Newton Moreno fala sobre Ópera e outro contos

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THIAGO CORRÊA | Para começar, o que tem de teatro na sua literatura?

NEWTON MORENO | Como venho do teatro, formado como ator, começo pelo/pela personagem. Vício do ator que quer estudar e conhecer o personagem melhor que ninguém, dissecá-lo, estudá-lo. Suas tensões, sua grande dúvida, seu risco em estar vivo,  sua cicatriz, o que o torna torto, falho, o mais humano e verdadeiro que posso achar nele e em mim.

Mas o fato é que aprendi a ‘ler’ através da escrita para o palco e isto com certeza marca a minha produção nos dois campos. Ajudou o fato de que meus ídolos produziram para vários suportes (De Nelson Rodrigues a Shakespeare, passando por Genet e Suassuna). Logo meu começo, minha ‘alfabetização’ na bela literatura se deu através do teatro, tangenciando literatura e vice-versa.  Literatura e literatura dramática estavam de mãos dadas e seguem assim para mim.  Sempre penso em escrever como se o texto pertencesse a um leitor solitário e também a todas as dinâmicas e interlocuções de uma montagem teatral. Nem sempre servem da mesma forma e com a mesma força, ajustes nestas traduções se fazem necessários, mas gosto de pesquisar esta zona híbrida, fronteiriça.

TC | O Coletivo Angu encenou a peça Ópera, que reúne quatro histórias suas, três das quais presentes no livro. Para contextualizar, essas histórias já eram contos ou primeiro foram escritas como peças e só depois transformadas em contos? O que houve com Culpa, que integrou a peça, mas não entrou no livro?

NM | Ópera tem três fases.

A primeira foi entregue ao Coletivo Angu em 2006 quando eles estavam procurando novo livro de contos para levar à cena, assim como fizeram com a obra de Marcelino Freire, nosso querido prefaciador. André Brasileiro e Marcondes Lima selecionaram os contos de personagens homoafetivos para compor o espetáculo. Culpa fazia parte desta seleção e foi escrito num período em que viver com Aids tinha um peso que felizmente não vejo mais; sim, ainda existe preconceito, mas há muitos casais que transformaram a noção do que é viver com HIV. Acho importante rever este lugar e por isto Culpa se transformou. Mantivemos na peça a base do conto, um marido na beira da morte escolhendo seu sucessor como ato final de amor e despedida. Nesta primeira fase, personagens das bordas eram os protagonistas desta ópera: desvairados, elétricos, intensos em busca de parceria, de encontros, de algum afeto possível.

Depois surgiram alguns contos que tinham uma potência de tragédia familiar. Um guenos que guiava e amaldiçoava as ações no berço da família. E, por fim, não resisti a fabular sobre a paixão pela literatura, pelas palavras, pela metáfora. E alguns contos da terceira fase são declarações de amor e desassossego ao duro e belo ofício da escrita.

Sim, como primeiro livro Ópera serve a muitos patrões. Talvez mapeando áreas do meu imaginário que podem se desdobrar em novas escritas. O que une tudo é relação extrema, exagerada, por vezes melodramática, sempre urgente. Queria por sangue nas minhas palavras ou escrevê-las com sangue.

TC | A homossexualidade é um tema recorrente no livro, ela aparece nos contos Ópera, Surpresa, O primeiro casal, Virgem, João e Rosalinda, A despedida, O troféu e Tu nunca saberás o que é o amor. O que te atrai nesse tema? Num plano mais amplo, percebo que essa questão da homossexualidade se soma a outros temas presentes, como a questão racial, econômica e mesmo sexual, fazendo com que o eixo do livro seja mais o das minorias, da periferia. Qual a importância de dar voz a quem não tem direito a voz na sociedade? Como você observa o papel do escritor nessa missão?

NM | O recorte mais claro de Ópera, que abraça a maioria dos contos é realmente falar da ‘margem de nossa sociedade’. Devolver este ‘exilado’ para o protagonismo social. Grupos que são ditos como minoritários ganham a cena e visibilidade. Queria falar destes amores periféricos, estranhados, estranhos, queers. Sinto-me na obrigação de buscar estes personagens e dá-lhe passagem, voz, grito, vez. Força na diversidade, na multiplicidade, a riqueza da aquarela humana que nos cerca.

A homossexualidade tem maior protagonismo porque é o lugar de onde falo, tenho mais propriedade, memória e reflexão. São temas que me atravessam mais, mas é importante também olhar de dentro com autocrítica, ver os mecanismos viciados dentro da comunidade, preconceitos introjetados.

TC | No conto Uma história que alguém me contou, você constrói uma situação em que os passageiros do metrô são acuados pela presença de uma negra bêbada, mas que acabam envolvidos pela história que ela conta. E isso parece ilustrar bem o espírito do livro, onde você se vale de personagens periféricos, que vão na contramão do status quo e o colocam sob perspectiva. Embora no primeiro plano o foco pareça ser o personagem em si, nas entrelinhas a história está mais para o mundo em que ele vive, com os preconceitos e violências da sociedade. Como funciona essa técnica de inversão, de observar a maioria por uma perspectiva de minoria?

NM | Ópera quer mostrar a força das bordas, do esquecido, do esquisito. A ideia é construir poesia, encanto em personagens ‘afásicos’, que quebram a hegemonia, a normatividade, que se reafirmam na sua estranheza, no que o faz diferentes. Nega Sônia vê sua identidade destruída coma doença que lhe embranquece e quer recuperar sua negritude como sua grande força, assim como o escravo João só se sente livre quando se assume Rosalinda, e por aí vai. É uma gangorra entre margem-centro que sempre se redefine, mas aponta para necessidade de mergulhar nas diversidades. São todos falhos, inseguros e bravos, ambíguos, como se quiséssemos descobrir humanidade nas diferenças, o que o ‘diferente de mim’ pode me ensinar sobre mim.

TC | Ao contrário de outros contos que se valem do plano real, em Ressurreição, A espera e Sem sangue você se utiliza de elementos fantásticos. Queria que você falasse um pouco desse recurso ficcional, o que muda quando você opta por expandir o real?

NM | Acho que sinalizo com este recurso, o próximo movimento. Um novo livro de contos onde o imaterial seria protagonista e organizador. Gosto do estranhamento, de um realismo estranhado ou cindido pela intervenção do inumano. Quero ser um operário do encantamento, sou das rezas e crenças, gosto dos oráculos atravessando nossas vidas para nos fazer compreender nossa mortalidade e finitude e para ter um ‘trailer da eternidade’. Um pouco de espanto, de fé, de além. Certamente, meu próximo livro de contos vai pegar este bastão para se construir.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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