Mate-me por favor – Legs McNeil e Gillian McCain

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Até onde vai a arte? O que seria do rock n’roll sem todas aquelas histórias que envolvem drogas, sexo, loucura e violência? A arte por si só está cada vez mais em desuso, a arte hoje precisa de muletas, seja um conceito, um manifesto, um estilo, uma crítica favorável, uma polêmica. O rock n’roll precisa de heroína na veia, brigas, groupies e junkies.

Mate-me por favor vem justamente para preencher essa lacuna. O livro é recheado de fofocas e lendas feitas a partir de depoimentos das pessoas que viveram e construíram o movimento punk. O grande mérito do livro é não apenas se basear nos relatos, mas utilizá-los, construindo um intricado jogo de vozes que se completam. É como se fosse a transcrição de um documentário. Mesmo com essa multiplicidade de narradores, as histórias se encaixam evidenciando o excelente trabalho de edição, organização e montagem. Apesar disso, não é a versão dos autores, são os próprios artistas, empresários, jornalistas e groupies que contam suas versões e segredos sobre fatos que se tornaram lendas. Tudo vindo diretamente dos bastidores do punk.

O interessante é que assim, o livro preserva o clima de camaradagem da cena, os ídolos não são vistos como ídolos, mas como pessoas que interagiam e freqüentavam os mesmo lugares de quem dá os depoimentos. É possível ver Lou Reed ou David Bowie não protegidos pela aura dos ícones que se tornaram, mas como um brothagem da galera. Um prato cheio para os fãs. As loucuras são tantas que parece haver uma disputa para ver quem é o mais pirado. Sem dúvida Iggy Pop, Dee Dee Ramone e Sid Vicious estão entre os finalistas.

Mas nem só de fofocas e histórias junkie sobrevive Mate-me por favor. Vai além dos relatos para os fãs, existe um conteúdo histórico e sociológico também, onde se explica a fúria do punk. Aborda desde a Factory de Andy Warhol e o começo do Velvet Underground, ao glam rock e início do punk com o MC5, Stooges, New York Dolls, passando por Television, Ramones, Blondie e chegando aos extremos da versão inglesa para o punk com Malcom McLaren, Sex Pistols e The Clash.

A leitura apóia-se na oralidade e segue uma fluidez que se quebra às vezes pela falta de conhecimento sobre os personagens/narradores, que são muitos e acabam se perdendo ao longo do livro. Para ajudar, no fim do livro existe um índice de apresentação dos personagens, o problema é ele não vem em ordem alfabética.

Thiago Corrêa
lido em Jan./Fev. de 2005
escrito em 12.02.2005
 
: : TRECHO : :
“Dee Dee Ramone: (…) De repente eu tinha uma enorme quantidade de speed na minha mão. Comecei a cheirar feito um louco. Fiquei muito louco. E então vi Sid, e ele disse: ‘Você tem alguma coisa pra se chapar?’ Eu disse: ‘Yeah, tenho speed.’ Então Sid sacou um kit de apetrechos, botou um punhadão de speed na seringa e daí enfiou a agulha na privada, com todo o vômito e mijo, e encheu. Não pôs no fogo. Só sacudiu, enfiou no braço e saiu do ar. Fiquei só olhando pra ele. E eu que até ali achava que já tinha visto de tudo. Ele olhou pra mim meio zonzo e disse:’Cara, onde você conseguiu essa coisa?’ ” (p. 250)

: : FICHA TÉCNICA : :
Mate-me por favor
Legs McNeil e Gillian McCain
Trad. Lúcia Brito
L&PM, 1a. edição
443 páginas

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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