Nosso grão mais fino – José Luiz Passos

3
[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

nosso graoAutor: José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Atualmente ensina literatura na Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). Seu segundo romance, O sonâmbulo amador (2011), venceu os prêmios Portugal Telecom e Brasília.

Livro: Nosso grão mais fino é o romance de estreia de Passos. A edição mantém o ótimo padrão de diagramação, escolha do papel e tipografia da Alfaguara, porém o projeto da capa é insatisfatório e um dos mais fracos da editora.

Tema e enredo: Descendente da decadente aristocracia do açúcar em Pernambuco, o livro nos mostra momentos importantes da vida do seu protagonista, Vicente, através de cenas com pessoas marcantes na sua vida, tais como Ana Corama, seu próprio pai, ou seu “irmão” Zelino.

Forma: A estrutura é fragmentada e não linear. Embora haja várias vozes no romance, Vicente é a predominante.

[/learn_more] [learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Nosso grão mais fino

Lançado em 2009, Nosso grão mais fino é uma boa estreia. No entanto, assim como um bom time de futebol em que elementos como a preparação física, ou o esquema tático, estão aquém do talento individual dos seus craques, a experiência de leitura que tive com o romance diz respeito mais a uma impressão positiva de momentos individuais – uma voz, o sexo, a enxurrada lavando uma cidade – do que ao conjunto em si do livro. Neste sentido, O sonâmbulo amador consegue trabalhar de maneira mais elaborada justamente algumas das ressalvas que desejo apontar nessa primeira reflexão a respeito do José Luiz Passos ficcionista.

Seria correto, contudo, afirmar que no caso de O sonâmbulo amador houve uma “evolução” da escrita de Passos? Aqui, poderia haver um interessante debate, mas cuja trilha não seguirei hoje: a cada novo livro, bons escritores como Passos ganham e perdem. Sim, O sonâmbulo amador é melhor estruturado, mais complexo, melhor afinado; por outro lado, há em Nosso grão mais fino uma pulsão poética que, quando acerta o alvo, conseguiu me falar mais fundo do que a voz de Jurandir, o narrador do Sonâmbulo. Penso que há muitas maturidades, mesmo quando estamos lidando com o momento iniciante de um escritor; a criação literária adora dar rasteiras em qualquer leitura cronológica do seu próprio surgimento e desdobramento. É para isso que lemos literatura, afinal de contas: o seu propósito consiste em atar e desatar novos laços na trama do tempo.

Em certo momento do romance, Vicente, a principal voz de Nosso grão mais fino, afirma isto a respeito de uma das várias lembranças que ele procura retomar: “Sinto como se fosse o próprio dia”. O livro de Passos não possui um enredo no sentido tradicional do termo, mas sim uma apresentação de momentos-chave na vida de um homem que conheceu a decadência tanto financeira, como psicológica. Esta trajetória nos é contada de maneira não linear e subjetiva; fraturado, Vicente cria para si uma narrativa feita de fragmentos e incompletude. Neto de senhor de engenho e químico de profissão, envolvido com um amor incestuoso por Ana Corama, esposa do seu tio, Vicente faz parte daquela linhagem de personagens composta de herdeiros que não se adaptam. O primo contemporâneo de Nosso grão mais fino talvez seja um dos melhores romances da década de 90, o excepcional Coivara da Memória, do sergipano Francisco J.C. Dantas. Também temos, em Dantas, o mesmo mundo nordestino arruinado e que nos é apresentado por um narrador problemático e inadaptado. Nos dois livros, a memória de um avô lança sobre todos uma sombra na qual se misturam orgulho e repulsa a respeito da memória patriarcal do mandonismo.

Duas vozes marcantes estão presentes em Nosso grão mais fino: o já citado Vicente e Ana Corama. Uma funciona sempre. A outra, nem tanto. A complexidade da voz de Vicente é bem realizada: sua condição psiquiátrica duvidosa, o amor desencontrado por Ana Corama, a decadência financeira, a memória cheia de traumas, todos estes elementos funcionam como vigas-mestra que potencializam sua voz. Corama, por outro lado, sempre que sobe ao palco, não apresenta a mesma força. Por quê? A hipótese que proponho: falta a ela maior complexidade como personagem. Há muitos momentos bonitos em sua fala, mas outros nos quais ela parece falar em um tom pouco convicente. Há, por exemplo, um bom achado formal no livro, no qual os diálogos entre Ana e Vicente são estruturados de forma a parecerem recortes impressos na página. Essa sensação é corroborada pelo fato de que cada recorte muitas vezes acontece em um plano temporal ligeiramente diferente, o que inclusive se reflete na conjugação dos verbos. Apesar de apreciar a inventividade, quando um novo capítulo se iniciava e eu tinha apenas Vicente como narrador, a escrita me soava sempre mais fluida e interessante. Deste modo, sinto que Nosso grão mais fino possui uma estrutura excessivamente fragmentada e o romance teria se beneficiado de um centro organizador mais firme. “O que danado aconteceu com Jurandir?”: é esta a pergunta central de O sonâmbulo amador, uma espécie de centro operacional secreto do romance. Como contraponto à estrutura difusa e às raízes profundas da memória contidas em Nosso grão mais fino, precisaríamos de uma pergunta semelhante que criasse as fundações para o romance de estreia de Passos.

“É preciso cortar gorduras”; “menos é melhor” – muitas vezes ouvimos. No caso de Nosso grão mais fino, o romance poderia muito bem ter sido mais guloso. Sinto falta de mais Zelino, ou de mais desenvolvimento – porém não necessariamente “respostas” – a respeito do fascinante personagem Dahirou Corama, o pai de Ana. As cenas do zeppellin sobrevoando o Recife e o litoral pernambucano, por exemplo, são uma das melhores do livro e o espelhamento entre a queda de Dahirou, que se joga do zepellin, e o próprio declínio de Vicente, uma ótima metáfora. Ficamos, durante leitura, mais ou menos na órbita do seu narrador principal; não é pouco, porém o seu mundo ficional teria ganhado se tivesse se expandido em diferentes direções. Outras boas cenas são o longo diálogo que descreve o sexo entre Vicente e Ana Corama, assim como o capítulo da morte de Fedra e a descrição de uma enchente, perto já do encerramento do livro.

Se aproximei Passos de Dantas, gostaria de lembrar outro escritor contemporâneo cuja obra, se posta em diálogo com a do autor de O sonâmbulo amador, pode nos trazer boas reflexões: Milton Hatoum. Temas como família, bastardia, desejo, memória e os atropelos da implementação de uma modernização conservadora ao longo do nosso século XX têm nos dois autores interessantes interpretações. Edward Said, no seu livro Beginnings: intention & method, chama atenção para o fato de que teria havido nos projetos da Modernidade uma discussão sobre a crise das filiações familiares, cuja contrarresposta teria sido muitas vezes a reorganização do mundo a partir de afiliações (crise esta que, em termos de uma política de reestruturação de Estados, causou todo um show de horrores). Cada um a seu modo, Hatoum e Passos estão pensando sobre este impasse, cujos ecos ainda reverberam e ajudaram a formar o mundo contemporâneo. E assim como Dois irmãos é uma retomada e uma sofisticação de muitos elementos apresentados no romance de estreia do amazonense, Relato de um certo Oriente, O sonâmbulo amador é uma retomada de certa ambientação, vozes e preocupações temáticas já armadas em Nosso grão mais fino. Vicente é um personagem que guarda muitas afinidades com Jurandir e não apenas porque paira sob ambos uma suspeição psiquiátrica. Há um achado interessante que Passos está desenvolvendo, o de dotar seus dois narradores de uma voz humilde, cuja força reside no contraste entre dicção e adensamento de ideias e metáforas. Por “humilde”, não me refiro exatamente à condição social dos narradores, mas sim a uma espécie de simplicidade de superfície, um traço à primeira vista simplório no caráter deles. É um empreendimento de risco. Sua eficácia depende de um justo equilíbrio entre ser coerente com aquilo que um personagem é e a necessidade de não abrir mão da complexidade. Nosso grão mais fino abriu a porta e O sonâmbulo amador deu alguns passos adiante; assim, as obras futuras certamente vão merecer nosso olhar atento.

Lido em jun. de 2014

Escrito em 15.06.2014

[author][author_image timthumb=’on’]http://www.vacatussa.com/wp-content/uploads/2014/05/cristhiano1.jpg[/author_image] [author_info]Cristhiano Aguiar

———–

Currículo: Escritor e crítico literário, doutorando  [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Nosso grão mais fino

José Luiz Passos

Alfaguara

1ª Edição, 2009

157 páginas

[/learn_more] [learn_more caption=”TRECHO” state=”close”]

“Então Dahirou, naquilo um homem verdadeiramente tresnoitado, pulou para for a do balão. Corri e ainda pude ver seus óculos caídos no chão. Apanhei-os. Avancei até a escotilha e pus a cabeça na noite. Zelino, era o pai de Ana Corama que tinha pulado. Ele próprio, naquela hora, decidiu dar o salto. Eu vi. E, tombando no ar medonho, Dahirou certamente também me via. Entre nós dois e aquela ventania, ficamos atônitos, o mundo inteiro atônito acima e abaixo do corpo cadente daquele estrangeiro”

[/learn_more] [learn_more caption=”OUTRAS OPINIÕES” state=”close”]

Alfredo Monte, Tribuna de Santos

(http://armonte.wordpress.com/tag/nosso-grao-mais-fino/)

“Esse drama familiar portentoso (cujo cerne é, sobretudo, a questão da identidade pessoal), em sua concentração poética, apresenta tal fermentação, tal tensão em seu emaranhamento, que muitas vezes a sintaxe “normal” é quebrada (há várias inversões frasais, principalmente no desafiador começo do livro), as formulações roçam um lirismo desautomatizador da lógica da linguagem (“olho para ela e ela me ouve” ou ainda “Você tem nos olhos o mesmo baque de seu pai, Ana”); por isso, não é de surpreender que, na ebulição de todos esses ingredientes e fios enredados, a parte final do livro relate uma enchente destruidora em Recife (Vicente e Gaetano ali consomem os resquícios do patrimônio familiar e roem a solidão dos deixados para trás), a qual parece trazer tudo de roldão. De fato, contrariando uma afirmação de Ana Corama (admoestando Vicente, “seu contato com o mundo é por vapores”), “Deve-se amar sem metáforas”, ironicamente a catástrofe parece ser a corporificação literal de uma metáfora: uma vida de coisas submergidas, de afetos e fetiches afogados pelo Tempo.”

[/learn_more] [learn_more caption=”LEIA TAMBÉM” state=”close”]

Do mesmo autor

O sonâmbulo amador – José Luiz Passos

Romance com pessoas – José Luiz Passos

[/learn_more]
Compartilhe

Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

3 Comentários

  1. Pingback: Dossiê: José Luiz Passos - vacatussa

  2. Pingback: O sonâmbulo amador - José Luiz Passos - vacatussa

  3. Pingback: José Luiz Passos e o seu Romance com pessoas - Anco Márcio Tenório Vieira - vacatussa

Comente!