Menina sim, Menina não – Mariana Paiva

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Acordou pelo ouvido treinado de mãe. Do quarto ao lado, as vozinhas conversavam, os pés tocavam o assoalho. Sabia de tudo o que se passava sem precisar ver: as meninas tinham acordado.

No criado-mudo, não havia despertador. Ela se levantou meio mole, camisola fina até o tornozelo, os pés nas pantufas que esperavam ao lado da cama. Foi até o quarto ao lado para ver as filhas. Não era de beijos e de abraços. Seu carinho era a própria vida que tinha dado (e ainda dava) a elas: levantar cedo, esquentar água pro café, molhar o pedaço de pão dentro da xícara. Muito leite e muito açúcar. Eram essas suas doçuras de mãe.

Nada diferente naquele dia. As duas meninas brincando durante o banho, o cheiro de alfazema no ar, os cabelos esvoaçantes domados pelo pente. A mais velha e a mais nova em vestidos floridos, os pezinhos calçados na sandália de passear. Estavam felizes, as três.

O ferrolho passado no portão, a bolsa endireitada para não cair do ombro, uma menina em cada mão. Era um dia de sol e queria dar uma passada na loja da esquina, ver as novidades.

Caminhavam as três pela calçada em silêncio. Aquele instante fugaz em que a mão já não segurava nada, ia de encontro ao ar. A mãe andando de mão dada ao vento. O carro passando depressa (de que modelo teria sido? o motorista parou? havia mais gente na rua?).

A menina no chão. A outra ainda segura pela mão. O que fazer com uma menina sim e uma menina não? Como contaria aos vizinhos, como avisaria na escola que a menina maior não iria mais? O que faria com aquela cama arrumada antes de sair de casa? Como seria agora que havia uma menina sim, uma menina não, onde antes havia duas meninas sim?

Menina sim

Lembrava sem lembrar talvez. É que, de tanta repetição, ela terminava sabendo. Era só um passeio igual a todos os outros: ela e a irmã de banho tomado, vestidos costurados pela mãe na máquina Singer. Algodão e alfazema.

Um passeio como os outros e um grito. Nunca tinha ouvido a voz da mãe daquele jeito. Parada no meio da rua e com o olhar perdido, ela pedia socorro. Caminhão carro alegórico táxi ônibus trem do subúrbio carro de bombeiro viatura. Ambulância. Qualquer coisa que a levasse dali. A menina pequena via a mãe precisando pela primeira vez. Não dava colo, não oferecia nada. A mãe olhou para a menina pedindo. Foi só um instante, mas disso ela lembrava. Só disso.

A menina sim ia ficar no lugar da menina não. Naquele instante, a mão no vento o carro veloz menina no chão, a outra menina virou a mais velha. Era pequena e cresceu ali, de repente, no meio da rua. Fez 18 anos tendo quatro. Podia dirigir, responder criminalmente, ter título de eleitor, conta em banco.

Quando virou a menina sim, ela cresceu (e é isso mesmo que explica a cara de adulta em suas fotos de criança).

Menina não

Tinha seis anos e se chamava Denise.

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Sobre o autor

Nasceu em Salvador-BA (1983). É escritora, jornalista e doutoranda em Teoria e Crítica Literária na Unicamp. Publicou os livros Canto da Rua, Damário Dacruz: um homem, uma surpresa, Lavanda e Barroca. Instagram: @marianapaivaescritora.

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