A marca do pênalti – Homero Fonseca

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Agora é a minha vez. Levanto do banco e vou devagar para a grande área. Está quente, sinto um estranho cansaço. Eu quase não venho a essa Copa do Mundo, entrei no sacrifício e dei conta do recado, sim, claro. Contra a Nigéria, mesmo, foi isso. Saí como herói do jogo. Estávamos praticamente derrotados, fiz o gol de empate faltando um minuto pra terminar. Prorrogação. Recebo a bola, vejo Benarrivo correndo em direção ao gol, paro na quina da área, levanto a bola com precisão sobre os dois negros esbeltos à minha frente, Benarrivo se infiltra para receber, é derrubado. Pênalti. Cobro firme, seco, à meia altura, no canto direito. O goleiro deles pendeu para a esquerda, deu um stop querendo voltar desesperado, mas a bola já estava estufando a rede. Não tem segredo. Mas, agora, nesse momento, perante milhões de olhos me observando, é como se tudo que fiz antes não importasse, tudo está zerado. O goleiro brasileiro tem fama de pegar pênalti, já defendeu a cobrança de Massaro. E Baresi chutou para fora. Taffarel, o nome dele é italiano, está com a faca e o queijo na mão. O pênalti é problema do cobrador, não do goleiro. Quem cobra é quem tem a obrigação de fazer o gol. Vamos vencer, devemos vencer é o ensinamento do Soka Gakkai, está aqui, no meu bracelete, em ideograma japonês. Mas pela primeira vez, parecem palavras… nada mais. Estou com medo? Não, nunca tive medo. Não levo desaforo pra casa. Não me curvo para os cartolas. Não bajulo os tifosi. Realmente, não tenho medo, mas sinto algo estranho no ar, me sinto estranho. Olho rapidamente para o árbitro, Signore Sándor, o rosto dele não tem nenhuma expressão. Está na dele. Evito encarar Taffarel, que me olha insistentemente com um misto de curiosidade e determinação, na certa querendo adivinhar onde chutarei e também tentando me assustar porque já defendeu um e perdemos o outro. Não fico encarando para não dar bandeira e também porque me é indiferente. Isto é esquisito, essa indiferença. É como se tudo já estivesse terminado. Meu joelho dói, mas não direi nada a respeito, vão dizer que é desculpa. O árbitro me entrega a bola. Recebo nas mãos um estranho objeto esférico, áspero, opaco, pesado. O que é isso, meu Deus?! Desde pequenininho, lá em Caldogno, no corredor da casa do velho Fiorindo, dei meus primeiros passos correndo atrás de uma bola… Mas agora ponho esse objeto sobre a marca branca e, por um segundo, não sei o que farei. Devo estar tendo uma vertigem, isso não é normal. A multidão da arquibancada estará percebendo alguma coisa? Levanto a bola e, não sei porque, limpo o chão com mão esquerda e coloco-a de novo na marca, mas não adianta nada… é como se fosse uma inimiga!!! Isso não existe, eu estou sonhando, é um pesadelo, esses milhões de olhos não estão postos em cima de mim neste exato instante, deve ser um sonho ruim durante o cochilo antes do jogo. E esse silêncio! Há milhares de torcedores aqui, gente de todo o mundo, uma porção de italianos e brasileiros… e tudo calado! Ora, é uma decisão! Arre. Caminho de costas até a meia-lua da área. Não precisei fazer isso contra a Nigéria. Avancei e chutei e pronto! Por que agora recuo tanto? Procuro me concentrar, praticar o Sanscho. Andreina está me vendo nesse exato instante. Diante da televisão, me aponta para Valentina, talvez ela esteja acordada apesar da hora: Olha o Papà! Olha o Papà! Valentina não entende ainda do jogo, Mattia menos ainda, é só um bebezinho, mas Valentina provavelmente já sabe que é uma coisa importante. Sabe que seu pai não é qualquer um. Contra a Nigéria, contra a Espanha e contra a Bulgária meus gols salvaram a Azzurra, ninguém nega, Andreina me telefonou no dia seguinte à vitória na semifinal e leu a manchete de La Gazzeta dello Sport: “Roby Baggio abate a Bulgária = 2 x 1”. Esse sou eu, cazzo! Dou sete passos em direção à esfera pousada na grama, o coração de Andreina bate feito um tambor, os olhos de Valentina estão fechados, Mattia dorme no berço, na casa do Velho todos roem as unhas. Bato na bola com raiva. Ela sobe, sobe, sobe, e então o silêncio do estádio se rompe num Oooooh! de milhares de gargantas, ecoando no mundo todo, em tudo que é lugar, em toda piazza da Itália. Che cazzata! O goleiro sai correndo como um louco em direção aos companheiros. Os brasileiros gritam, se abraçam e se amontoam atrás, não me viro pra ver, mas ouço a balbúrdia, para onde todas as câmeras se voltam. Estou só na marca do pênalti, numa bolha de escuridão e silêncio. De herói a vilão, manos, a distância é zero e o tempo, uns poucos segundos.

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Sobre o autor

Nasceu em Bezerros-PE, em 1948. É jornalista e escritor. É autor, entre outros, do livro-reportagem Tapacurá: viagem ao planeta dos boatos (1996), o romance Roliúde (2007) e da novela À espera do tio Alois (2016).

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