Nossos ossos – Marcelino Freire

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[learn_more caption=”PRÓLOGO” state=”open”]

mf-ossosAutor: Marcelino Freire nasceu na cidade de Sertânia, interior de Pernambuco, em 1967. É um dos principais nomes da geração consolidada através das antologias da Geração 90. Entre seus livros, se destacam Angu de Sangue (2000) e Contos Negreiros (2005), pelo qual venceu o Prêmio Jabuti de contos.

Livro: Nossos Ossos é a primeira novela de Marcelino Freire, que já tinha se consagrado como contista. O projeto gráfico da Record é excelente, com destaque para o ótimo desenho de capa de Lourenço Mutarelli.

Tema e Enredo: Com fortes tons autobiográficos, a novela conta a trajetória de vida de Heleno, sertanejo pernambucano que se consolida em São Paulo como dramaturgo e entra em crise ao saber que um dos seus amantes foi assassinado.

Forma: O livro conta, através de episódios alternados, a tentativa de Heleno de remeter o cadáver do garoto assassinado para o interior do Nordeste, bem como as memórias da infância e da chegada do protagonista à cidade de São Paulo.

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[learn_more caption=”CRÍTICAS” state=”open”]

Há seis anos, publiquei na revista Continente uma resenha do então último livro publicado por Marcelino Freire. No texto, escrevi o seguinte: “Rasif indica um autor de carreira firmada e obra amadurecida. A partir de agora, o maior desafio de Marcelino Freire e de outros escritores da sua geração será evitar o impasse do estilo”. Penso que a novela Nossos Ossos representa novos ares na obra de Marcelino. Não pelo fato de que haja uma ruptura, como pode acontecer em tantos autores, no tocante à temática, ao repertório de personagens ou ao estilo, mas sim porque a “prosa longa”, termo que o próprio autor utiliza para classificar seu livro, permitiu a Marcelino desdobrar uma série de inquietações presentes nos livros anteriores. Penso que após Amar é crime e Rasif, o impacto do seu universo narrativo precisava de uma renovação e este é um dos motivos para que possamos considerar a publicação de Nossos Ossos tão bem-vinda.

Dramaturgo pernambucano radicado em São Paulo, Heleno passa por uma série de dificuldades, que envolvem de privações financeiras a uma forte desilusão amorosa, até finalmente conseguir “vencer” a cidade e se firmar como um artista reconhecido (e com algum dinheiro). Nós o encontramos em um momento de crise, desencadeado pelo assassinato de um garoto de programa de origem nordestina, com quem o narrador de Nossos Ossos saiu algumas vezes. Arrasado com a morte do seu boy, Heleno decide descobrir as origens do falecido e custear o envio do seu cadáver até o interior do Nordeste. Abrem-se então duas linhas narrativas: a primeira, a busca a respeito da identidade e origens do boy assassinado, trama desvelada em um ritmo quase de novela policial; a segunda linha se encontra no plano da memória, com uma retomada não linear, por parte do narrador, de momentos marcantes da sua vida, tanto no sertão de Pernambuco, quanto na sua vida em São Paulo. Investigação e rememoração se alternam em uma estrutura de episódios, na qual vários dos capítulos poderiam com tranquilidade ser destacados e funcionar como crônicas e/ou contos. A estrutura, principalmente na primeira parte do livro, funciona: assim como os personagens narradores de Sidney Rocha e José Luiz Passos, cujas obras foram objeto de debates em nossos Dossiês anteriores, a vida de Heleno só pode ser contada pela elipse e pela incompletude. Embora haja um fechamento dos dois arcos narrativos, bem como uma voz forte – a de Heleno – articulando todo o livro, Nossos Ossos possui uma fluidez bem-vinda e, inclusive, uma pitada de metalinguagem que, ao terminarmos o livro, nos faz questionar a própria natureza do que foi representado.

Dor e fragilidade são os principais ingredientes que compõem boa parte dos personagens de Marcelino Freire e é neste ponto que o protagonista Heleno, narrador do livro, se diferencia dos demais. Como tantos outros personagens de Freire, o sofrimento é uma marca determinante, contudo o comportamento do personagem e a maneira como sua voz é construída na narrativa chamam atenção. Violência, ironia, revolta e luxúria: a resposta ao trauma e às feridas é elaborada, de modo geral pelos personagens dos contos de Marcelino, desta maneira. Heleno, contudo, se revela mediante outros caminhos. Sua dicção é menos bélica e mais íntima; ele fala baixo e de maneira doída.

Criar com o leitor uma empatia com seus personagens sempre foi um trunfo dos melhores contos de Marcelino Freire. Além disso, como no já clássico Muribeca, ou no esperto Solar dos Príncipes, era um prazer sofrer “rasteiras” dos seus personagens, no sentido de que eles muitas vezes pensavam o mundo e faziam escolhas de uma maneira que invertia os possíveis pré-conceitos que poderíamos ter a respeito deles. No caso da constituição da voz de Heleno, Nossos Ossos estabelece todo um novo espectro de matizes emocionais que, até então, eu não encontrava habitando um único personagem de Marcelino. Dessa maneira, o repertório de imagens da novela ganhou em complexidade.

A vida das ruas e a tensão nas relações humanas aparecem permeadas pelo tema da precarização das condições econômicas de boa parte dos seus personagens. O boy assassinado é o exemplo da tragédia social, sempre denunciada nos livros anteriores de Marcelino (e várias vezes também articulada com as dificuldades do exercício, em uma sociedade violenta e machista, da homoafetividade). A forma novela permitiu, no caso específico do nosso autor nascido em Sertânia, a abertura de novos flancos através dos quais a escrita pode continuar a dar conta do compromisso de crítica social, que desempenha papel tão importante em seu projeto literário. Entretanto, são as vicissitudes e idiossincrasias das trajetórias individuais dos personagens o caminho mais fecundo à criação ficcional, e não necessariamente o “dar a voz aos excluídos” ou “denunciar tudo que está de errado por aí”; Nossos Ossos tem total consciência disso e se a dor é do povo, ela é também principalmente a do próprio Heleno.

Outro ponto positivo do livro é o fato de que memória, degradação social e metalinguagem se entrelaçam a fim de evitar armadilhas típicas de certa produção literária contemporânea. Que bom termos um Heleno frágil (e, articulando com Zé Luiz e Sidney, pudemos perceber que parte considerável de sua contribuição à literatura contemporânea diz respeito ao modo como constroem seus narradores): evitamos o cinismo ainda frequente na produção atual, principalmente aquela produzida ao redor de grandes centros urbanos como Recife, São Paulo, Rio de Janeiro. Não é raro em nossa ficção dos anos 80 para cá encontrar protagonistas héteros de meia idade, cultos, artistas, que se relacionam com prostitutas e flanam de modo superior pelas grandes cidades poluídas, destilando sua sabedoria para os ouvidos de todos a respeito da suposta decadência da cultura e a contrapondo às suas próprias realizações e trepadas. A crise da meia idade, o tema da prostituição, a cidade e o teatro são abordados em Nossos Ossos com uma bem dosada mistura de delicadeza e brutalidade. A metalinguagem, ao surgir na novela, implica uma discreta desestabilização do livro, pois tudo que Heleno nos contou, inclusive a sua iminente morte, pode ser, afinal de contas, um monólogo teatral que se apresentou, sem sabermos, no tempo real da leitura. Além disso, há um momento no qual a viagem de retorno à terra natal se revela, possivelmente, uma projeção construída pela imaginação, o que ajuda a dirimir um pouco as fortes tintas nostálgicas com as quais Marcelino, e Nossos Ossos não é exceção, retrata o Nordeste Deixado Para Trás.

Por fim, tenho algumas implicâncias com o andamento do livro e o seu fôlego. Penso que a segunda parte sofre de certa pressa para acabar. Há uma revelação ligada à saúde do protagonista que me soou mal aproveitada e não tem o pleno impacto que poderia ter. Além disso, o capítulo Os hiatos muda, salvo engano é o único momento em todo o livro no qual isso ocorre, subitamente o foco narrativo da primeira para a terceira pessoa (e não creio que se trate de uma falsa terceira pessoa), sem que haja um real aproveitamento disso. De qualquer modo, nem todos os contistas fazem bons romances e novelas; o mesmo pode ser dito dos romancistas que procuram as formas mais breves. No caso de Marcelino Freire, a estreia convenceu e a prosa longa se torna, a partir de agora, uma vereda bastante viável.

Relido em jun./jul. de 2014

Escrito em 07.07.2014

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[author_info]Cristhiano Aguiar é escritor e crítico literário, doutorando em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. [/author_info] [/author] [/learn_more] [learn_more caption=”FICHA TÉCNICA” state=”close”]

Nossos Ossos

Marcelino Freire

Record

1a. edição, 2013

120 p.

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“Cavei, no passado, bem neste ponto, eu me recordo, um lago só para mim, um rio subterrâneo, quem sabe, dali, o meu mágico figurino ressuscitasse aos meus olhos, afasto da frente a colônia de cupins, o redemoinho de espinhos, restos de pedras vulcânicas, para isto minhas mãos continuam calejadas, finco as garras, sertanejas, ora paulistanas, com elas eu seria capaz de garimpar o deserto, daquele mar de pó, em Sertânia, eu levantaria e adentraria verdadeiras garagens de concreto”

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Márcia Tiburi, Revista Cult

(http://revistacult.uol.com.br/home/2013/12/uma-escolha-%E2%80%93-sobre-nossos-ossos-de-marcelino-freire/).

“A história parece de verdade. É honesta como tudo o que se liberta da obrigação de ser verdade e mesmo assim permanece sendo verdadeiro. Talvez porque o cadáver do amante de Heleno que está no centro da narrativa seja essa verdade: uma metáfora válida para todo mundo, para qualquer um. Quem não carrega algum morto desses como o que Heleno carregou?”

Raimundo Carrero, Rascunho

(http://rascunho.gazetadopovo.com.br/nossos-ossos-agora-estao-nus-e-expostos/).

“É um livro em que Marcelino avança firme para a maturidade, revelando o que veio fazer na literatura brasileira, e por que está consagrado pelo domínio da técnica. Mesmo quando a técnica parece meramente intuitiva.”

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Do mesmo autor

Angu de sangue – Marcelino Freire

BaléRalé – Marcelino Freire

Contos Negreiros – Marcelino Freire

Rasif: mar que arrebenta – Marcelino Freire

Amar é crime – Marcelino Freire

Entrevista

Entrevista de Marcelino Freire ao Vacatussa (julho de 2014)

Links relacionados

Blog do autor: Ossos do ofídio

Rádio: Entrevista de Marcelino Freire ao Café Colombo

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Sobre o autor

Escritor, crítico literário e professor. É doutor em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE. Participou da revista Granta – Melhores Jovens Escritores Brasileiros e atuou como pesquisador-visitante da University of California, Berkeley. Editou as revistas experimentais Crispim e Eita!. Tem textos publicados na Inglaterra, Estados Unidos e Argentina. Atualmente edita o site Vacatussa.

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  1. Pingback: Marcelino Freire e Samarone Lima entre os vencedores da Biblioteca Nacional - vacatussa

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