Mulher e Touro – jyan

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ela atravessava a rua naquele momento com a força e a confiança de quem carrega um touro nos ombros. parecia que ali, no meio da rua, aquela mulher iria explodir em milhares de pedaços e se transformar em uma coisa outra. ela só repara, só parece cair em si sobre os perigos que a rodeiam, quando um retrovisor passa raspando pela sua bolsa grande e vermelha. a bolsa parece atulhada de cabeças que ela mesma coletou durante os anos – as de seus queridos, suas queridas. os olhos, também vermelhos, de raiva ou de pavor, mais provavelmente de raiva, não saltam sobre as órbitas pois, naquele momento ela sabe exatamente o que está fazendo, apesar de parecer descontrolada aos olhos das pessoas que a estão vendo, do outro lado da rua, no ponto de ônibus. ela não liga para aqueles, são nada, ela não os nota. de repente, para no meio da rua. encara o touro, amarelo, numerado na testa 314, o nome, mangueira, a única palavra que ela tinha visto em dias. parada, esperando o movimento do bicho, ela parece ver uma daquelas pessoas que continuam observando a cena, todas suspensas, como se tivessem sido perfeitamente coreografadas e o comando da dança fosse prendam a respiração. sacode a bolsa como se fosse uma medalha de honra por ter sobrevivido à guerra, ao caos. o touro avança, percebendo o alvo na sua frente, uma ameaça que, ele sabe, talvez não venha a ser cumprida. ela tinha se petrificado ali, apenas aguardando o momento de liberação e beleza que seguiria ato contínuo à investida do animal. do outro lado, as pessoas parecem agitadas, parecem procurar saídas e soluções, se vestem de toureiros mas sabem, ou no mínimo imaginam, esperam, torcem para que o animal não cumpra sua lida. as faces contorcidas de horror assumem um aspecto de feiura assustada; uma nuvem de chuva chega para olhar a imagem da hecatombe. a mulher agora, pacientemente, bate o pé direito e chacoalha a bolsa e os cabelos. muge biiiiii e mais uma vez, bufando, desesperado pelo movimento. alguém corre para salvá-la, para lhe dizer palavras razoáveis e reconfortantes. quando chega perto grita que tu tá fazendo aí? tá doida menina? a mulher, de soslaio, cospe na direção do invasor. tão chamando a polícia, menina, sai daí enquanto é tempo. uma manada se ajustava atrás do primeiro valete. o estouro e a tempestade já estavam prontos para se derramar em cima daquela fotografia divina. ela abre a bolsa. uma cabeça de um homem salta de lá de dentro e rola até o meio do caminho entre ela e aquela figura, que já ensaiou sua saída da cena. impassível, a mulher sai de sua própria estátua, sobe na calçada e segue seu caminho, assim como o touro.

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Sobre o autor

Nasceu no Recife-PE, em 1993. É formado em Cinema e Audiovisual pela UFPE. Trabalha com filmes e mostras de cinema como produtor e produtor executivo. Este é o seu primeiro conto publicado.

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