Na contramão do mercado

0

Nos últimos anos surgiram editoras que têm como meta lançar livros apenas no formato digital; assim, sem o produto impresso, que ainda possui grande peso na cultura literária, o orçamento é menor e o alcance continua com possibilidades amplas. No fim de 2014 aconteceu um movimento inverso: nasceram novos projetos de resistência, baseados exclusivamente no livro impresso, com catálogos que atendem gêneros, estilos e autores importantes e pouco vistos no mercado editorial brasileiro. Três delas parecem bem organizadas: a carioca Rádio Londres, a Poetisa e a Mundaréu – ambas de São Paulo.

São projetos com origens parecidas: nascem por paixão pela literatura e percepção de lacunas no mercado editorial. “A literatura sempre ocupou um espaço grande na minha vida”, diz Silvia Naschenveng, que dirige a Mundaréu com Tiago Tranjan. “Tiago é professor de filosofia da Federal de São Paulo, especializado em lógica, e sempre lamentou os buracos bibliográficos em sua área. Textos importantes permanecem sem tradução. Uma das motivações para abrir a editora, então, é a de tornar disponíveis em português obras de alcance cultural, mas não necessariamente com apelo comercial”, destaca.

“Um conjunto de fatores nos dirigiu à decisão de abrir uma editora”, destaca Cynthia Costa, que gerencia a Editora Poetisa com Juliana Bernardino. “Nós já trabalhamos em editoras e, em 2008, abrimos uma empresa de prestação de serviços editoriais. Como sou doutoranda em Estudos da Tradução na UFSC, tenho contato com traduções feitas na academia, sem intuito de publicação. Conversei com Juliana: e se publicássemos as mais interessantes? Acho que há muito trabalho produzido na universidade que merece ser compartilhado. Em agosto de 2014, decidimos publicar traduções, começando por ‘Bela e a fera’, traduzido por uma professora da UFSC, Marie-Hélène C. Torres”, explica.

São três projetos que possuem perfis editoriais bem definidos, atraindo interesse por se localizar no mercado editorial de forma clara e instigante, preenchendo espaços com livros inéditos ou novas versões especiais para clássicos. A Mudaréu lança livros de filosofia e literatura – especialmente “a produção europeia da primeira metade do século XX”, explica Silvia Naschenveng. “Mas queremos também publicar autores latino-americanos importantes que se encontram fora de catálogo ou ainda são desconhecidos no Brasil”, ressalta.

A Poetisa define seu catálogo a partir de algumas questões básicas – colocando a tradução como peça chave: “Escolhemos com base na qualidade do texto original e nos projetos tradutórios: a obra merece ser traduzida (ou retraduzida)? De que maneira o tradutor pretende vertê-la? Nosso objetivo é oferecer ao público – adultos e crianças – traduções bem pensadas Além disso, temos preocupação com o suporte, o livro físico. Estamos nos dedicando a produzir belas edições, com ilustrações inéditas, de modo a valorizar o texto e enriquecer a leitura”, explica Cynthia.

Na Rádio Londres, é o editor e fundador, o italiano Gianluca Giurlando, que escolhe os livros. A seleção segue alguns conceitos: “Romances de escritores emergentes, principalmente de língua inglesa, consagrados por leitores e crítica, como ‘Estação atocha’, estreia aclamada no New York Times do americano Ben Lerner; livros latino-americanos inéditos no Brasil, como ‘Viva a música’, de Andrés Caicedo; e obras de escritores europeus. Nessa primeira fase demos atenção à literatura da Holanda, país pequeno, mas de enorme tradição literária”, explica o editor.

Gianluca decidiu trazer a Rádio Londres para Brasil porque notou no mercado do país espaço para editoras independentes dedicadas a ficção internacional. “Acreditamos que o mercado editorial brasileiro é ainda jovem e cheio de oportunidades”, opina Gianluca. “Existe no Brasil uma nova geração de leitores curiosos, cosmopolitas e interessados em livros de autores nunca antes traduzidos: esse elemento, juntamente a tradicional falta no Brasil de editores independentes de médio porte e alta qualidade, gera uma combinação interessantíssima”, destaca.

Mesmo com conceitos definidos, essas três empresas independentes enfrentam dificuldades recorrentes do mercado – como a distribuição – e a concorrência das grandes editoras, que disponibilizam maiores tiragens e best-sellers em seus catálogos. “O mercado editorial brasileiro é, em sua maior parte, refém de best-sellers e de livros adotados pelas escolas”, opina Cynthia. “Trata-se de um reflexo do país, que lê muito menos do que gostaríamos. Isso não significa, porém, que não haja espaço para propostas independentes. Acreditamos que, de pouquinho em pouquinho, talvez possamos influenciar o público”, indica.

A editora da Mundaréu nota uma movimentação maior no mercado independente. “Nos últimos anos, em meio à consolidação de grandes editoras, surgiram muitas menores e com propostas específicas. Considerando as características do mercado, acreditamos que a situação seja mais de cooperação do que de concorrência – principalmente editoras com perfil semelhante ao nosso. O ideal é que o mercado cresça, que o número de leitores e a média de leitura aumentem, de forma que haja espaço para todas nós e para as que vão chegar”, diz Silvia.

Pernambuco também segue a tendência

Em Pernambuco algumas editoras seguem um perfil parecido: projetos independentes que publicam livros impressos a partir de uma linha editorial específica. Um dos mais conhecidos é a Livrinho de Papel Finíssimo Editora, que há oito anos apresenta autores pernambucanos em publicações com diferentes propostas.

“Já experimentamos vários formatos de publicações, desde o fanzine (que é a maneira mais rápida, barata e acessível de publicar), como formatos artesanais mais sofisticados, com capa dura, ou recursos de uma impressão em tiragens de mil exemplares em grandes gráficas”, destaca Sabrina Carvalho, uma das editoras da Papel Finíssimo – completam a equipe Leta Vasconcelos, Camilo Maia, Fred Vasconcelos e Rodrigo Acioli. “Acreditamos que, além das superações em formatos, buscamos diminuir, em muitos aspectos, a distância entre o artista e a oportunidade de publicação”, ressalta.

A editora segue a herança de projetos independentes das décadas anteriores, com patrocínios e financiamentos públicos. “Quando a Livrinho surgiu, existia um monopólio muito maior das grandes editoras, no sentido de ditar o que está sendo lido e vendido como publicação, do que hoje”, lembra Sabrina. “Mas o universo de publicações independentes ferve desde os anos 1980, com fanzines, HQs independentes e movimentos de poetas e escritores. Cresceu também com as leis de incentivo, patrocínios, financiamentos públicos e ampliação do acesso aos recursos e equipamentos para produção de livros. O somatório desses fatores impulsionou essa explosão de editoras independentes em todo país”, destaca.

Saiba mais

FUTURO – Para este ano, a Livrinho prepara o Festival de Publicação (Publique-se!), além de novas linhas editoriais e atividades de formação.

TRAJETÓRIA – De 2007 até hoje, a editora já lançou mais de 70 livros, com tiragens que variam entre 100 e mil exemplares.

HOLANDA – A Rádio Londres projeta o lançamento de obras importantes da literatura holandesa: “Joe Speedboat”, de Tommy Weiringa; “Tirza”, de Arnon Grunberg, “Tudo está tranquilo lá em cima” e “Dez gansos brancos”, de Gerbrand Bakker.

CLÁSSICO – O próximo lançamento da Poetisa indica o perfil da editora: “O Coelho de Veludo”, com tradução de Davi Gonçalves. A obra terá ilustrações produzidas a mão, com grafite e aquarela, criadas especialmente para o livro – um clássico infantil inédito no Brasil.

MUNDARÉU – Entre os lançamentos da editora, destaque para “Marcha de Radetzky”, de Joseph Roth; “O súdito”, de Heinrich Mann; e “Memórias de um oficial de infantaria”, de Siegfried Sassoon.

Compartilhe

Sobre o autor

Jornalista. Escreve sobre literatura e cinema no caderno de cultura do jornal Folha de Pernambuco desde 2009.

Comente!