Minha mãe, poesia e budismo

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Em memória de Valéria Pasta

Há poucas semanas, uma amiga me escreveu pedindo um livro sobre o Budismo emprestado. Como eu não tinha certeza se ela lia também em inglês, busquei em minha biblioteca um livro traduzido para o português. Não eram muitos a escolher. Selecionei, então, a obra do professor shambhaliano Jeremy Hayward, Mundo Sagrado. Surpresa, encontrei algo bastante precioso dentro: anotações de minha mãe feitas durante um curso de Shambhala, em 2013.

Intitulado “Drummond, dralas e eu… uma experiência mágica”, minha mãe narrava seu sonho com Carlos Drummond de Andrade e como essa vivência fizera com que ela despertasse para uma avalanche de percepções sobre si mesma, sobre meditação e Budismo e sobre a realidade da vida.

A palavra drala vem do sânscrito e significa acima (la) do inimigo ou agressão (dra). Em Shambhala (que tem origem das linhagens budistas Kagyü e Nyingma do Tibete), esse termo é utilizado para fazer referência à conexão que temos com nossa sabedoria inerente, que é associada ao poder das coisas tais como elas são e ao poder de viver no momento presente.

Sempre faço associações do Budismo com a poesia. Para mim, é impossível, por exemplo, falar de Cecília Meireles e não refletir sobre os vastos ensinamentos budistas que aprendi ao longo de minha trajetória em Shambhala. Quanto mais leio Cecília, mais vejo esses ensinamentos sendo transmitidos na forma poética. E quem vai me dizer que o Budismo não é, também, poesia?

Gênero propício a uma investigação interior, a poesia permite que o poeta compartilhe com seus leitores caminhos para lidar com os acontecimentos da vida, que ocasionam muitas vezes dores e traumas. Neste sentido, Cecília Meireles é um grande exemplo do equilibrar da vida: “Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta./ […] Sei que canto. E a canção é tudo”.

Sábia, a poeta já compreendia a efemeridade da vida e nos ensina a levá-la com tamanha leveza, sem nos preocuparmos com o passado ou com o futuro, repousando no momento presente e sentindo a coexistência dos elementos que nos permeiam e fazem parte de nós. Em seu encontro com Drummond, minha mãe e ele discutiam sobre a não dualidade que há entre forma e conteúdo poético – assim como entre a matéria e o corpo.

No Budismo, acredita-se em não dualidade das coisas, pois tudo se origina do estado primordial da mente. Tal teoria pode ser encontrada nos ensinamentos Theravada sobre a vacuidade: tudo o que existe é uma representação momentânea de combinações de formas, sons e sensações. Pode-se, por meio da prática de meditação, que tem como objetivo repousar no momento presente, experienciar a vacuidade. Acho que muitos poetas compreendiam essa teoria sem nem mesmo tê-las conhecido.

É certo que minha mãe teria preferido encontrar Caeiro a Drummond. O heterônimo de Pessoa muito mais tem a ver com a filosofia budista do que a dureza e esperteza do escritor de A Rosa do Povo. Mas, para mim, Drummond expressa algo com o que tenho de conviver todos os dias: o ter “apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. Com certeza, esse sentimento é fruto de minha educação, que, mais tarde, fui entender a partir de meus estudos em Shambhala – era compaixão. Não por acaso, acredito, minha mãe alude em seu texto um “lembrete” que Valéria Pasta, a quem muito devo meu despertar para o Budismo, haveria lido em um determinado momento. Era de Drummond: “se procurarmos bem, não acharemos a explicação da vida, mas a poesia que há em tudo que nos rodeia”.

Quiça eu não tenha encontrado um pedaço da poesia da minha própria vida… Há uns 7 anos, fizera eu meu primeiro retiro de longa duração, em um centro de meditação na região central da França, momento em que que firmei meus votos budistas a partir de uma cerimônia bodhisattva com o professor Jeremy Hayward, de quem recebi uma extraordinária e simples lição de vida – que a tristeza, muitas vezes, chega acompanhada pela virtude. Passei, então, a me deixar levar mais pela compaixão e a entender que sorrir tem seu valor e é um dos mais belos gestos que um ser humano pode exercer.

Acho que, no fundo, o que minha mãe tentara exprimir era o “decifrar das coisas importantes”. Acho que ela “queria entender do mêdo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar o corpo ao suceder”, como diria Guimarães Rosa. Para meu contentamento, conheci pessoas ao longo da minha vida que me deixaram (e deixam) um legado poético bastante extenso… E, assim, poderei viver plena: como menciona Mia Couto sobre Guimarães, o contador de histórias deixou-nos uma incurável doença de sonhar. Sonharei. Sempre.

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Sobre o autor

Realiza pesquisas sobre as relações entre poesia e o sagrado. Atualmente, conclui a o curso de Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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