Entrevista com Mario Bellatin sobre o livro Cães heróis

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Em seus livros, o escritor mexicano Mario Bellatin quase sempre volta aos mesmos assuntos; uma excêntrica proposta literária sobre corpos mutilados ou geneticamente modificados em busca de crenças religiosas e formas alternativas de satisfação sexual. Em Cães heróis (Cosac Naify), o autor reforça a aparente preferência por histórias curtas que parecem conter na brevidade uma estranha intensidade. Mais uma vez a editora, que em 2009 lançou o ótimo Flores, criou um projeto radical: ausência de capa, lombada exposta, livros envoltos em sacos plásticos. No enredo acompanhamos a misteriosa história de um “homem imóvel”, preso a uma cadeira de rodas, dono de 30 cães pastores belga malinois treinados para atacar a jugular de visitantes indesejados. Ele mora com a mãe e a irmã, ocupadas fazendo um trabalho aparentemente inútil: catalogar sacolas plásticas vazias para depois entregar a um grupo não identificado, além de um enfermeiro-treinador de cães, com quem o homem imóvel mantém uma curiosa relação de poder que envolve ter suas coxas massageadas e dividir a cama durante certas noites de tensão. Esse estranho relato é comentado por Bellatin nesta entrevista, em que o autor explica motivações e comenta técnicas de escrita.

O estranho mundo de Mario Bellatin

HUGO VIANA | Seus dois livros lançados no Brasil pela Cosac Naify possuem um projeto editorial radical, tanto na brochura quanto nos textos. Gostaria de saber primeiro se você fornece indicações para as editoras de outros países sobre como deve ser a versão final do livro, e em que medida, neste lançamento, essas intervenções são importantes para a narrativa.

MARIO BELLATIN | Uma das razões para me sentir tão contente ao ser publicado por uma editora assim é precisamente porque cada edição tem uma proposta única. Sempre procuro que meu trabalho seja apenas uma plataforma para que outros possam fazer seu próprio projeto artístico. É o que ocorre quando se realiza alguma adaptação de meus livros a outros meios, ou inclusive quando um leitor reconstrói seu próprio livro depois da experiência de leitura. Assim como quando eu vou ao teatro ver uma adaptação de algum texto meu, a chegada de um livro editado pela Cosac Naify é uma verdadeira surpresa.

HV | Em Flores, no começo do livro, você escreve sobre “uma antiga técnica suméria”, comentando a “construção de estruturas narrativas complexas a partir da soma de determinados objetos que, juntos, compõem um todo”. Autêntico ou não, esse trecho sugere como fruir o livro. Pela ausência de parâmetros, Cães heróis parece uma obra mais ousada. Como chegou a essa estrutura?

MARIO BELLATIN | Essa “antiga técnica suméria” é um invento que me serviu para justificar aquele livro que tem a forma de um buquê. No caso de Cães heróis, por se tratar de uma experiência real – nada do que está escrito é produto da ficção, e sim de uma experiência que vivi uma certa tarde na Cidade do México -, eu senti que era mais necessário do que das outras vezes ressaltar os vazios, os silêncios, o que não pode ser dito através de palavras. Foi a primeira vez que um texto não foi criado inteiramente em meu gabinete de trabalho, e sim pela própria realidade esmagadora.

HV | Muitos aspectos do enredo de seus livros não são detalhados. A sensação é de que algo permanece em segredo. Uma atmosfera de desespero iminente que surge através de metáforas. Como você enxerga esse recurso, em que dados são apresentados mas nunca realmente explicados?

MARIO BELLATIN | Me parece que existe uma espécie de jogo no feito de não detalhar o que supostamente se deve detalhar e se deter mais da conta em aspectos na aparência banais. Creio que isso produz algo como um estranhamento no mundo que se está descobrindo. Desse modo o leitor se sente num espaço que lhe parece conhecido, mas que ao mesmo tempo adverte que funciona de maneira diferente do mundo que ele conhece todos os dias. Eu utilizo esse recurso duplo como um mecanismo de sedução. Trato de prever qual será a reação do leitor ao passar de uma linha para a outra. De algum modo me converto enquanto escrevo numa quantidade infinita de leitores.

HV | Numa das metáforas, você escreve, sobre o quarto do protagonista, que os visitantes “intuem uma atmosfera que guarda relação com o que se poderia considerar o futuro da América Latina”. Gostaria que você falasse sobre as possíveis leituras políticas desta história, e seu interesse em falar sobre a América Latina usando este “homem imóvel”, imagem que parece carregada de simbologia.

MARIO BELLATIN | Acabo de tornar público que não existem “as antigas técnicas sumérias”, não quero ainda mostrar as leituras políticas que podem caber em Cães heróis. É um trabalho que quero deixar para o leitor, por hora. Uma vez que conte com diversas formas de abordar o tema arquivarei um diálogo a partir dos distintos pontos de vista. Já tenho várias opiniões e teorias dos leitores, muitas delas assombrosas, e preciso como autor, para seguir escrevendo, receber de vez em quando a voz do outro lado.

HV | Nesses dois livros, os personagens têm corpos mutilados ou geneticamente modificados, e isso parece em excêntrica sintonia com uma busca por religiosidade e uma atração sexual fora padrão socialmente aceito (travestis, gays). Gostaria que falasse sobre o cruzamento reincidente em suas histórias entre corpo, sexo e fé.

MARIO BELLATIN | É verdade. Há pouco foi editada uma compilação com quinze textos meus e percebi, com algo de estranheza, que essa constante estava presente em quase todos. Corpo, sexo e fé, mas todos eles alterados, fora da lógica do normal. Quando vi que isso era certo fiquei surpreso. Compreendi que estava tão absorto na construção dos livros que esses elementos estavam sendo criados sem que eu tivesse uma consciência plena de sua existência.

HV | Você já ministrou oficinas literárias. Como enxerga a criação de uma história, os métodos ou técnicas para desenvolver um enredo? Seu texto parece muito mais intuitivo, em que algo inesperado surge não necessariamente por seguir determinadas técnicas, mas por um forte desejo de contar uma história…

MARIO BELLATIN | As técnicas ou se inventam no momento da escrita ou não serão efetivas. Ao menos não para realizar um texto literário. Com “literário” me refiro a um texto absolutamente fiel a si mesmo. Me emociona o momento em que se deve utilizar qualquer recurso para sair incólume de determinada situação. É o que faço com as sessões de escrita que de vez em quando realizo. Reúno uma média de dez participantes, e em cinco dias devemos ter pronto um livro que nenhum dos assistentes, e menos ainda eu, tínhamos ideia antes de começar. Há pouco fiz uma experiência semelhante no Rio de Janeiro, da qual apareceu um livro publicado chamado Circunvago.

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Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

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