Notícias do Planalto – Mario Sergio Conti

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PRÓLOGO

Autor: Mario Sergio Conti nasceu em São Paulo-SP (1954). É jornalista, trabalhou como repórter da Folha de S. Paulo, diretor de redação da revista Veja e da revista Piauí, foi apresentador do programa de TV Roda Viva e atualmente apresenta o programa Diálogos, na Globo News. Junto com Ivan Lessa, publicou o livro Eles foram para Petrópolis (2009).

Livro: Notícias do Planalto foi publicado em 1999. O livro foi o terceiro lugar, na categoria reportagem, do Prêmio Jabuti em 2000. A obra teve seus direitos comprados pelo produtor Rodrigo Teixeira e deve virar filme em 2017.

Tema e enredo: A obra acompanha a trajetória política de Fernando Collor, desde os seus anos de formação, passando pela eleição presidencial de 1989, até a sua derrocada, quando deixou a presidência após sofrer impeachment.

Forma: Apesar da densidade de detalhes e informações, a obra explora bem a tensão do cotidiano político e jornalístico, conseguindo dar movimento a uma narrativa, com picos de clímax e anticlímax.

CRÍTICA 

A construção de uma fraude

Nesses tempos tumultuados em que o termo impeachment voltou como eufemismo de golpe ao vocabulário dos brasileiros, uma leitura que se faz recomendável é a do livro Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor, escrito pelo jornalista Mario Sergio Conti. Como o título indica, a obra acompanha a trajetória do primeiro presidente eleito após a ditadura militar, desde a sua formação até se tornar ex-presidente por conta de um processo de impeachment. Para dar conta dessa tarefa, Conti opta pela perspectiva da imprensa. Uma escolha que, no caso de Fernando Collor, torna-se até natural.

Como bem lembra Mario Sergio Conti, Collor é filho de Arnon de Mello, jornalista experiente que chegou a ser governador de Alagoas e senador, montou um conglomerado midiático formado pelo jornal Gazeta de Alagoas, a rádio Gazeta AM e TV Gazeta, afiliada da Rede Globo. Preocupado com o futuro do filho, que acabara de trancar o curso de Economia, Arnon de Mello arranjou para Collor um emprego na sucursal do Jornal do Brasil em Brasília e, anos depois, salvou o filho de uma aventura mal sucedida no mercado financeiro sob a condição de que ele assumisse a direção da Gazeta de Alagoas e a Gazeta FM, que logo se ampliaria com a fundação da TV Gazeta na gestão de Collor.

Assim, Mario Sergio Conti mostra como a experiência acabou dando a Collor a expertise de lidar com a imprensa. Numa época em que os marqueteiros ainda estavam longe de desfrutar do prestígio que hoje gozam, Fernando Collor soube aproveitar seu conhecimento midiático para conquistar espaço na imprensa e construir a imagem de um político moderno e jovial, apesar de, na prática, ter se mostrado um conservador. Primeiro, para se eleger como governador de Alagoas e, depois, como candidato à presidência do Brasil. Um pulo nada modesto, mas que se tornou viável após trabalhos com pesquisas de opinião, elaboração de pautas para sua inserção na mídia, mimos a jornalistas (Collor gostava de enviar lagostins congelados aos repórteres que lhe fossem convenientes) e discursos inflamados contra o capenga Governo Sarney.

Ao mesmo tempo, na medida em que traça o percurso de Collor por meio das suas aparições na imprensa, Mario Sergio Conti aproveita para apresentar esses veículos. Num grau de minúcia que talvez prejudique o andamento da leitura com suas longas digressões, Conti mostra – pelo histórico dos jornais e revistas, informações sobre a sua fundação, crises econômicas enfrentadas e relações com o poder – que o discurso de imparcialidade proferido pela imprensa brasileira não passa de um recurso retórico.

Para quem é jornalista ou estudante de comunicação, no entanto, o livro se impõe ainda mais como leitura obrigatória. Não “apenas” por ser indispensável para a compreensão de um momento crítico da história recente do Brasil, mas por revelar os bastidores das redações, com direito aos caminhos incertos das carreiras dos jornalistas envolvidos na cobertura do Governo Collor, suas estratégias para conseguir pautas e informações, além das tensões típicas da vida de um repórter, como a busca pelo furo, preocupações com a concorrência e tensões com os chefes.

Entre os personagens dessa história, temos profissionais que hoje figuram no panteão do jornalismo nacional, mas num período chave de suas carreiras, quando ainda estavam galgando esse caminho e tiveram a oportunidade de testemunhar um importante período da vida política brasileira. Na lista, por exemplo, estão nomes como o de Elio Gaspari, Mino Carta, Boris Casoy, Ricardo Boechat, Ricardo Noblat, Ancelmo Gois, Cláudio Humberto, Armando Nogueira e o do próprio autor Mario Sergio Conti, que na época dirigia a revista Veja.

Embora o tom geral de Notícias do Planalto seja o de mostrar a importância do papel da imprensa na ascensão e derrocada de Collor, Mario Sergio Conti assume o papel de analisar a mídia (uma ponderação importante é a contradição que ele observa em relação ao aprofundamento do meio impresso e seu poder de influência limitado, em relação ao conteúdo rasteiro e grande audiência da televisão) e não se furta a alvejar com críticas a quem as merece. E nesse quesito a Globo, que voltou a ser questionada pelas mesmas razões sobre a sua massacrante cobertura contra a presidenta Dilma Rousseff, merece pesadas considerações por parte do autor. Desde menções a relação do seu fundador Roberto Marinho com a ditadura, quando costumava sabatinar os candidatos antes de serem nomeados ministros da Fazenda ou o episódio de noticiar um ato das Diretas Já como a comemoração pelo aniversário da cidade de São Paulo, até a fatídica cobertura do debate no segundo turno, dando tempos desiguais a Collor e Lula.

Apesar da maçaroca de informações reunidas em suas 790 páginas e do teor analítico do livro, Mario Sergio Conti mostra destreza ao utilizar o mix de forças envolvidas e personagens a disposição para dar movimento e ritmo à narrativa. Fazendo uso de situações ocorridas na história, Conti consegue dosá-las e imprimir emoção à leitura, construindo clímax, angústias, apreensões, receios e alívios através da mudança de perspectiva narrativa, aproximando os leitores dos pontos de vista dos personagens envolvidos, sejam eles os candidatos da eleição presidencial de 1989, dos jornalistas que fizeram a cobertura da trajetória de Collor e mesmo os eleitores.

Dessa forma, o autor faz com que a gente vibre, torça, se revolte e se angustie na medida em que acompanhamos fatos como a confusão provocada pelo lançamento da candidatura de Silvio Santos, o crescimento da campanha de Lula, as estratégias de parte da imprensa para frear a empolgação criada pelo metalúrgico (a exemplo da vinculação dos sequestradores do empresário Abílio Diniz a campanha do petista), o confisco das poupanças por parte do Governo Collor ou a insegurança de Pedro Collor antes de permitir que sua entrevista fosse publicada pela Veja.

Fatos que devem ser sempre lembrados para que momentos como este que estamos assistindo hoje, com o processo de impeachment de Dilma em curso, não sejam vistos como episódios isolados. Afinal, ao contrário do que se propaga como verdade absoluta hoje, os casos de corrupção envolvendo a Petrobrás e o pagamento de propinas por parte das empreiteiras Andrade Gutierrez, Oderbrecht e OAS não são criações dos governos petistas, mas já existem, pelo menos, desde o Governo Collor. Outro ponto de comparação interessante oferecido pelo livro é em relação a grande diferença abissal entre as acusações. Enquanto Dilma até o momento ainda preserva uma biografia honesta, o esquema de Collor já havia sido desvendado, com provas concretas de benefícios próprios, a exemplo dos luxos da reforma da Casa da Dinda, compra de apartamento em Paris e pagamento das despesas de Roseane Collor com recursos de Caixa 2.

Lido em janeiro/fevereiro de 2016
Escrito em 20.03.2016


Relação com o escritor: Nenhuma.

FICHA TÉCNICA

Notícias do Planalto: a imprensa e Fernando Collor
Mário Sergio Conti
Companhia das Letras
1ª edição, 1999
719 páginas

TRECHO

“Um mês depois do discurso de Covas, Roberto Marinho tinha um candidato: Fernando Collor. Numa entrevista a Neri Vitor Eich, da Folha de S. Paulo, declarou não acreditar que Covas tivesse ‘condições de eleger’ e julgou Collor ‘mais assentado, mais ponderado e mais equilibrado, com suas boas idéias privatistas’, do que os outros concorrentes. Se o candidato continuasse nesse caminho, acrescentou, ‘vou influir o máximo a favor dele’. Dito e feito. Cinco dias depois da entrevista, Roberto Marinho esteve outra vez com Collor e lhe disse: ‘Eu soube que há emissoras de TV que não te apoiam. Quero que você me diga quem são porque vou conversar com eles’. Roberto Marinho aderiu à candidatura de Collor porque era a que tinha mais condições de derrotar Lula e Brizola. Mas logo passou a gostar dele, considerando-o um jovem bem-apessoado, educado, com idéias sensatas para governar o país. Collor veio a integrar a lista dos políticos que mais admirou e com quem teve melhor relação: Castelo Branco, o único que considerou um ‘estadista’, Antônio Carlos Magalhães e José Sarney.’” (pp. 167-168)

EPÍLOGO

Cinema: Os direitos de Notícias do Planalto foram adquiridos pelo produtor Rodrigo Teixeira. A tarefa de adaptá-lo para o cinema está a cargo do roteirista de Angelo Defanti. A expectativa é que as filmagens ocorram no primeiro semestre de 2017.

Prêmio: O livro foi o terceiro lugar, na categoria reportagem, do Prêmio Jabuti em 2000. Em segundo lugar ficou Memórias do esquecimento de Flávio Aguiar e o primeiro colocado foi Estação Carandiru de Dráuzio Varella, que também foi eleito como o Livro do Ano na categoria Não Ficção.

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Sobre o autor

Jornalista e mestre em Teoria da Literatura pela UFPE, onde desenvolveu pesquisa sobre narrativa em literatura eletrônica. É um dos fundadores do Vacatussa, integrou a equipe do programa de rádio Café Colombo, passou pelas redações dos jornais Folha de Pernambuco e Diario de Pernambuco.

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