um dos personagens, descendente de índios desenraizado pela vida moderna do Recife, é descrita assim: “Os olhos abertos numa derradeira claridade de lucidez, rasgando as cortinas paralistantes dos narcolépticos para ver, num clarão divino, o carcará que era sua alma deixando o corpo e subindo ao céu, onde se transformaria em estrela”. A lucidez, neste trecho, não é causada pelo remédio psiquiátrico, mas pela comunhão com um possível lado espiritual da existência. Importante frisar não existirem só referências a mitos bíblicos, ou greco-romanos, mas também a lendas e costumes indígenas, como é o caso dos contos A peleja de Sebastião Candeia e O amor nas sombras, ou a mitos afrobrasileiros, em Maria Caboré.

Se o mito e vida cotidiana se tensionam, Livro dos Homens formula uma segunda dicotomia, a tensão, frequente em nossa literatura, entre os mundos rural e urbano. No já citado Milagre em Juazeiro, entram em conflito, por exemplo, o discurso modernizador do médico Afonso com a fé tanto da sua esposa Antonia, quanto dos romeiros peregrinos do Juazeiro. No conto Livro dos Homens, a tensão rural x urbano se realiza no contraste entre a Lei “natural” do sertão, aprendida pelo costume, e a lei oficial dos homens da cidade, falha e perniciosa. É possível dizer, aliás, que nesse conto encontramos certa idealização do rural, visto como espaço no qual se preservam valores “puros” e não deturpados pela civilização, perspectiva, contudo, não encontrável nos outros contos de Livro dos Homens.

Reencantar o mundo através de suas ficções é um compromisso assumido por poetas e escritores. Mas, de igual modo, pelos personagens de Livro dos Homens. No conto O que veio de longe, um corpo é encontrado no rio, perto de uma aldeia. Ao redor do cadáver desconhecido surge uma narrativa mítica: os habitantes começam a considerá-lo um santo. Um dia, quando um visitante revela a verdadeira história do morto, os aldeões escolhem ficar com a própria narrativa que urdiram – o visitante é silenciado pela cidade, sendo assassinado pelos seus habitantes. Posicionando este conto como o primeiro do seu livro, é possível interpretá-lo como uma profissão de fé do próprio autor na força da ficcionalidade. Não por acaso, no seu livro seguinte, Galileia, Ronaldo Correia de Brito mais uma vez discutirá a importância da ficção para uma memória coletiva, desta vez enfocando a trama de rancores, desejos e mortes da família a qual pertence seu protagonista Adonias.

Por fim, destaco um último tema importante, que permeia tanto Faca, quanto Livro dos Homens: a morte. No livro Faca, a violência e a morte se encontravam muito mais próximas e evidentes. Em Livro dos Homens, a representação de atos de violência diminui e a morte aparece mais como uma ameaça, ou motivo de angústia, do que como um golpe súbito e inesperado. O mítico, o mágico, o rural, o racional, o urbano, a lei: tudo é atravessado pela morte, contudo. Em um dos seus melhores contos, Qohélet, trechos do Eclesiastes são usados ora para duvidar da possibilidade de vida após a morte – “Tudo vai para um só lugar/Tudo veio do pó/E tudo volta ao pó” – ora para confirmá-la – “E o pó voltará à terra tal qual era/E o sopro irá de volta/a Elohim que o deu”. É por colocar diante do leitor perguntas como esta que Livro dos Homens mantém sua relevância.

Relido em Out. de 2014
Escrito em 08.10.2014

FICHA TÉCNICA

Livros dos homens
Ronaldo Correia de Brito
Cosac Naify
1a. edição, 2005
176 p.

TRECHO

“Teciam com palavras inúteis o tempo que ficavam ao nosso lado. O mundo semelhava mais distante para os prisioneiros das enfermarias sujas de um hospital público, à altura da nossa pobreza. Pavilhões e andares habitados por mortos-vivos, perambulando com o catarro no peito e a escarradeira na mão. A tuberculose debilitava o ânimo, os labirintos desfaziam a esperança. Quem não morria da doença afundava na tristeza. Precisava inventar uma fé, arrancar do fundo da alma um gosto, uma vontade esquecida. Lá na meninice, talvez”

EPÍLOGO

Ligação

A história do conto O que veio de longe aparece primeiro no conto Faca e é reutilizada no romance Galileia.

OUTRAS OPINIÕES

Patrícia Rufino de Carvalho; Juliana Santini

(http://www.prp.ueg.br/06v1/conteudo/pesquisa/inic-cien/eventos/sic2008/fronteira/flashsic/animacao/VISIC/arquivos/resumos/resumo138.pdf)

 “A obra correiana é permeada de traços da literatura regionalista tradicional, a construção do espaço se dá por meio de um ambiente ainda governado pelo cultivo de costumes tradicionais, seja na economia, na religião e na família a respeito do modo de vida do homem sertanejo diz Darcy Ribeiro (1995, p. 355) “Suas duas formas principais de expressão foram o cangaço e o fanatismo religioso, desencadeados ambos pelas condições de penúria que suporta o sertanejo […]”. As famílias representadas por Correia ainda conservam 6 a tradição em que a mulher nordestina desempenha o papel de pai e mãe ao mesmo tempo por longos dias ou anos, mulheres que vivem exclusivamente para administração do lar”

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Faca – Ronaldo Correia de Brito

Galileia – Ronaldo Correia de Brito

Retratos imorais – Ronaldo Correia de Brito

Crônicas para ler na escola – Ronaldo Correia de Brito

Estive lá fora – Ronaldo Correia de Brito

Entrevistas

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito ao Vacatussa (outubro de 2014)

Entrevista de Ronaldo Correia de Brito sobre Retratos imorais (agosto de 2010)

Links relacionados

Site do autor: Ronaldo Correia de Brito

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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